Cultura em Progresso

Por: Paula Craveiro
23 Janeiro 2015 - 10h21

Não dá para negar que ainda há um longo caminho a ser trilhado para que haja, efetivamente, uma cultura de doação no Brasil. No entanto, essa é uma missão que vale a pena ser empreendida, afinal, temos um terreno bastante fértil para esse aculturamento

Mobilizar recursos é uma tarefa bastante árdua. Os incentivos existentes são, em grande parte, relacionados a projetos específicos, fator que limita o desenvolvimento institucional das organizações.
Para que haja recursos disponíveis em abundância (ou o mais próximo possível disso), é preciso que eles sejam gerados desatrelados de projetos, de modo a fomentar uma cultura de doações e de financiamento coletivo, como se vê em outros países.
Sem dúvida, a “cultura de doação” no Brasil é bastante incipiente. Ainda é muito baixo o número de brasileiros que têm o hábito de doar, seja seu tempo, seu dinheiro ou sua mão de obra para as organizações sociais. Contudo, movimentos têm buscado mudar esse cenário, promovendo a cultura de doação no país. „

Entendendo o conceito de doação

A doação é um campo com muitas dissonâncias, considerando-se o fato de ser ainda recente e, portanto, necessitar de ajustes de foco e de novos pontos de vista.
No Brasil, o conceito de doação é frequentemente revestido de uma conotação assistencialista, caracterizada pelas relações assimétricas entre os atores e simbolizando, para muitos, uma modalidade de descompromisso social — como o de quem prefere pagar para não precisar agir. Isso explica o fato de que “colocar a mão no bolso” tende a ser visto como uma das principais formas de doação.
Toda organização social precisa de recursos financeiros — dinheiro para manter seus projetos, para garantir seu funcionamento. Não há dúvida quanto a isso. O modelo de financiamento das organizações da sociedade civil no mundo prevê seu financiamento a partir da doação em dinheiro dos indivíduos. Portanto, é comum que haja essa visão de que é preciso dinheiro para poder ser um doador.
“Mas é possível ampliar e rever essa perspectiva. Em primeiro lugar, porque doar não se resume a aportar cifras. Também é possível doar recursos técnicos e humanos, por exemplo. Da mesma forma, a ideia de doação não está dissociada das causas que elegemos, no âmbito das empresas. Doar não é uma forma de omissão, mas sim de reconhecimento de pautas sociais, legitimando-as e, principalmente, fortalecendo os atores sociais envolvidos”, afirma Paulo Castro, economista e diretor-executivo do Instituto C&A.

Existe uma cultura de doação no Brasil?

Fazer doações para essa ou aquela instituição social não é novidade para o povo brasileiro. No entanto, isso costuma ser feito de maneira esporádica. Por exemplo, anualmente, no mês de dezembro, muitas pessoas se mobilizam para preparar as “sacolinhas de Natal” para creches e ONGs. Roupas, calçados, brinquedos, produtos de higiene pessoal e doces são arrecadados para proporcionar um dia de felicidade na vida de crianças e adolescentes carentes. Outra situação é quando ocorre um desastre, natural ou não, em que há grande repercussão e, consequentemente, mobilização da população para arrecadação de alimentos, medicamentos e outros itens de primeira necessidade.
João Paulo Vergueiro, presidente da Associação Brasileira de Captadores de Recursos (ABCR), acredita que haja uma disposição natural do brasileiro para ajudar. “Mas ela é mais facilmente percebida em casos extremos, como na ocorrência de uma grande enchente, por exemplo. É uma disposição instintiva, que não é estratégica, que não é pensada de maneira que se promova a doação permanente. Não há a escolha uma causa para se defender, não há planejamento”.
Nesses dois casos fica evidente a boa vontade e a generosidade do brasileiro, que se dispõe, em nome do amor ao próximo e da solidariedade, a fazer o bem sem esperar nada em troca. Mas... e no restante do ano? Como ficam as crianças nos outros dias? E depois que o caos causado pelo impacto da tragédia for amenizado? Como ficarão as doações?
O conceito de cultura de doação visa estimular a doação contínua às instituições do Terceiro Setor, de modo que situações como as mencionadas anteriormente tenham prosseguimento e não sejam apenas auxílios pontuais. Seu objetivo é fazer com que as pessoas e as empresas compreendam a importância de ajudar regulamente as entidades.

