Cinquenta Anos De Dedicação Ao Terceiro Setor

Por: Luciano Guimarães
18 Abril 2017 - 00h00

internaContador e advogado Sergio Monello completa 50 anos de carreira e traça um panorama da área social

Ao ensinar gestores de organizações sociais como tornar suas entidades mais "empresariais", o contador e advogado Sergio Roberto Monello chega aos 50 anos de atividade plenamente consciente de que fez o possível para desenvolver um modelo administrativo e jurídico totalmente diferente do tratamento que normalmente era aplicado no Brasil.

Em 50 anos de trabalho no Terceiro Setor, especialmente no segmento religioso, Monello dedicou-se, segundo ele, a transmitir conhecimentos, sua vivência de fé e os conhecimentos da profissão, "partilhando-os com meus educandos, com as pessoas que comigo trabalharam e trabalham, enfim, formando as pessoas para a vivência comunitária".

Nesta entrevista à Revista Filantropia, Monello conta como ajudou a transformar a gestão de organizações sociais e faz uma breve análise sobre o atual momento do Terceiro Setor brasileiro.

Revista Filantropia: Ao completar 50 anos de carreira, que balanço faz de sua atuação para o desenvolvimento do Terceiro Setor?

Sergio Roberto Monello: Faz 50 anos que iniciei minhas atividades como profissional da contabilidade, e 40 anos como advogado. Neste tempo, organizei a contabilidade de inúmeras entidades beneficentes de assistência social. Por meio de cursos ministrados para essas entidades, procurei demonstrar o valor da contabilidade e da administração para a boa gestão econômica, financeira e patrimonial.

Concomitantemente, como advogado e professor, despertei o interesse dessas instituições para a organização jurídica. Enfim, foi um papel muito importante, nacionalmente, para a valorização do Terceiro Setor, anteriormente conhecido como setor filantrópico, setor das entidades sem fins lucrativos, setor das entidades beneficentes etc.

RF: De lá para cá, quais foram as principais mudanças ocorridas na gestão das organizações sociais?

SRM: A gestão das organizações sociais passou a ser muito mais profissional, uma vez que se passou a olhar para elas como se fossem empresas.

RF: A partir desta análise, quais heranças (positivas e negativas) os gestores mais antigos deixaram para aqueles que os sucederam?

SRM: As positivas são que essas entidades passaram a gerir suas atividades por meio de planejamento estratégico, organizando planos de ação de atividades, com projetos bem estruturados, em conformidade com sua capacidade econômica e financeira. Assim, em muitas entidades, os gestores deixaram para aqueles que os sucederam organizações sociais organizadas, com estabilidade e organização financeira calcadas em orçamentos bem elaborados, planificados e estruturados.

Do lado negativo, creio que a falta de organização e planejamento desestruturou a vida de muitas entidades sem fins lucrativos. Más administrações e gestões das atividades levaram uma série de entidades a encerrar suas atividades.

RF: Por que escolheu atuar com o Terceiro Setor e se envolver, em especial, com entidades religiosas como a Conferência dos Religiosos do Brasil, os salesianos e a Arquidiocese de São Paulo?

SRM: Os religiosos sempre procuraram manter suas entidades bem dirigidas e organizadas. Tanto os dirigentes da Conferência dos Religiosos do Brasil, dos Salesianos de Dom Bosco e da Arquidiocese de São Paulo sempre tiveram a preocupação com a boa gestão de seus negócios. Todos os princípios administrativos são disciplinados pelo Código de Direito Canônico (CDC) e pela Carta Circular com Orientações para a Gestão dos Bens nos Institutos de Vida Consagrada e nas Sociedades de Vida Apostólica, emitida pela Congregação para essas entidades.

RF: Faça um resumo de sua trajetória profissional. O que tirou de mais positivo de cada momento de sua carreira e que hoje consegue transmitir para os mais jovens?

SRM: Minha vida profissional se fundamentou no exercício de três profissões: advogado, contabilista e professor. Entretanto, faço parte da Família Salesiana, como salesiano cooperador. O salesiano cooperador é cristão/católico, leigo, comprometido a viver intensamente a vocação salesiana ao lado dos jovens, ou seja, estar com os jovens em sua promoção e formação cristã, e, consequentemente, na conquista de sua cidadania.

Portanto, minha vida foi sempre dedicada à formação de jovens e adultos. Assim, pude ajudar a conscientizar muitos jovens sobre alguns aspectos fundamentais: Deus – centro de vida de todas as pessoas, mesmo aquelas que nele não acreditam; Valor da Vida – um dom precioso que Deus nos concedeu; Família – "cellula mater da sociedade", que se constitui no fundamento e na essência de uma sociedade efetivamente organizada; Profissão – elemento de liberdade e de valorização da pessoa humana; e Emprego – patrimônio de todos aqueles que trabalham.

Assim, minha vida foi transmitir meus conhecimentos, minha vivência de fé e vivência dos conhecimentos de minha profissão, partilhando-os com meus educandos, com as pessoas que comigo trabalharam e trabalham, enfim, formando as pessoas para a vivência comunitária.

RF: Que análise faz do atual momento vivido pelo Terceiro Setor brasileiro, em termos de gestão, transparência e atuação?

SRM: Posso afirmar que este momento é importantíssimo para o Terceiro Setor. A própria sociedade, conscientizada de seus valores, exige gestão eficaz, transparente e com atitudes claras, precisas na gestão e na atuação do desse setor no país.

RF: Como o senhor tem percebido o impacto da crise financeira no caixa das organizações sociais, inclusive com a diminuição do volume de doações?

SRM: A crise atual, por total incompetência dos gestores do Estado, atinge a sociedade como um todo. O impacto da crise financeira aumentou a miséria em nosso país e, consequentemente, passou a exigir das organizações sociais mais empenho no atendimento de suas finalidades institucionais. As entidades passaram a ter menos recursos para o atendimento de seus projetos assistenciais e o Estado, não cumprindo com sua missão participativa, enfraqueceu-as, desestimulando a sociedade a colaborar com recursos para essas instituições.

É realmente um estado de calamidade pública pelo qual passam as organizações sociais, visto que a incompetência dos gestores públicos levou a tal situação. As organizações sociais e seus gestores fazem o que podem para que o sofrimento que atormenta as pessoas mais pobres e carentes não seja ainda mais agravado.

RF: O que recomenda para os jovens gestores terem sucesso na administração das organizações sociais e que sugestão dá a eles para evitar erros geralmente cometidos por principiantes?

SRM: Os jovens gestores devem trabalhar sob diretrizes administrativas fixadas pelas organizações sociais, com base em estudos de sua realidade econômica e financeira, com planejamento estratégico bem elaborado, observando e cumprindo rigorosamente seus orçamentos.

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