Leonardo Letelier

Por: Thaís Iannarelli
01 Setembro 2010 - 00h00

“Desenvolver infraestrutura financeira para o setor social no Brasil, acreditando que financiamento adequado e aconselhamento efetivo fortalecem as organizações sociais e aumentam seu impacto junto às causas e beneficiários”. Esta é a missão defendida pela sitawi, organização sem fins lucrativos, caracterizada como um Fundo Social, que amplia o impacto de organizações e empresas que se comprometem com causas sociais e ambientais no país.

Seu fundador, Leonardo Letelier, tem mais de três anos de experiência em investimento e dez anos em consultoria estratégia e social pela McKinsey & Co. Também foi diretor da Iniciativa Cidadania Econômica para Todos, na Ashoka. A intenção da sitawi, por meio do Fundo Social, é financiar organizações sociais que geram receita própria e podem se beneficiar de empréstimos com uma taxa de juros adequada, que leva em conta seu impacto social.

Em entrevista à Revista Filantropia, Letelier fala sobre a transferência de recursos, a sustentabilidade
e o acesso ao crédito no Brasil.

Revista Filantropia: Como surgiu a ideia do empréstimo de capital às organizações sociais?

Leonardo Letelier: Começou com a percepção de que só o aconselhamento para as instituições não bastava e, por outro lado, só o capital também não era suficiente. Então, comecei a pensar que deveria ter algum jeito de dar mais do que só capital e mais do que só aconselhamento. Tentei juntar as duas coisas. A outra percepção foi do ponto de vista da quantidade, volume de recursos. O volume de doações no Brasil chega a aproximadamente R$ 5, 10 bilhões. Só que de crédito são R$ 500 bilhões. Quer dizer, são 100 vezes mais, e enxergamos o dinheiro como potencial de impacto social.

Aí percebemos que o setor social como um todo deixava de lado um valor grande e, concentrando nas doações, falávamos só de 2% do bolo. Foi daí que surgiu a sitawi, não porque o empréstimo vai ser a solução para todos os males, nem porque o dinheiro deve ser emprestado e as doações devem ser abandonadas. Muito pelo contrário, mas quando o empréstimo fizer sentido, esse capital deveria estar disponível. E quanto mais isso acontecer, mais tende a acontecer.

RF: E qual é a expectativa quando se faz um empréstimo para uma organização, em relação à sua estratégia para devolução do dinheiro e, principalmente, sobre como ele será usado?

LL: Hoje o que fazemos é pegar uma série de modelos que não foram desenhados para serem sustentáveis e tentando mudar esse ponto de vista. Porque antes não existia essa preocupação. Nós queremos fazer com que o empréstimo seja uma coisa comum para a próxima geração de empreendedores sociais. Por exemplo, imagine se um dentista quer fazer algum tipo de ação social. Ele pode pegar R$ 5 mil emprestado

de alguém todo mês para fazer um atendimento na favela, ou, por outro lado, pode pegar um tanto em doação, outro tanto em empréstimo, vários tipos de capital. Assim, em vez de atender três crianças, vai atender 300. Obviamente ele tem de montar um modelo que consiga gerar o capital a ser devolvido

RF: De onde vem o capital para os empréstimos?

LL: Já emprestamos quase R$ 1 milhão e não temos inadimplência nas devoluções. O volume ainda é pequeno, mas é justamente porque temos pouco dinheiro no Fundo Social, que tem cerca de R$ 500 mil hoje. Isso faz parte da dinâmica do modelo, porque as doações entram na sitawi, para o Fundo Social que criamos como Oscip. Então, essas doações entram no fundo e são emprestadas; depois, as devoluções retornam para o fundo e são emprestadas novamente. Isso tem um efeito de multiplicação do impacto social e, por isso, só com R$ 500 mil conseguimos emprestar já quase R$ 1 milhão.

RF: Como as instituições podem ter acesso ao crédito oferecido pelo Fundo Social?

LL: Primeiramente, precisamos ver se a ação tem impacto social. Em segundo lugar, precisamos saber se a instituição consegue devolver o dinheiro, já que se trata de um empréstimo. Precisamos saber se há alguém ou uma equipe dedicada à operação de negócio. Faz parte da missão também dar acesso a quem não tem crédito, ou a quem teria muitas dificuldades de conseguir acesso a isso em uma instituição financeira, por exemplo. Por isso também, ao conhecer a instituição que precisa do crédito, fazemos a pergunta: essa organização vai estar melhor depois do empréstimo? Porque ela pode até devolver o dinheiro, mas pode estar na pior. Como não é essa nossa intenção,fazemos essa pergunta final.

RF: Vocês fazem algum tipo de acompanhamento às instituições que recebem o empréstimo?

LL: Fazemos um aconselhamento estratégico, não acompanhamento. Vamos apoiar algumas decisões específicas
que sejam importantes para o negócio, como ajudar com alguma certificação, ou com uma planilha de fluxo de caixa. O que não fazemos é ficar de mãos dadas gerenciando o negócio com eles. Isso porque queremos estar sempre entre um processo mais tradicional de filantropia e um banco. A filantropia te dá o dinheiro e não pede de volta. O banco empresta o dinheiro, cobra caro por isso e não dá nada em troca, em termos de assessoria. Nós ficamos no meio do caminho.
Emprestamos o dinheiro, cobramos juros abaixo do mercado, cerca de 1% ao mês, e damos também aconselhamento estratégico para as ações.

RF: Como você vê a realidade do Terceiro Setor hoje em relação ao acesso ao crédito?

LL: Nas organizações sociais há muito pouco acesso. Na verdade, sempre perguntamos se os nossos clientes
já têm crédito, se já conseguiram ou não. A maioria não consegue ou até consegue, mas não o que realmente
precisavam. Em um caso, a pessoa precisava de R$ 100 mil com uma taxa de juros adequada, e o que o banco ofereceu foi R$ 10 mil, ou seja, não resolveu o problema. Então, acesso todo mundo tem, mas acesso a um crédito adequado, na prática, ninguém tem. E estamos trabalhando porque queremos que isso aconteça.

RF: Você acha que elas estão preparadas para administrar esse tipo de apoio?

LL: Não dá pra falar de modo geral, porque algumas estão e outras não. O setor social é muito heterogêneo. A razão para isso também é que a cultura de crédito no Brasil é recente. Quando você tem na economia uma hiperinflação e as taxas de juros altas, que ainda temos, não faz sentido você pegar um crédito. E crédito é um compromisso fixo que se faz e, quando a economia está variando, não é exatamente bom você ter um compromisso fixo. Por isso, durante muito tempo não era uma coisa recomendável. Atualmente, a mentalidade de crédito passa a ser uma coisa mais comum, então esse processo ainda está acontecendo no Brasil.

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