Como definir o que é uma boa ONG?

Por: André Gabriel, Marcelo Estraviz
04 Julho 2014 - 16h53

Instituto Doar, criado para ampliar a cultura da doação no Brasil, pretende garantir padrões de qualidade na gestão das ONGs do país

Quem é da área deve se lembrar da primeira edição do Prêmio Bem Eficiente, criado por Stephen Kanitz. Ele, que cuidara por 25 anos da edição Maiores e Melhores, da Revista Exame, decidiu se aventurar no mundo do Terceiro Setor, usando métricas e gerando comentários positivos e negativos. Era um ser “estranho” no mundo das ONGs, falava outra língua. Muitos o acusaram de se envolver onde não devia, e ele deve ter encontrado mais inimigos do que amigos na área.
Para nós, criadores do Instituto Doar, Kanitz foi um pioneiro. Não o conhecemos, mas fica aqui nossa homenagem a ele. O grande impacto percebido no decorrer dos anos, mais do que o prêmio, mais do que as vencedoras, mais do que o método, foi o que as ONGs decidiram fazer com essas premiações. Ainda podemos encontrar em sites e folhetos a citação de esta ou aquela ONG ter sido vencedora de alguma edição do Prêmio Bem Eficiente.
Isso nos fez pensar que, mais do que um prêmio com poucos vencedores, há um ecossistema que se beneficia do processo todo. Um Oscar não premia somente os ganhadores da estatueta, mas põe pra cima todo um setor, estimula uma competição saudável, não entre pessoas ou instituições, mas entre o que se é e o que se pretende ser. Uma ONG pode e deve ser estimulada a melhorar continuamente, assim como os diretores ou cenógrafos de um filme.
Kanitz também nos trouxe, em um de seus artigos sobre a experiência, três dados muito precisos:
As 50 instituições de caridade mais bem administradas do ano dobraram sua renda de donativos nos três anos seguintes.
Em média, receberam R$ 2.000.000,00 de donativos adicionais no triênio seguinte.
A maioria do dinheiro adicional veio de pessoas que nunca tinham doado antes.
Com essa reflexão em mente, estudamos nos últimos dois anos mecanismos que pudessem fortalecer, reforçar e estimular as organizações, ao mesmo tempo em que criassem, no âmbito dos doadores, uma cultura de doação. Facilitar a escolha, separando o joio do trigo. Aumentar os donativos, mas para aquelas que merecem, por seus padrões de gestão e transparência.
Uma ISO 9000 das ONGs, porém, focada na administração dos recursos, e não na sua própria atuação, já que as metodologias, pedagogias e procedimentos de cada ONG com seus públicos não podem nem devem ser verificáveis como uma prática padronizável. Processos administrativos, contábeis, financeiros, de comunicação, estes sim, são verificáveis e, no mundo das ONGs, recomenda-se que sejam públicos e transparentes, já que os recursos são provenientes de doações e patrocínios.
Buscando a experiência consolidada do modelo ISO, localizamos uma iniciativa chamada NGO Benchmarking, que criou, há alguns anos, uma certificação bastante complexa. Em mais de cinco anos de atuação, certificaram no mundo um punhado de ONGs – menos de 10 no Brasil. Nenhuma delas renovou sua certificação. É a típica ideia tão boa e perfeita que se torna inviável.
Optamos, então, por uma certificação mais simplificada e focada, já que o prêmio Bem Eficiente, sem querer ocupar esse papel, acabou ocupando-o. Centenas de ONGs vencedoras se orgulham de mostrar o logo do prêmio, como um troféu, como um selo, como... um certificado! Quais seriam as questões comprováveis que valeria a pena avaliar e chancelar como exemplares?
Fomos a campo pesquisar o que havia no Brasil e no mundo, e encontramos um conjunto de coisas. No Brasil nada era completo, estávamos montando um quebra cabeça entre processos que se cruzavam, como o código de ética da ABCR, as iniciativas de transparência do GIFE e da ABONG e diretrizes de governança do IBGC.