Consolidação cultural

Levando em conta a disposição natural mencionada por Vergueiro, por que é, então, que as doações não acontecem da maneira desejada pelas instituições? Como estimular o fortalecimento da cultura de doação no país?
Segundo Marcelo Estraviz, empreendedor do Terceiro Setor e presidente do Instituto Doar, a melhor maneira de estimular a doação é falar a respeito (sempre) e saber quando e como pedir ajudar. “É essencial que as organizações do Terceiro Setor falem sobre doações, que as incentivem, que aprendam a expor com clareza as suas necessidades, que estimulem o envolvimento dos doadores em potencial, sejam pessoas físicas ou jurídicas. Também é muito importante que elas saibam pedir ajuda a quem pode ajudá-la — e todo mundo pode ajudá-la”, afirma. “É preciso ainda que as ONGs divulguem números e pesquisas capazes de comprovar a importância dessa ação ao desenvolvimento de suas iniciativas. É necessário ter em mente que muita gente não doa por desconfiar do destino das doações. Por isso, transparência, informações claras e disponibilidade para atender aos possíveis doadores são alguns aspectos primordiais nesse processo”.
De acordo com a pesquisa World Giving Index 2014, divulgada pelo Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (IDIS) em novembro passado, temos hoje no país aproximadamente 33 milhões de doadores, o que nos coloca entre os dez países com mais doadores no mundo. Em termos comparativos, isso indica que dispomos de um contingente de doares equivalente a um Canadá inteiro doando. “Porém, acontece que, percentualmente, somente um a cada cinco brasileiros doa e, nesse sentido, ocupamos o 90º lugar no ranking dentre os 135 países pesquisados, com doações estimadas em R$ 5,5 bilhões anuais”, lembra Estraviz.
É importante destacar que a criação e a consolidação de uma cultura de doação não dependem apenas das entidades do Terceiro Setor. Se você, leitor, já tem o hábito de doar, continue doando. Simples assim. Essa é a melhor forma de estimular as pessoas ao seu redor a seguirem os seus passos. “Doe e divulgue aos amigos que doou. Doe com seu filho; leve os brinquedos que ele não usa mais para uma creche perto de sua casa. Doe com os colegas do escritório, com seus amigos, converse com sua família sobre doações e qual poderia ser a próxima a ser feita entre todos. Ações sempre funcionam por meio do exemplo e não do discurso”, destaca Estraviz.
Para Vergueiro, “ainda estamos longe de podermos afirmar que temos uma cultura consolidada de doação no país. Para que isso finalmente aconteça, ‘doar’ tem que entrar na pauta das relações familiares, no cotidiano dos escritórios, nas disciplinas escolares. Tem que passar a ser discutido e praticado com regularidade, até se tornar um hábito. Temos muita solidariedade no país e isso já é um bom começo para que, com tempo, possamos ter efetivamente uma cultura de doação”, observa.

