André Trigueiro

Por: Paula Craveiro
01 Janeiro 2008 - 00h00
Há muito o jornalista André Trigueiro dedica-se à pauta socioambiental. Desde 1996, ele atua como repórter e apresentador do “Jornal das Dez”, do canal de TV a cabo Globo News. Na mesma emissora, ele já produziu, roteirizou e apresentou programas especiais ligados à temática socioambiental, como as séries “Água: o desafio do século 21” e “Kyoto: O protocolo da vida”, entre tantas outras, vencedoras de alguns dos mais conceituados prêmios de jornalismo do país.

André é ainda comentarista da Rádio CBN no quadro “Mundo Sustentável”, aos sábados e domingos, autor do livro Mundo sustentável – Abrindo espaço na mídia para um planeta em transformação, e coordenador editorial e um dos autores do livro Meio ambiente no século XXI.

Desde 2006, ele apresenta no Globo News o programa “Cidades e Soluções”, que aborda e questiona problemas enfrentados pelos cidadãos das metrópoles, trazendo soluções possíveis e imediatas em curto e médio prazo. “Priorizamos aquelas soluções que sejam sustentáveis, de baixo custo e fáceis de serem replicadas”, explica ele.

Em entrevista à Revista Filantropia, o jornalista fala sobre sua atuação na área ambiental e como pessoalmente contribui para a conservação do meio ambiente, avalia as ações do atual governo e destaca a importância da educação para a conscientização ambiental.



Revista Filantropia: Quando e como você começou a atuar no jornalismo ambiental?

André Trigueiro: Há quase 16 anos, a cobertura da Rio-92, mais precisamente do Fórum Global – evento paralelo à Conferência da ONU que reuniu organizações não-governamentais do mundo inteiro, lideranças sociais e religiosas –, aguçou os meus sentidos para a urgência de uma nova atitude em diferentes setores da minha vida. Antes desse megaevento, o assunto já me interessava bastante. Mas depois, houve um clique.

É claro que sobrou também para o lado profissional. Não me considero propriamente um “jornalista ambiental”, prefiro ser chamado de jornalista. Meio ambiente alcança indistintamente todas as áreas do saber e do conhecimento. No jornalismo, seja qual for a editoria em que o profissional esteja vinculado, a questão ambiental está colocada. Portanto, todo jornalista, forçosamente, precisa se dar conta de que esse assunto está absolutamente inserido em seu universo de trabalho. Aliás, cada vez mais inserido.

Revista Filantropia: E, hoje, o que o estimula a continuar nesta área?
AT: Denunciar os interesses contrários à vida e à sustentabilidade. Sinalizar rumo e perspectiva para um número crescente de pessoas que buscam saídas, alternativas. Vivemos um modelo suicida de desenvolvimento e precisamos reinventar o sistema. Ou mudamos ou pereceremos.

Revista Filantropia: Como a preocupação ambiental se reflete no cotidiano do cidadão André Trigueiro?
AT: Descobri que é possível ser feliz sem ser consumista. Ou seja, pratico o consumo consciente e não me iludo com as promessas da publicidade de que preciso ter isto ou aquilo para ser feliz. Busco a felicidade em experiências que estão longe do consumismo. O consumo favorece a vida, mas o consumismo degrada a vida porque exaure os estoques de matéria-prima e energia que são finitos neste planeta.

Além disso, procuro economizar água e energia, separo o lixo. Basicamente, tento praticar no dia-a-dia aquilo que eu entendo como certo. Estou longe da perfeição e não me considero um modelo, mas descobri a força daquilo que os educadores chamam de pedagogia do exemplo: “não importa o que você fala, importa o que você faz”. É isso que move o mundo. É isso que fica.

Inúmeros relatórios de organismos multilaterais revelam o risco real de promovermos o colapso dos ecossistemas que fornecem matéria-prima e energia para a humanidade nos próximos anos

Revista Filantropia: Com base em sua trajetória profissional, que iniciativas (nacionais e/ou internacionais) chamaram sua atenção no tocante ao desenvolvimento econômico associado à preservação dos recursos naturais?
AT: Difícil eleger os melhores exemplos porque, de alguma maneira, todos eles me sensibilizaram. Sem a pretensão de inserir todas as melhores iniciativas, mas citando apenas algumas para responder a sua pergunta, vamos lá. O aposentado José Alcino Alano, da cidade de Tubarão (SC), descobriu como fabricar coletores solares para esquentar a água do banho a partir de garrafas PET e caixas de leite Tetrapak. Liberou a patente e permitiu que todas as pessoas ou instituições interessadas replicassem o invento gratuitamente, sem interesse pessoal ou financeiro. É um caso singular de amor ao próximo.

