A decadência da sociedade e a fórmula da comunidade

Por: Roberto Ravagnani
01 Janeiro 2004 - 00h00
O princípio ativo de comunidade existe e funciona, como no exemplo do Dispensário Santana

O conceito de comunidade é trabalhado há muito tempo, por diversos pensadores e teóricos. Exemplos não faltam. Tönies procurou criar uma concepção de comunidade pura, idealizada. Nessa linha, fica clara a oposição entre comunidade e sociedade. Para ele, a primeira tinha motivação afetiva, era orgânica, lidava com relações locais e com interação. As normas e o controle se davam pela união, hábito, costume e religião. Seu círculo abrangia família, aldeia e cidade.

Já a sociedade era a frieza, o egoísmo, fruto da calculista modernidade. Sua motivação era objetiva, mecânica, observando relações externas e complexas. As normas e o controle se davam pelas convenções, leis e opinião pública. Seu círculo abrangia metrópole, nação, Estado e mundo. Enfim, a partir de sua conclusão, Tönies classificava a comunidade como o estado ideal dos grupos humanos e a sociedade, por outro lado, a parte corrupta e desequilibrada.

A decadência da comunidade

Assim como a teoria comunitária foi amplamente discutida, a decadência da mesma também polarizou opiniões. De forma geral, atribuiu-se a dificuldade de se criar e manter comunidades saudáveis e sustentáveis ao individualismo e ao culto à personalidade. A industrialização e a criação de uma sociedade de consumo deu um duro golpe na possibilidade de um senso baseado no comum, ou seja, no bem-estar coletivo. A bola da vez passa a ser a competição desenfreada, a cobrança pelo sucesso – o “subir na vida”, independentemente das ferramentas aplicadas para tal objetivo. Um verdadeiro paraíso maquiavélico, no qual os fins justificariam os meios.

Diagnóstico e receita

O tempo passou e, devolvendo a palavra a Tönies, a sociedade venceu, mas não convenceu. A frieza e o egoísmo plantaram vento e agora colhem tempestade. No cenário brasileiro, o governo, em todas as suas esferas, evidencia diária e crescentemente a própria incapacidade de resolver as demandas sociais. Dois aspectos primários, saúde e educação, ainda estão longe de ser equacionados a contento. Isso só para ficar na seara das necessidades básicas.

A sociedade está desequilibrada e precisa de muitos braços para parar de pender contra os menos favorecidos. Estaria na hora de investir enfaticamente na idéia de comunidade? Se sim, de que forma? O Terceiro Setor, este corpo multifacetado que cresce ininterruptamente, dá exemplos concretos. O desafio é vencer as vaidades, estancar a sangria da corrupção e desenvolver métodos que possam democratizar certas fórmulas encontradas. O princípio ativo existe e funciona, como no exemplo do Dispensário Santana.

A história da organização

Evangelizar, educar, proporcionar saúde e promoção social, com metas prioritárias voltadas à criança, ao adolescente, ao idoso e às ca-madas mais ca-rentes da sociedade e, particularmente, à busca da recuperação dos meninos de rua. Essas são as diretrizes do Dispensário Santana, projeto social iniciado em 1983 no Jardim Acácia, no município baiano de Feira de Santana.

Basta observar as instalações da organização para entender a dimensão do trabalho. Só o prédio principal tem mais de 6 mil metros quadrados, dentro do qual funciona um abrigo para 30 senhoras, uma escola com 22 salas, um centro de saúde e uma oficina para a confecção de bijuterias.

Além disso, próximo à sede da entidade, desenvolvem-se outros projetos, como uma quadra de esportes coberta, sorveteria, padaria, fábrica de detergentes, creche, centro profissionalizante e uma serigrafia. A atuação do Dispensário Santana ainda ultrapassa as fronteiras do Jardim Acácia: o Centro de Formação e Promoção Maria de Nazaré, com capacidade para 90 pessoas, situa-se no bairro Papagaio.

Os resultados alcançados

Contando com toda a estrutura apresentada, o trabalho da instituição contabiliza resultados sólidos. São quase 200 voluntários e mais de uma centena de funcionários atuando diretamente com a população do Jardim Acácia, estimada em oito mil habitantes.

A evangelização tem papel muito importante, uma vez que reúne aqueles que serão multiplicadores dos ideais do Dispensário Santana. Os cursos de formação de lideranças são freqüentados por 160 pessoas. Cerca de 330 crianças, de 7 a 14 anos, fazem a catequese nos finais de semana. O grupo de jovens conta com 45 integrantes e outros movimentos religiosos reúnem público variado.

O foco do Dispensário

Dentre as atividades desenvolvidas, fica claro que a prioridade da entidade está no trabalho educacional. A creche recebe 92 crianças, de três e quatro anos. No ensino fundamental estão 670 crianças e adolescentes e a alfabetização de adultos reúne 63 alunos no período noturno, além das atividades esportivas durante todos os dias da semana.

Nas oficinas de orientação para o trabalho são oferecidas 233 vagas para adolescentes em diversos cursos: serralharia, fábrica de vassouras, fundição de bijuterias, sorveteria, panificação, detergentes, fabricação de detergente, serigrafia, artesanato, pintura, culinária, bordado, confecções e bijuterias. Há outros cursos para jovens e adultos, como corte e costura, computação, doces e salgados, pintura em tecido, embalagens, redação, língua portuguesa e língua estrangeira.

Não há dúvidas de que a oportunidade de estudar e aprender um ofício são ingredientes indispensáveis na fórmula de redução do desequilíbrio social. Até porque uma força de trabalho educada e capacitada é tão fundamental quanto o aquecimento da economia no processo de crescimento do país.

Cuidando da saúde da comunidade

A instituição cuida também das gestantes e das mães com bebês: são os programas pré-natal e de incentivo ao aleitamento materno, coordenados pelo Centro de Saúde do Dispensário. Embora recente, o segundo projeto já rendeu bons frutos: 77% das crianças com até quatro meses de idade foram alimentadas exclusivamente com leite materno e 23%, com aleitamento misto. Os resultados animadores demonstram que o contato próximo e constante com a comunidade é o caminho para modificar realidades e educar para a cidadania.

Ainda dentro do Centro de Saúde, cerca de 300 famílias são auxiliadas com gêneros alimentícios e onde são realizados aproximadamente 39.500 atendimentos por mês no centro médico-odontológico.

Dificuldades e crença no possível

Apesar de enfrentar dificuldades diárias, como a falta de indivíduos preparados e capacitados para as funções, as dificuldades financeiras e a complexidade do próprio trabalho, a organização se mostra disposta a continuar lutando pela melhoria da realidade da comunidade em que está situada. E a motivação dessa turma está nas histórias de vidas já mudadas, assim como na crença da possibilidade de justiça social. É a busca por um equilíbrio baseado nos fortes pilares da comunidade, destacadamente a afetividade entre os seres – combustível para o convívio sustentável.

Números do Dispensário Santana

200 voluntários

233 vagas nas oficinas de orientação para o trabalho

63 alunos na alfabetização de adultos crianças e adolescentes no ensino fundamental

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