Há algum tempo, no Viaduto do Chá, em São Paulo, um deficiente visual costumava pedir esmolas. Todos os dias, um publicitário passava por ele, pela manhã e à noite, e deixava sempre alguns centavos no chapéu do pedinte, que trazia pendurado no pescoço um cartaz com a frase: “Cego de nascimento. Uma esmola, por favor”. Certa manhã, o publicitário teve uma idéia: virou aquele letreiro ao contrário e escreveu outra frase. À noite, no caminho de volta para casa, perguntou ao pobre homem como tinha sido seu dia. Muito contente, o deficiente visual respondeu: “Até parece mentira, mas hoje foi um dia extraordinário. Todos que passavam por mim deixavam algum trocado. Afinal, o que o senhor escreveu no letreiro?”. O profissional de comunicação havia escrito uma frase breve, mas com sentido e carga emotiva suficientes para convencer os passantes a ajudar o cego. A frase era: “Em breve chegará a primavera, e eu não poderei vê-la”.
Essa história demonstra quão importante é empregar com sabedoria a promoção, o conjunto de atividades, técnicas e meios destinados a incrementar as vendas ou fortalecer positivamente a imagem de determinada marca, evento ou instituição. A promoção é um dos compostos da ferramenta de marketing conhecida como “os quatro pes”: os demais são produto, preço e praça. Da mesma forma como fez o publicitário, ela deve ser empregada de maneira eficaz por toda organização do Terceiro Setor, para que possa atingir com competência seus objetivos no mercado socioambiental.
Por que isso acontece? A razão principal é o acelerado crescimento do Terceiro Setor – fato que provoca demanda maior de projetos e de organizações da sociedade civil –, associado ainda à falta de expertise de muitos publicitários quando se trata de criar peças enfocando temas socioambientais. O resultado, não raras as vezes, são anúncios pasteurizados, apelativos e que resvalam para a pieguice. Ninguém discute que uma causa deva ser “vendida” de forma emotiva. Isso não quer dizer, todavia, que a linguagem do compadecimento precise ser empregada. O importante é chamar a atenção do leitor, fazendo com que ele se identifique e se sensibilize com a causa.
Em virtude de o Terceiro Setor “estar na moda”, somos bombardeados diariamente por diversos tipos de comunicação (rádio, outdoors, TV, revistas, jornais, internet, cinema, malas diretas e até o “boca-a-boca”), que visam engajar o espectador em alguma causa ou projeto. Por tal razão, é preciso que o anúncio, além de criatividade e uma boa idéia, denote principalmente credibilidade. Assim, ele tem a necessidade de apresentar diferenciais que reforcem o institucional da marca da organização e da causa promovida, agregando valor aos mesmos.
É imprescindível, portanto, apresentar algo especial, que faça as pessoas pararem de folhear aleatoriamente uma publicação para prestar atenção a determinado anúncio, ainda mais um institucional, com foco em uma boa causa. Tudo precisa funcionar como uma engrenagem: sem uma das partes, não vai funcionar. Por isso, o texto deve ser conciso, marcante, incisivo e de fácil percepção, além de apregoar as qualidades dos serviços prestados pela entidade e as mudanças ocorridas após a implementação de certo projeto.
Escolher uma imagem de grande impacto, relacionada diretamente com a causa, é também fundamental para que o anúncio cumpra seus objetivos. Na maioria das vezes, ela costuma comunicar mais rápido que o próprio texto (90% dos leitores olham primeiro para a figura). No entanto, ao escolher uma imagem, deve-se tomar o cuidado de não optar por uma que tenha duplo sentido, ou que possa associar a instituição e sua causa a um conceito diferente daquele que se deseja transmitir. Para tanto, é aconselhável fugir sempre que possível daquelas oferecidas pelos bancos de imagem, porque elas não costumam retratar a realidade vivida pelo público enfocado. O ideal é produzir as fotos diretamente na organização ou nas comunidades por ela apoiadas. Além disso, o texto precisa complementar a imagem, e vice-e-versa.
Engana-se, porém, quem pensa que anúncios produzidos em quatro cores sensibilizam mais que os produzidos em preto e branco. Em geral, os últimos cumprem bem seu papel: em preto e branco, eles despertam a consciência para os problemas sociais por promoverem, subliminarmente, mais dramaticidade.
Outro cuidado é atentar para que o anúncio não somente prenda a atenção das pessoas ou “venda” a causa, mas que reforce a imagem institucional da marca e, sobretudo, comunique uma mensagem positiva a seu respeito, independente das dificuldades pelas quais esteja passando a organização ou o público atendido. Um bom anúncio deve destacar a marca da entidade, fazendo com que ela se integre a seu visual.
Uma dica final: a instituição não deve se preocupar em criar os anúncios (ela deve no máximo passar o briefing – dar orientações sobre a linha de um trabalho a ser feito), pois essa não é sua atividade ou especialidade. Para isso, a entidade precisa estabelecer parceria com uma agência de propaganda que, por sua vez, não deve se limitar a produzir o anúncio. Cabe à agência também atuar como intermediadora junto aos veículos de comunicação, no sentido de que esses bonifiquem o espaço publicitário. Afinal, as organizações da sociedade civil obviamente não possuem recursos para anunciar. Em outras palavras, não basta espírito criativo às agências – elas também têm de participar!



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