Tijolos ecológicos produzidos sem a necessidade de cozimento; asfaltos feitos de pneus velhos; madeiras plásticas fabricadas a partir de resíduos de Polietileno de Alta Densidade (PAD); a reciclagem de entulho que permite a reutilização de materiais de construção que antes se acumulavam em aterros; as cidades digitais como Piraí (RJ) e Tiradentes (MG), que oferecem banda larga sem fio e provedor grátis para toda a população; os biodigestores que transformam esgoto doméstico em gás de cozinha e inspiraram políticas públicas na área do saneamento nas cidades da região serrana do Rio de Janeiro; os sistemas de compras públicas sustentáveis, que inserem nos editais de licitação novos critérios de seleção quem levam em conta a certificação ambiental de produtos e serviços; as cidades européias que desenvolveram sistemas públicos de incentivo ao uso de bicicletas.

Enfim, a lista é grande, e todos os programas exibidos na Globo News e no canal Futura podem ser vistos pela internet no site Mundo Sustentável.

Revista Filantropia: A tecnologia é aliada ou inimiga da luta pela preservação do planeta?
AT: A tecnologia, por si, é apenas uma ferramenta. O uso que se faz dela é o que interessa, é o que define se haverá dano ou benefício. Erram aqueles que apostam na inovação tecnológica como a solução definitiva para os graves problemas ambientais que enfrentamos e que nos ameaçam enquanto espécie.

Precisamos repensar hábitos, comportamentos e padrões de consumo. A tecnologia terá o seu papel nesse processo, mas como coadjuvante, nunca como ator principal.

Revista Filantropia: A mídia de massa brasileira está preparada para cobrir adequadamente a área ambiental? A pauta que temos hoje cumpre sua função social?
AT: Estamos melhores do que já estivemos, mas em um nível ainda abaixo do que poderíamos estar. Há um processo em andamento, e eu sou otimista. Aos poucos vai se criando uma cultura de sustentabilidade, que inspira diversos cursos de formação em inúmeras áreas – inclusive no jornalismo – para a urgência de uma readequação dos conteúdos curriculares na busca das repostas que o nosso tempo vem demandando. Em resumo: o mundo está sendo chacoalhado para que haja mudanças estruturais em favor da vida. E isso também reverbera no jornalismo.

É legítimo e urgente que o cidadão sinta no bolso a consciência que faltou no exato momento da infração. Sou a favor que se apliquem multas a cidadãos que jogam lixo na rua

Revista Filantropia: Em que medida a mídia pode estimular o desenvolvimento de políticas públicas e atitudes cidadãs ambientalmente responsáveis?
AT: Dando visibilidade às boas práticas que já fazem a diferença no Brasil e no mundo. Sou testemunha do interesse crescente de diferentes segmentos da sociedade – políticos, empresários, lideranças do Terceiro Setor, profissionais liberais, alunos de escolas e universidades etc. – que nos procuram para saber mais detalhes a respeito de projetos que mostramos na TV, na internet ou na rádio.

É ainda mais recompensador quando nos dão depois um retorno, para mostrar como efetivamente conseguiram replicar essas experiências em suas respectivas áreas de atuação. Por meio da mídia é possível fomentar novas atitudes em favor de um mundo melhor e mais justo, um mundo sustentável. Entendo esta como uma das atribuições do moderno jornalismo no terceiro milênio.

Revista Filantropia: Frente à perspectiva ambiental, qual o papel do governo, dos cidadãos e do Terceiro Setor?
AT: Precisamos todos entender as causas desta crise ambiental sem precedentes na História e reconhecer o papel de cada um na reconstrução do atual modelo de desenvolvimento. Estamos falando de mudanças estruturais que só acontecerão com a participação de todos. O problema é que as grandes mudanças levam tempo para acontecer, e nós não temos muito tempo para corrigirmos o rumo.

