Lázaro Ramos

Por: Thaís Iannarelli
01 Setembro 2009 - 00h00

Lázaro Ramos é ator, famoso e premiado por seus trabalhos na televisão e no cinema, graças a personagens marcantes como Foguinho, da novela Cobras e Lagartos, e Roque, do longa Ó Paí, O. O que nem todos sabem, porém, é que sua atuação na área social também é digna de prêmios.

Nascido em um bairro de classe média baixa de Salvador, Lázaro presenciou e observou a realidade ao seu redor, fato que o levou a atuar efetivamente em ações em prol da sociedade. Na carreira, é visível sua participação em filmes com foco no social. Carandiru, que mostra o dia-a-dia da antiga Casa de Detenção de São Paulo, e Quanto Vale ou é por Quilo?, filme que faz uma analogia entre o comércio de escravos do século 18 e a exploração da miséria pelo marketing, são dois exemplos disso.

Fora das telas, Lázaro iniciou o projeto Ler é Poder, em 2007, que tem o objetivo de incentivar a leitura em bibliotecas comunitárias de Salvador e, atualmente, dirige o programa Espelho, no Canal Brasil, envolvendo os jovens do Central Única das Favelas (Cufa) e outras organizações. Em julho, foi nomeado embaixador do Unicef no Brasil devido à credibilidade que tem com o público e pela agenda social dedicada aos direitos das crianças e adolescentes.

Em entrevista à Revista Filantropia, o ator conta sua trajetória na área social e o que pensa do Terceiro Setor no país.


Revista Filantropia: Como você começou a se envolver na área social?

Lázaro Ramos: Acho que faz parte da minha experiência de vida, não sei se tem muito uma separação disso ou um início. Já começa onde você nasce. Venho de um bairro de classe média baixa, então, querendo ou não, as dificuldades da maior parte da população estavam muito próximas de mim. Ou eu as vivi ou as percebi no meu entorno. Depois disso, ingressei no Bando de Teatro Olodum, que hoje em dia é formado por atores negros e, entre as preocupações de qual dramaturgia criar, era sempre assim: pesquisar como estava a vida do negro, debater o assunto da moradia e da exclusão social etc. Claro que sempre fazendo teatro, às vezes até com comédia, mas isso foi parte da minha formação artística no começo. Por isso, tudo o que vem depois disso é consequência de quem eu sou, da minha vida. Tanto é que não acho que esteja fazendo alguma coisa exatamente. Na verdade estou dando seguimento àquilo que aprendi dentro de casa e no meu começo no teatro.

RF: Você desenvolveu um projeto social para atuar mais ativamente na área. Conte um pouco sobre ele.

LR: Sim, tenho o projeto Ler é Poder, de incentivo à leitura. A ideia é fazer com que as pessoas leiam mais, por isso o nome. Ter conhecimento empodera as pessoas, traz independência para o pensamento. Entre as iniciativas, nós abrimos algumas bibliotecas em comunidades carentes de Salvador, em princípio.

RF: E por que você escolheu um projeto na área da leitura?

LR: Sempre tive vontade de atuar mais claramente de maneira a contribuir com a sociedade. Nunca soube bem o que fazer, até que, um dia, fui a Porto Alegre e, conversando com o porteiro do hotel, percebi que ele citou vários livros. Notei que, naquela cidade, as pessoas tinham o hábito da leitura, e no resto do Brasil, nem tanto. Em Salvador, por exemplo, existem vários projetos muito legais que são feitos na área musical. Então, decidi fazer um na área de leitura porque achei que era uma brecha que existia. Depois de começar, descobri que existem várias bibliotecas comunitárias que não são usadas. Mas foi por esse desejo que comecei e, claro, por ter muitos professores na família também.

RF: E o Programa Espelho, do Canal Brasil, dirigido por você, que envolve os jovens da Central Única das Favelas (Cufa) na produção?

