A guerra em um mundo sem muitos Schindlers

Por: Felipe Mello
01 Dezembro 2005 - 00h00

Cinéfilos de plantão, atenção! Esta matéria terá sua linha de argumentação levemente inspirada em dois filmes de muito sucesso no mundo inteiro, e que infelizmente guarda ligações diretas com o assunto a ser tratado: Guerra dos Mundos, obra literária de H. G. Wells e transformada em filme pela segunda vez em 2005, por Steven Spielberg, e A lista de Schindler, baseado em fatos reais, rodado em 1993 pelo mesmo cineasta.

O primeiro trata da invasão de extraterrestres ao planeta Terra, com o objetivo de exterminar os seres humanos e o segundo conta a história de um empresário que salvou a vida de dezenas de judeus durante a Segunda Guerra Mundial.

A extinção de espécies animais é um assunto que comoveu o mundo no cinema, mas parece ter menos força quando a vítima não faz parte da espécie humana.

O Brasil possui atualmente 208 espécies na lista oficial de animais ameaçados de extinção e dez novas espécies serão adicionadas em breve. De acordo com o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), a exploração desordenada tem levado a fauna brasileira a um processo de extinção de espécies intenso, seja pelo avanço da fronteira agrícola, seja pela caça esportiva, de subsistência ou com fins econômicos, como a venda de peles e animais vivos. O processo vem crescendo nas últimas duas décadas, à medida que a população cresce e os índices de pobreza aumentam.

E como reverter esse quadro, ou seja, poupar da extinção as espécies que têm papéis importantes na natureza? A palavra chave é protagonismo, traduzida na prática por compreensão, compromisso e ação positiva e transformadora. Para mudar a história de um cenário socioambiental degradado, a iniciativa deve entender o estado atual, os riscos mais sérios e iminentes, os principais agressores e as estratégias adequadas para interromper a violência, e começar a caminhar no sentido contrário, ou seja, o da preservação.


Educação e conservação

O cantor brasileiro Gabriel Pensador dá a seguinte mensagem em uma de suas composições: “Muda que quando a gente muda o mundo muda com a gente... a gente muda o mundo na mudança da mente... e quando a mente muda a gente anda pra frente”. A letra trata de decisão, vontade de fazer diferente, transformar si mesmo como forma de transformar o mundo.

É a história de Claudio Padua, atual diretor científico do Instituto de Pesquisas Ecológicas (IPÊ), Oscip com sede em Nazaré Paulista, São Paulo. Sua principal missão é promover a conservação dos recursos socio ambientais do Brasil, por intermédio da educação, ciência e negócios sustentáveis, acreditando que o ser humano tem dever ético com a biodiversidade.

Em 1978, quatro anos antes da fundação da entidade, Padua resolveu deixar para trás a carreira bem sucedida de diretor administrativo de indústrias no Rio de Janeiro, para se dedicar exclusivamente à biologia e à pesquisa do mico-leão-preto, espécie considerada extinta até por quase um século e um dos primatas mais raros do mundo. A mudança, aos 32 anos, foi radical e incluiu a esposa, Suzana Padua, e os três filhos, que, no final da década de 1980, tiveram de se mudar com ele para o Pontal do Paranapanema (extremo oeste de São Paulo) a fim de pesquisar o mico-leão-preto.

Os estudos indicaram a Padua que a verdadeira conservação da espécie só poderia ser feita com o envolvimento da comunidade localizada no entorno do hábitat do animal. Foi então que as iniciativas de educação ambiental da organização começaram, sob responsabilidade de Suzana, que tinha como meta persuadir os moradores daquela região sobre a importância da proteção da natureza. Era preciso fi car bastante claro que a conservação das espécies animais não ajudaria apenas a Mata Atlântica, mas era também fator determinante para a qualidade de vida de cada uma das pessoas que tinha sua vida construída naquela região.

O trabalho do casal começou a ganhar projeção, e outros pesquisadores e estagiários uniram-se a Claudio e Suzana para criar o IPÊ, que inicialmente teve sua sede em Piracicaba (SP). A atual gestão tem Suzana como presidente do instituto e Claudio como diretor científico. “Hoje o IPÊ é considerado a terceira maior ONG ambiental do Brasil”, conta Suzana.

O instituto, que começou com o Projeto Mico-Leão-Preto, conta hoje com mais de
70 profissionais que trabalham em cerca de 30 ações espalhadas pelo Brasil: Estação Ecológica de Anavilhanas (AM), Pontal do Paranapanema e Nazaré Paulista (SP) e Parque Nacional do Superagüi (PR). O IPÊ mantém pesquisas também em regiões como Ilha Grande (PR) e Ivinhema (MS).


Profissionalismo

Nos locais onde atua, a organização tem adotado o modelo IPÊ de Conservação, desenvolvido pela experiência obtida com os anos de trabalho. É um modelo de ação integrado que inclui pesquisa de espécies ameaçadas, educação ambiental, restauração de hábitat, envolvimento comunitário, desenvolvimento sustentável, conservação da paisagem e participação em políticas públicas. “Nosso objetivo é conservar a biodiversidade respeitando as tradições das comunidades no entorno dos locais que precisam ser protegidos e onde são realizadas as pesquisas”, informa Padua. E ele completa: “As alternativas sustentáveis para geração de renda surgem como novas fontes de sustento para as famílias destas regiões, o que auxilia na diminuição da pressão humana sobre a biodiversidade local”.

Uma das preocupações do IPÊ desde a sua criação é a transferência do conhecimento adquirido em suas pesquisas. Por isso, capacita continuamente seus profissionais e dá oportunidades e incentivo aos estagiários, que, muitas vezes, continuam a trabalhar no instituto após a graduação. “Atualmente nossa equipe conta com 16 mestres, seis mestrandos, cinco doutores e sete doutorandos, muitos deles professores do Centro de Biologia da Conservação (CBBC)”, conta Suzana. O centro de ensino multidisciplinar foi criado pelo IPÊ para multiplicar e transmitir o conhecimento em biodiversidade e temas socioambientais a um público amplo, que inclui todos os segmentos sociais.

Os trabalhos desenvolvidos pelo IPÊ têm obtido resultados expressivos, fato reconhecido pelo número de prêmios recebidos nos últimos anos. Entre eles, destaca-se o Withley Gold Award, prêmio internacional considerado o Oscar da conservação do meio ambiente. Em 2003, o instituto foi um dos vencedores do Prêmio Bem Eficiente, que premia as 50 entidades mais bem administradas do país, além de vários reconhecimentos prestigiosos nacionais e internacionais.

Apesar de não entrar em detalhes sobre as produções cinematográficas citadas, é
certo que o tema atrai a atenção daqueles que corroboram com a frase de Oscar
Schindler, personagem real que inspirou o filme de Spielberg: “Quem salva uma
vida, salva o mundo inteiro”. A esperança de cada pessoa que acredita nesta máxima é de que os movimentos de preservação ambiental ganhem força continuamente, e tenham tanto sucesso quanto tiveram os heróis do filme Guerra dos mundos, em que os predadores são derrotados.

Só uma consideração final: no mundo real, os predadores não são extraterrestres.

NÚMEROS DO IPÊ

208 espécies animais ameaçadas de extinção

1982 é o ano de fundação da entidade

70 profissionais

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