Inúmeros relatórios de organismos multilaterais – Pnud, Pnuma, Banco Mundial, IPCC – revelam, por meio de indicadores cada vez mais precisos, o risco real de promovermos o colapso dos ecossistemas que fornecem matéria-prima e energia para a humanidade nos próximos anos, como a água, por exemplo. Não é um problema a ser resolvido em um futuro distante. É pra já.

Revista Filantropia: Qual a sua opinião sobre ações radicais praticadas por ONGs como a Peta e o Greenpeace?

AT: A História nos ensina que movimentos radicais normalmente nascem onde há opressão, onde o pensamento dominante impõe normas e regras nem sempre justas ou comprometidas com a vida. As manifestações organizadas pela Peta surgem em um cenário de total descolamento entre o que é exibido com pompa e circunstância nas passarelas da moda e a barbárie imposta a animais que têm as peles arrancadas – de maneira cruel e extremamente dolorosa, muitas das vezes com os bichos ainda vivos – sem que haja espaço para se discutir a pertinência dessa vaidade alimentada às custas do sofrimento atroz de outros seres vivos.

É uma questão invisível no mundo da moda e que a Peta resgata de modo espetacular justamente para chamar a atenção da mídia. O mesmo faz o Greenpeace quando promove ações contra testes nucleares, desmatamento, caça a baleias. É bom lembrar que foi uma investigação do Greenpeace, comprovando a destruição da Floresta Amazônica para o plantio de soja, que resultou na decisão dos países europeus de exigirem a certificação dos grãos. Considero importante também refletirmos sobre o conceito de “radical”. Este se tornou o adjetivo predileto de muitos segmentos conservadores que rotulam de maneira pejorativa seus opositores, taxando de “radicais” aqueles que, na verdade, lutam em favor de causas legítimas, contra seus interesses mesquinhos, retrógrados
e insustentáveis.

Revista Filantropia: Como você avalia o comportamento do atual governo frente às polêmicas ambientais, como a exploração ilegal da Amazônia, os casos de fraudes e corrupção no Ibama e outros órgãos públicos e, mais recentemente, a transposição do rio São Francisco?
AT: Cada assunto levantado na pergunta justifica uma longa explanação, que não entrarei aqui em detalhes. Nenhum governo é monolítico, ou seja, há diversas opiniões distintas em um mesmo governo. Quem ocupa o cargo de ministro do Meio Ambiente enfrenta interesses contrários à sustentabilidade que têm origem nas demais esferas governamentais. Um ex-ministro do Meio Ambiente me confidenciou certa vez que ele se considerava o “chato da turma” pelo fato de estar sempre advertindo os colegas para os equívocos de certos projetos que eram notoriamente insustentáveis, ou seja, comprometiam de modo assustador a perspectiva de uso inteligente dos recursos naturais.

Importa dizer que em um regime presidencialista como o do Brasil, há muito poder concentrado nas mãos do presidente da República. E o atual presidente não me parece tão comprometido com o desenvolvimento sustentável. Prova disso é a “menina dos olhos” deste governo, o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). O discurso presidencialista remonta do desenvolvimentismo de JK, de quase 50 anos atrás, e está ultrapassado, defasado. No mundo inteiro, chefe de estado que fala de desenvolvimento precisa falar também de sustentabilidade. Falar e praticar.

Como denunciou recentemente o ex-ministro da Fazenda Rubens Ricúpero, não é possível falar em preservação da Amazônia e liberar, ao mesmo tempo, recurso do BNDES para a construção de frigoríficos na região – o que estimula a criação de gado, responsável por 80% de toda a destruição já registrada da floresta.

Revista Filantropia: Grande parte dos países desenvolvidos possui e pratica leis contra os cidadãos e empresas que poluem a cidade, seja ao jogar papel em vias públicas ou depositar entulho em local inadequado. A aplicação de multas contribui para a educação ambiental?

