causaoudinheiro?

Por: Custódio Pereira
01 Março 2004 - 00h00
É preciso estimular o aperfeiçoamento e o fortalecimento do captador, assim como sua profissionalização

Em 23 de março de 2003 aconteceu o encontro do primeiro grupo internacional – International Fundraising Summit – formado por 23 representantes de 19 países, sendo eles: Nova Zelândia, Ucrânia, Holanda, Reino Unido, Suíça, Irlanda, Índia, França, Argentina, Chile, Alemanha, Austrália, Itália, EUA, Brasil, Dinamarca, Suécia, Hungria e Noruega. A reunião teve por objetivos conhecer e discutir os códigos de ética em vigor nesses países, e criar um Código Universal de Ética em Captação de Recursos.

O evento foi patrocinado pela AFP (Association of Fundraising Professionals), com o relevante apoio do professor Gene Temple, da Indiana Fundraising School.

Os códigos de ética foram comparados nos pontos em que convergiam ou divergiam entre si. Mesmo entre as nações desenvolvidas, os estágios de maturidade deles são bem diferentes, por causa da cultura específica de cada região na prática profissional de arrecadar recursos.

Um dos temas tradicionalmente polêmicos é o comissionamento, ou seja, o ato de receber uma porcentagem sobre o valor captado. Em tal assunto, o fator comum entre os países que participaram do encontro é que todos proíbem a remuneração baseada em porcentagem dos fundos recebidos.

Por incrível que pareça, esse ponto é de consenso nos códigos de ética, apesar de ser o mais discutido em todo o mundo, inclusive no Brasil. A diretoria da ABCR – Associação Brasileira de Captadores de Recursos – organizou diversas reuniões para discutir se a associação deveria ou não aceitar que o captador recebesse comissão por seu trabalho.

Se a intenção é fortificar o Terceiro Setor, precisa-se estimular o aperfeiçoamento e o fortalecimento do captador, assim como sua profissionalização. Causas poderão ser melhor atendidas se a instituição tiver mais recursos e, para isso, é necessário ter pessoas competentes, treinadas e eticamente envolvidas com a missão. O captador é um executivo como qualquer outro profissional, que tem o salário fixado pelo mercado.

O argumento usado principalmente pelas instituições de pequeno e médio porte sempre é: como vou pagar o profissional se não tenho recursos? Isto é, “nada mais justo que a remuneração por comissionamento”, quando todos “ganham”. Com tal raciocínio, essas instituições têm como “contratar” o executivo de captação de recursos. O comissionamento encoraja o abuso, pois passa a ser um fim em si mesmo: captar mais, para receber mais.

O captador como funcionário assalariado, assim como os demais na instituição, terá maior ligação com a causa e com a própria entidade. Uma análise a se fazer: se o doador souber que parte de sua contribuição irá para o intermediário, ele não concordará em ajudar; no entanto, o doador concordará em auxiliar se souber que a organização precisa pagar os salários das enfermeiras, do contador etc. Muitas vezes a comissão é alta, pois é oferecida infra-estrutura de telefone e de pessoas.

O tema certamente não é fácil. O assunto é constantemente levantado e discutido inclusive nas culturas que já possuem o próprio código de ética.

Há mais de 100 anos, os americanos aprenderam que é possível conseguir mais fundos, maior envolvimento e credibilidade ao se pagar salários, em vez de comissões. Mesmo com essa tradição, a Suprema Corte dos Estados Unidos teve de julgar recentemente o caso Madigan x Telemarketing Associates, um exemplo do uso de comissionamento na captação. No caso, a comissão cobrada era de 85%, sobrando no máximo 15% para a causa. Provavelmente, se o doador soubesse, não teria doado um centavo sequer.

É evidente que o Brasil, que está engatinhando no aprendizado da captação de recursos profissionalizada e ética, enfrentará dificuldades ainda maiores por causa da cultura e do hábito.

Vale repetir que todos os países que já possuem os respectivos códigos de ética, apesar da polêmica e das “tentações”, mantêm firme sua discordância em relação à remuneração comissionada.

Não existe uma resposta definitiva para esse debate, que merece contínua atenção e análise experimental. Assim, não se corre o risco de perder o verdadeiro sentido da arrecadação de meios: auxiliar aqueles que realmente precisam de ajuda.

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