A sustentabilidade das universidades brasileiras pela sociedade civil

Por: Custódio Pereira
01 Maio 2005 - 00h00

No ano de 2003, os americanos doaram US$ 240,72 bilhões para entidades sem fins lucrativos, conforme dados fornecidos pelo Giving USA 2004, da American Association of Fund Raising Counsel (AAFRC), e as contribuições vêm crescendo ano a ano. Nesse valor está incluída a significativa soma de US$ 31,59 bilhões doados a instituições de ensino, especialmente universidades.

As universidades americanas têm desenvolvido, sistematicamente, a cultura e as técnicas de captar recursos da sociedade civil desde o início do século 17. Tal é a importância dada ao tema que várias instituições renomadas adotaram o nome de doadores como forma de reconhecimento, como, por exemplo, Harvard e Yale.

A cultura doadora dos americanos para instituições de ensino é decorrente da visão de que somente por meio da educação pode-se atingir o desenvolvimento. As doações e os legados possibilitaram a expansão do ensino superior, e as universidades americanas passaram a ser referência no mundo quando se fala de captação de recursos.

Universidades tradicionais como Oxford e Cambridge, na Inglaterra, começaram a desenvolver a mesma forma de sustentabilidade, com fundos provenientes da comunidade e especialmente dos ex-alunos, depois de conhecer o caso de Harvard, que teve inclusive uma experiência expressiva, bem organizada e relativamente recente de Capital Campaign.

A campanha foi lançada em maio de 1994 e concluída com êxito em dezembro de 1999, com a captação da impressionante cifra de US$ 2,1 bilhões1. Harvard é uma das maiores e mais antigas captadoras de fundos do mundo, e dispõe de estrutura própria com aproximadamente 250 funcionários.

A principal fonte de capital são ex-alunos, que participam ativamente como voluntários e doadores. As doações milionárias, em sua maioria, costumam ser feitas por aqueles que reconhecem a importância da universidade para sua formação e desejam vê-la cada vez melhor. As associações de antigos alunos são uma tradição nas instituições americanas e em algumas européias.

O espírito fraternal cultivado durante os anos de convívio na escola estende-se por muitos anos após o término do curso por meio das associações. O relacionamento com ex-alunos permite às melhores escolas garantir um volume constante de doações e de novos alunos. Eles se tornam membros vitalícios de influentes redes de contato, que garantem empregos bem pagos, lucrativas associações comerciais e acesso preferencial à crescente e influente elite do mundo dos negócios2.

Bem, podemos dizer que a realidade brasileira é muito diferente da americana e européia, que, além de serem países ricos, contam com incentivos3 e, principalmente, com a cultura de seus povos, que doam e deixam legados vultosos às universidades.

Verifica-se ainda que muitos ex-alunos latinos e asiáticos de escolas americanas fazem doações para essas instituições, sem qualquer incentivo fiscal no país de origem dos recursos. Vi pessoalmente um dos edifícios da Universidade de Babson doado por um ex-aluno latino-americano. Entretanto, essas pessoas não doam para a escola em que estudaram no próprio país, muitas vezes com bolsa ou gratuitamente dentro de universidades públicas.

Temos observado vários movimentos de universidades latino-americanas para obter fundos de ex-alunos, com algum sucesso. Em 2003, realizou-se em Hong Kong um congresso com a iniciativa de ex-alunos de universidades americanas que tinham o hábito de doar sistematicamente a essas instituições, mas não doavam às escolas locais.

Importantes decisões foram tomadas naquela ocasião, como a revisão dos incentivos fiscais para doações a universidades e, principalmente, o compromisso do governo de doar um dólar para cada dólar captado junto à sociedade civil para programas de pesquisa e desenvolvimento.

Acredito que podemos modificar a cultura brasileira e criar mecanismos para garantir a sustentabilidade e a captação de recursos para as universidades, especialmente as públicas. Nessa direção, realizamos em maio deste ano uma pré-conferência com o apoio da Association of Fundraising Professionals e do Council for the Advancement and Support of Education, com a intenção de concretizar o primeiro congresso, em 2006, para troca de experiências no setor. O objetivo será promover o suporte à educação proveniente da sociedade civil, com parcerias e ex-alunos, e discutir a evolução dos incentivos fiscais às doações para o desenvolvimento da educação no Brasil, como já ocorre em vários países.

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