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Doações no mundo

De acordo com dados da última edição da pesquisa World Giving Index, o número de pessoas que ajudou a terceiros (pessoas desconhecidas) chegou a 2,3 bilhões, indicando crescimento em torno de 200 milhões de 2012 para 2013.
Este ano, os Estados Unidos compartilharam o primeiro lugar no ranking com Mianmar. A pontuação alcançada de 64% é a mais alta já registrada. Os Estados Unidos são o único país a entrar no Top 10 nos três tipos de doação cobertos pelo estudo: ajuda a um estranho (1º lugar), voluntariado (5º lugar conjunto) e doações de dinheiro (9º lugar). “Lá há o tem o hábito de doar, herança dos pioneiros que chegaram ao país. Escolas e hospitais foram construídos pelos primeiros habitantes, sem patrocínios ou ajuda do governo. Isso criou o costume do apoio comunitário e toda família americana tem seu dinheiro reservado para doações”, explica Estraviz.
Já Mianmar (país do sul da Ásia continental) melhorou de seu segundo lugar conjunto em relação ao relatado em 2013, com um aumento de 58 para 64%. A liderança no ranking se deve, principalmente, a uma incidência extraordinariamente alta de doações de dinheiro, que apresentou aumento ainda maior este ano, chegando a 91% em comparação aos 85% do relatório passado. O levantamento indica ainda que nove entre dez pessoas em Mianmar seguem a escola Theravada de budismo, que prega que as vidas dos Sangha (monges e freiras ordenados) são sustentadas pelo dana, doações por seguidores comuns da religião. Isso se traduz claramente em uma forte cultura de solidariedade, com o país em primeiro lugar pela doação de dinheiro e 13 pontos percentuais à frente do país em segundo lugar.
Um dos destaques do relatório foi a entrada da Malásia em sétimo lugar — em 2013, o país ocupou a 71ª posição. Essa evolução reflete o aumento de 26 pontos percentuais em sua pontuação. “Foi uma mudança bastante ampla, refletida em aumentos nos três métodos de doação e em todos os grupos de idade e gêneros, sugerindo uma mudança de comportamento generalizada na Malásia”, informa o estudo.
O país foi pesquisado no período após o Tufão Haiyan, que atingiu o arquipélago das Filipinas, em 8 de novembro de 2013. Portanto, os aumentos observados provavelmente refletem o desejo das pessoas da Malásia de ajudar seus vizinhos necessitados, seja ajudando um estranho, doando dinheiro ou por meio do voluntariado.
“Nos países que compõem o Top 10 do ranking, a doação está enraizada no dia-a-dia das pessoas. Tanto doar quanto pedir a doação. Isso vem de berço. Os governos locais reconhecem e estimulam a existência das organizações, que são valorizadas pelas pessoas; há lei de incentivo fiscal única, que não penaliza nem burocratiza o doador etc. Um cenário bem diferente do que acontece no Brasil”, pontua Estraviz.