Uma saudável surpresa foi encontrar uma organização internacional que agrupa agências de avaliação de vários países. O ICFO (International Commitee on Fundraising Organizations) é também conhecido atualmente como a associação de agências nacionais de monitorização. Foi criado em 1958 para harmonizar procedimentos e standards para avaliação, análise e acreditação das ONGs. Seu objetivo é garantir segurança e confiança aos doadores de que seus aportes sejam utilizados pelas ONGs para os fins aos quais foram solicitados.
Os membros do ICFO são entidades de diferentes perfis que realizam avaliações independentes das ONGs. O ICFO não impõe uma metodologia aos membros integrantes. Cada um conta com sistemas diferentes adaptados às peculiaridades do setor e às normas aplicáveis em seus respectivos países. Atualmente, o ICFO está formado por 16 entidades de 15 países da Europa, América e Ásia. Uma curiosidade: O Instituto Doar é o único do hemisfério Sul.
Encontrar pares nos fez avançar com mais tranquilidade em nosso objetivo de certificar as organizações brasileiras. Um de nossos receios era a pergunta: Quem certifica os certificadores? Como poderíamos nos considerar tão acima do bem e do mal para julgarmos terceiros? A organização internacional entre pares gera um espaço de diálogo, reflexão e melhoria contínua no próprio procedimento de certificação.
Duas entidades nacionais associadas ao ICFO nos chamam especial atenção: Fundación Lealtad, na Espanha, e Confío, no Mexico. Ambas estão em países cujas culturas de Terceiro Setor e doação são similares (ou muito próximas) das nossas. A Espanha, com algo a mais de experiência, o México, um pouco menos, mas ambos os países com situações que permitem benchmarks para nossa certificação, principalmente pelo universo das ONGs nas três nações.
Queremos dedicar três parágrafos para falarmos sobre a Fundación Lealtad, em função de seus mais de 10 anos de experiência e dos resultados obtidos. Ela é uma organização criada em 2001 por doadores que notavam uma escassa informação sobre as ONGs existentes.
É financiada 25% por governos, 19% por patronato e 56% por empresas. Oferece avaliação gratuita para as ONGs que solicitam, em função desse sistema de financiamento. Pauta-se por nove princípios de transparência e boas práticas. Realizou nesses anos 450 informes e publica no seu site todas as informações.
Nossa inspiração se pautou por duas grandes frentes. Os nove princípios da Fundación Lealtad e os oito pré-requisitos que Marcelo Estraviz desenvolveu ao longo de sua carreira como consultor em fundraising. Com algumas adaptações e integrações, chegamos a um modelo que contempla, em um só conjunto de questões, elementos do IBGC, ABCR, ABONG, GIFE e, internacionalmente, o ICFO e suas 15 certificadoras associadas.
O sistema envolve um processo no qual a própria organização busca a certificação e paga por participar. O processo de certificação tem validade de um ano e custa R$ 450. Percebemos, em conversas com outras organizações, que o valor está de acordo a democratizar o acesso para todo tipo de ONG e, ao mesmo tempo, não estimula a prática da gratuidade, que em muitos casos desvaloriza o procedimento. Também foi uma opção do Instituto Doar de se financiar diretamente pelas organizações participantes, e não por empresas ou governos. Existem negociações para que estes possam ser financiadores, mas de grupos ou redes de ONGs. A precificação será por processos de certificação, e não por patrocínios. Acreditamos que esta forma é saudável e mantém a isonomia nos procedimentos, assim como a autonomia da instituição.
Por fim, queremos convidar a todos a participar desse amplo processo de melhoria continua no setor no Brasil. Oferecemos no site da organização um processo de autoavaliação, totalmente gratuito. Com ele, é possível perceber o estágio atual da entidade e também se familiarizar com a certificação das ONGs. Esperamos contribuir não só ampliando a voz das boas entidades, legitimando-as, como também aumentando as doações para estas, num ciclo virtuoso de melhoria contínua.

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