Consumindo com ética

Por: Fabián Echegaray
02 Agosto 2019 - 00h00

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Durante séculos nos acostumamos a associar bens públicos e coletivos, como preservação ambiental, justiça social, políticas progressistas no âmbito trabalhista e códigos éticos de conduta, com uma série de organizações públicas e políticas, ou de iniciativas originadas nelas. Pensar nesses temas, no governo e em suas instituições, desde a burocracia administrativa (secretarias, ministérios, Receita etc.), até as grandes organizações de interesses em contato com o Estado, como partidos políticos, Legislativo ou sindicatos, era quase automático. Apenas dessas entidades poderíamos esperar o fornecimento daqueles bens públicos.

Mas o que acontece quando partidos, governo, sindicatos e outras entidades que deveriam canalizar representação ou interesses não contam com a credibilidade e confiança do grande público? Pesquisa recente do Datafolha aponta um dado que tem permanecido quase inamovível nas últimas décadas no país. Sete em cada dez brasileiros (68%) declararam não ter confiança nos partidos políticos, 67% declararam não ter confiança no Congresso Nacional (o índice mais alto da série histórica) e 64%, na Presidência da República. Os partidos políticos, por exemplo, detinham 17% da confiança pública em 1995, 12% no ano 2000, 15% em 2005, 24% em 2010 (auge de credibilidade) e menos de 7% em 2017, conforme o estudo Latinobarômetro. As outras instituições políticas tradicionais seguiram um caminho parecido no país e no continente.

Com certeza, a desconfiança na capacidade das instituições políticas em dar resposta às demandas da população não significa que as pessoas abdiquem dessas expectativas ou deixem de buscar canais por onde concretizá-las. Para onde vai a pulsão por ter interesses representados e – especialmente – resultados de caráter público e coletivo fornecidos? Num contexto em que as empresas e ONGs superam em credibilidade as instituições públicas, essa expectativa de produção de bens públicos recai nesses agentes. De acordo com nosso estudo Monitor de Sustentabilidade Corporativa, na década que vai de 2007 até 2016, no Brasil, em média 31% da população confiava que o governo operaria em favor dos melhores interesses da sociedade; em contraste, 51% acreditava que as grandes empresas fariam isso e ainda mais gente, 57%, que esse seria o propósito das organizações não governamentais. É de se esperar que o brasileiro restrinja as opções para obter respostas às suas demandas apenas ao que entidades políticas tradicionais possam fazer?

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Esse quadro não é exclusividade de terras tupiniquins. Fora do Brasil, na nossa região latino-americana e além dela, em sociedades mais desenvolvidas, o mesmo processo vem se delineando, de queda da confiança no universo da política tradicional, aumento da confiança em referências organizacionais e de ação alternativas, como empresas e ONGs, além de impulso a canalizar uma parte substantiva das demandas por meio dessas últimas antes que das primeiras. Uma expressão desse impulso é buscar influenciar políticas e posturas empresariais que atendam a valores públicos ou forneçam bens coletivos, tais como um meio-ambiente mais limpo e preservado, um local de trabalho mais inclusivo, uma sociedade mais educada e segura. Esse quadro sinaliza que o cidadão passa a complementar sua expressão na esfera eleitoral com expressões novas, lançando mão de outros instrumentos em outras esferas. A esfera do mercado e a relação com produtos e marcas é uma dessas formas, estimulada pela maior confiança que os agentes despertam.

Expressar-se politicamente no mercado significa fazer valer o poder do bolso como um voto que irá trazer não apenas benefícios pessoais, mas também públicos. Ao premiar empresas e privilegiar produtos de certas marcas em função do desempenho ambiental, ético ou social dos seus fabricantes, a decisão de consumo se converte numa ferramenta para definir não apenas quem ganha e quem perde no mundo empresarial, mas também quanto a sociedade como um todo ganha e qual a natureza desse tipo de ganho.

A vontade de usar o poder de consumo para gerar bens públicos, ou seja, politizar o consumo, é mais forte quanto menor a confiança nos partidos e maior a confiança nas empresas. De fato, a correlação entre recompensar o mercado de ofertas sustentáveis (comprando orgânicos e produtos de economia solidária, favorecendo negócios justos, optando por marcas com responsabilidade social, por exemplo) e a confiança nas corporações globais é de +0,30 (numa escala de 0 a 1,0, em que esse último patamar significa relação perfeita). Mas, nos países latino-americanos, essa correlação atinge +0,61, dobrando a média geral. Isso sugere que, quanto mais disseminada é a percepção favorável dos principais agentes do mercado, maior a propensão a tornar o mercado uma arena para gerar impacto sustentável para a sociedade como um todo. Por outro lado, a correlação com confiança nos partidos políticos é negativa: -0,12 para o conjunto dos países listados, sendo que no subgrupo latino-americano atinge uma associação negativa de -0,68. Ou seja, quem tende a politizar seu consumo, claramente não acredita nos partidos políticos para canalizar seus interesses por uma sociedade mais justa ou ambientalmente saudável, apostando em obter esses resultados na relação direta como consumidor com as empresas. E, particularmente na nossa região, onde essa relação é mais intensa, a inclinação para fazer do poder de compra um meio de conseguir resultados que atendam o interesse público parece revelar a reação da cidadania diante do fracasso dos canais tradicionais de representação política.

Esse quadro transmite uma mensagem em nada secundária no ano em que estamos. Ou os partidos revitalizam sua relação com a cidadania, ou acabarão se tornando irrelevantes. Além disso, crescerá a pressão por outro formato de pluralismo democrático, que os exonere de cada vez mais funções. Ao mesmo tempo, consagra as responsabilidades das empresas e de seu papel político, significando mais poder, mas também mais obrigações e a possibilidade que elas passem a ser julgadas e monitoradas com o mesmo zelo que os políticos são fiscalizados e pressionados hoje.

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