Fazendo a sua parte

Conforme comentado no início desta matéria, a doação de dinheiro é, ainda, uma das formas mais comuns e relevantes de doação no país. Afinal, sem recursos financeiros, é praticamente impossível manter uma instituição em funcionamento e dar continuidade aos atendimentos prestados aos seus públicos. No entanto, existem outras maneiras igualmente válidas e importantes de ajudar.
Dentre essas maneiras, há a doação de heranças. Por aqui, é ainda algo bastante incomum, uma vez que poucas pessoas têm conhecimento dessa possibilidade. “Comecei a falar mais sobre isso desde que fui a Barcelona, em 2012, e vi anúncios de um conjunto de ONGs convidando as pessoas físicas a fazerem testamentos e deixarem parte de sua herança para alguma entidade social. Achei a ideia tão boa que comecei a conversar com algumas organizações aqui no Brasil para fazermos o mesmo. As poucas histórias que conheci de ONGs que receberam legados vieram de situações surpresa. Elas não esperavam receber esse dinheiro e mal sabiam o que fazer com ele”, conta Marcelo Estraviz.
Além de ser algo pouco difundido, temos ainda uma legislação que dificulta esse tipo de doação, fato que acaba desestimulando as pessoas a doarem em seus testamentos. “No Brasil, os familiares podem questionar, após a morte, a decisão tomada por quem fez o testamento. Há ainda, com base na legislação específica de heranças, um dispositivo que limita a 50% a disposição dos bens no testamento. Porém, conforme essa possibilidade de doação é divulgada, acredito que, gradativamente, essas situações se ampliarão e os incômodos serão reduzidos”, diz João Paulo Vergueiro.
Estraviz conta que há envolvimento de alguns advogados especializados em Terceiro Setor para que não só essa situação seja mais simplificada, como também que não se tenha de pagar o chamado Imposto de Transmissão Causa Mortis e Doação (ITCMD), que é estadual e passível de legislações específicas.
Os interessados em se tornar doadores podem, ainda, doar bens materiais (computadores, televisão, aparelhos de monitoramento de pressão etc.), roupas e calçados, produtos de higiene pessoal, entre outros. Esses itens são de grande importância para a maioria das entidades, que, sem essa ajuda, precisariam comprar esses materiais e, assim, reduziriam a verba disponível para outras atividades vitais.
Se você não dispõe de recursos financeiros ou materiais, não tem problema. Você tem a opção de doar sua mão de obra, seus conhecimentos. Como? Vejamos: um jornalista, por exemplo, pode dedicar parte de seu tempo para auxiliar uma entidade social a redigir um boletim informativo para seus apoiadores; um advogado por prestar atendimento jurídico voluntário aos assistidos de uma organização; um médico pode realizar atendimentos gratuitos; um professor pode ensinar um grupo de adultos analfabetos ou dar aulas de reforço para crianças e adolescentes; uma bailarina pode dedicar parte de seu tempo a ensinar dança para crianças; uma cozinheira pode auxiliar na preparação de alimentos em creches, entre tantas outras possibilidades.
Outra maneira bastante positiva de ajudar é dedicar seu tempo. Parece uma coisa simples, quase boba, mas tempo é algo de que muita gente, infelizmente, não dispõe. Uma hora de conversa com um velhinho internado em um asilo ou de brincadeira com uma criança em um orfanato, por exemplo, pode ser gratificante e divertido para quem “gasta” esse tempo em uma visita (semanal, quinzenal, mensal), mas é infinitamente mais valiosa para quem se vê prestigiado — presenteado — com atenção e com carinho.
Também é possível doar sangue, medula óssea ou órgãos — em vida ou após a morte. Para isso, basta procurar locais como o Hospital das Clínicas, em São Paulo, ou alguma entidade da área da saúde para obter mais informações sobre como proceder.

Dia de Doar

Com vistas a estimular a prática da doação e facilitar a sua realização, foi criada no Brasil, em 2013, a iniciativa #diadedoar, uma plataforma online voltada para promover uma campanha global de doação, realizada no dia 2 de dezembro. Doar, de acordo com essa proposta, não significa apenas transferir dinheiro a alguém ou a alguma entidade. A campanha fala em doação de tempo, de sangue, de órgãos, de mantimentos, de agasalhos, entre outros recursos materiais ou intangíveis.
“Além de facilitar processos de doação, o site www.diadedoar.org.br promove a cultura da solidariedade ao colocar em contato pessoas e organizações que exercem sua responsabilidade social pessoal a partir da filantropia e organizações sociais, por vezes instituições de base comunitária que dependem de doações para cumprir sua missão”, explica Marcelo Estraviz, presidente do Instituto Doar.
Iniciada em 2012 nos Estados Unidos como uma ação para aproveitar a sequência do Dia de Ação de Graças, Black Friday e Cyber Monday, a campanha do #diadedoar é internacionalmente chamada de #GivingTuesday e este ano foi realizada em toda a América Latina e em países como Nova Zelândia, Canadá, Israel, Austrália, Singapura, Irlanda e Reino Unido. Celebridades, como os atores Jessica Alba, Edward Norton e Hugh Jackman, também aderiram.
No Brasil, a primeira experiência aconteceu em 2013, mas a data não foi alinhada à campanha global. “A grande diferença entre a iniciativa norte-americana e a brasileira é que, lá, o foco é a doação de dinheiro; aqui, queremos também incentivar outros tipos de doação, como a de tempo, por meio de voluntariado”, diz Estraviz.
Este ano, cerca de 16 mil parceiros no mundo, e 400 no Brasil, celebraram a data.

 

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