LR: Na verdade não sei se o Espelho toca nessa temática somente nos bastidores ou nas telas também. Acho que conseguimos focar em assuntos importantes, como educação e preconceito racial. Conseguimos dar voz a pessoas que nem sempre estão na televisão de uma maneira que entretém o telespectador. O grande mérito do Espelho é fazer entretenimento que, ao mesmo tempo, toca nesses assuntos de maneira sedutora para que as pessoas queiram assisti-lo. Porque essa é a nossa preocupação, não falar com a gente, mas falar para muitos sobre temas relevantes. E aí tem a equipe técnica. Na retomada do cinema aconteceu um fenômeno muito bacana, que é a inserção de cursos de audiovisual para os jovens em entidades como a Cufa e a Nós do Cinema. Porém, nem sempre é possível escoá-los para o mercado. Procuro trabalhar com esses jovens, que são muito talentosos e vêm com uma garra enorme.

RF: Você foi recentemente nomeado embaixador do Unicef no Brasil. O que isso significa para você?

LR: Bom, já que eu tenho interesse pelo tema, acho importante ter a parceria do Unicef para me orientar, inclusive ter um diálogo maior com a sociedade no que diz respeito a uma questão tão séria quanto a de dar uma vida e um futuro melhores para as nossas crianças e adolescentes. Unicef significa isso. Eu tenho consciência de que é uma grande responsabilidade, falar em nome de um órgão que procura melhorar a vida das crianças, e se você analisar a quantidade de questões que temos ainda com relação a isso, cada dia eu vejo que a responsabilidade é enorme. Mas, ao mesmo tempo, fico feliz em poder fazer isso, porque faz parte de mim também.

RF: E quais ações serão realizadas com o novo título?

LR: Como vou filmar bastante esse ano, a cada lugar que for, vou procurar o Unicef local e tentar fazer alguma ação. Agora estou em Salvador, vou ver como estão os projetos do semiárido, dar uma palavra de incentivo. Fora isso, estamos organizando a agenda. O que tenho certo é que em setembro haverá a reunião anual de avaliação do acesso à educação das crianças; eu estarei lá e, em outubro, lançaremos a campanha que gravei pelo combate ao preconceito na infância.

RF: Como você analisa o desenvolvimento do Terceiro Setor no Brasil?

LR: O que eu vejo é que tem muita gente mais atenta a isso. Mas, ao mesmo tempo, percebo que as nossas questões mudaram. Precisamos reavaliar quais são as armas agora. Como vamos lidar com essa nova família que se formou, em que a mãe também precisa ir trabalhar e o filho fica mais tempo sozinho? E o acesso à tecnologia, por exemplo. Outro dia estava pensando: tem meninos de cinco anos de idade com celular! Como é que se orientam as crianças agora? Tem também o acesso ao emprego, que, para os jovens, ainda é muito restrito, o combate às drogas e à Aids. Se prestarmos atenção, o uso da camisinha já esteve mais em voga.

Então, acho que a gente passa por um momento de lidar com isso, com essa nova realidade que se apresenta. O bacana é que vejo muita gente com vontade de trabalhar para a melhoria desses problemas.

RF: Para você, qual é a importância de pessoas com visibilidade se engajarem?

LR: Acho que traz atenção para os temas. Porque, na verdade, é um trabalho da coletividade, acredito muito em comunidade e no sentido dessa palavra, de se ajudar. Nenhuma dessas situações vai ser resolvida somente por uma parte da sociedade, ou somente pelo governo ou por uma ONG. Acho que a coletividade é essencial para se resolverem as coisas. Uma pessoa com visibilidade pode chamar atenção para questões latentes, então acho muito positivo e saudável para alertar nossa comunidade.

RF: Dentre os diversos problemas sociais presentes no Brasil, você conseguiria escalar um que considere o principal a ser combatido?

LR: Acho que tudo passa pela educação. A gente fica falando isso, mas acho mesmo que a educação deveria ser mais prioridade do que é. Porque com ela você consegue trabalhar a questão da saúde, que não é somente o tratamento da saúde, mas a prevenção. É dela que vem a consciência de que temos direitos, é por ela que conseguimos saber cuidar do nosso lixo, que sabemos da importância do uso da camisinha. Claro que não resolveria tudo, mas seria um bom começo, uma ótima prioridade para resolver várias questões.

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www.unicef.org.br

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