AT: A educação vem na frente. A punição – também por meio de multas – vem depois. É legítimo e urgente que o cidadão sinta no bolso a consciência que faltou no exato momento da infração. Sou a favor, por exemplo, que se apliquem multas a cidadãos que jogam lixo na rua. A limpeza das ruas é um serviço que custa cada vez mais caro aos cofres públicos, dada a escalada de sujeita em cidades como o Rio de Janeiro, por exemplo, onde o volume de resíduos jogados displicentemente nas vias públicas supera proporcionalmente o crescimento da população.

É a cidade com o maior número de escolas públicas do Brasil e, ainda assim, a maior parte do IPTU pago pelo carioca vai para a Companhia Municipal de Limpeza Urbana (Comlurb). Do jeito que emporcalhamos as ruas da cidade, a maior parte do imposto continuará atrelada à limpeza urbana. A multa poderá intimidar a ação de alguns “porquinhos”.

Revista Filantropia: Qual a melhor maneira de conscientizar pessoas e empresas sobre a importância de conhecer e respeitar a Legislação Ambiental?

AT: Mais uma vez a educação é o caminho. Não se impõe uma nova consciência por decreto ou medida provisória. Ou elevamos o nível de interesse dos alunos nas escolas ou universidades, ou se mantém a farsa – recentemente denunciada – de alunos analfabetos depois de quase dez anos na escola pública.

Os países do mundo que ascenderam à condição de desenvolvidos não descuidaram da educação. Quando cobri a Copa do Mundo da Coréia do Sul e Japão (2002), assisti a diversos comerciais na TV coreana instigando os torcedores do país que fossem aos estádios a recolher o lixo que vissem no chão. Isso é cidadania de verdade.

Revista Filantropia: Para você, qual seria o mais grave problema ambiental do Brasil hoje?
AT: A falta de saneamento. Menos de 30% de todos os esgotos do país recebem algum tipo de tratamento. O resto é lançado in natura nos rios, lagos e no litoral, espalhando doenças de veiculação hídrica que respondem pelo maior volume de internações da rede pública de saúde. Em pleno século 21, ainda registramos óbitos no Brasil de doenças medievais como diarréia, hepatite e febre tifóide. É uma vergonha.

Revista Filantropia: O Protocolo de Kyoto é considerado um marco na luta pela conservação do planeta, porém gerou grandes controvérsias. Interesses econômicos e políticos são obstáculos para o avanço na área ambiental?
AT: O Protocolo de Kyoto foi um primeiro passo importante em favor da redução das emissões de gases de efeito estufa. O maior problema para que o acordo seja bem sucedido é o interesse imediatista de países como os Estados Unidos, que priorizam os resultados de curto prazo, sem se darem conta de que o risco maior é não fazer nada. Os interesses contrários sempre existem. Daí a necessidade dos movimentos em sentido oposto, com maior ou menor radicalidade. Mas sempre no sentido oposto ao que está aí, sempre incomodando, denunciando, abrindo espaço para as vozes dissonantes.

O movimento ambientalista veio de baixo para cima, ameaçando o pensamento dominante, subvertendo a ordem estabelecida. Foi taxado de subversivo e romântico, até se consolidar como um dos maiores e mais importantes movimentos da História da humanidade. Hoje, para você ver, tem até “banco da sustentabilidade”. O discurso já mudou. Faltam mudar as práticas.

Revista Filantropia: Hoje, o “selo” de responsabilidade socioambiental tornou-se praticamente obrigatório para a sobrevivência das empresas, já que pesquisas demonstram o crescimento desta preocupação entre os consumidores. Até que ponto você acredita ser verdadeira essa “boa intenção” do Segundo Setor?
AT: De fato, há muitas empresas pegando carona na “onda verde”. Só sobreviverão no mercado aquelas que efetivamente estiverem praticando o que estão dizendo. Em uma sociedade democrática, onde há competição entre as empresas, imprensa livre e sistemas de regulação e certificação bem definidos, a mentira tem perna curta.

Tenho acompanhado o esforço de várias empresas públicas e privadas interessadas em capacitar seus funcionários a entender as diversas dimensões em que a sustentabilidade se resolve. São investimentos importantes, que consomem recursos preciosos na formação de pessoal qualificado para enfrentar os imensos desafios que temos pela frente. O mundo corporativo já entendeu que a “maquiagem verde” pode dar bons resultados no curto prazo, mas não haverá salvação para quem apenas investir em marketing.

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