A Década do Voluntariado

Por: Silvia Naccache, Thaís Iannarelli
01 Maio 2012 - 00h00

“O voluntariado é a expressão básica das relações humanas. Trata-se da necessidade que as pessoas têm de participar de suas sociedades e sentir que importam para os outros. Acreditamos que as relações sociais intrínsecas ao voluntariado sejam importantes para o bem-estar individual e comunitário”. A passagem foi retirada da pesquisa State of the World’s Volunteerism Report – Universal Values for Global Well-being, publicada pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 2011, e define o termo justamente no ano em que se celebra a década do voluntariado no mundo todo.

Com o passar dos anos, as oportunidades para que as pessoas se engajassem no voluntariado cresceram muito, e fatores presentes na última década favoreceram este crescimento. O desenvolvimento da tecnologia abriu novos espaços para a atividade, permitindo que as pessoas se relacionassem mais rapidamente do que antes. Além disso, o interesse do setor privado pelo voluntariado em termos de responsabilidade social também se desenvolveu muito, assim como os movimentos globais de pessoas interessadas no assunto, que mobilizam as formas tradicionais de voluntariado em todos os lugares.

Exemplos de ação pelo mundo
Em muitos países, o voluntariado tem base em tradições e práticas da comunidade. Na Noruega, por exemplo, o termo Dugnad descreve o trabalho voluntário coletivo: um esquema tradicional de cooperação em grupos sociais como a família, a vizinhança, a comunidade, a região geográfica, o setor profissional ou a nação. Um exemplo de ação é a limpeza de áreas urbanas comuns. O Dugnad se trata de contribuir com dinheiro ou tempo. Também se relaciona com o senso de comunidade, com a ideia de construir relacionamentos entre vizinhos e membros da comunidade.
No mundo árabe, o voluntariado está associado a ajudar pessoas em celebrações ou em momentos difíceis, e é considerado como um dever religioso e trabalho de caridade. O voluntariado, em árabe, é atawa’a, que significa doar alguma coisa. Também significa se comprometer a uma atividade de caridade que não seja uma exigência religiosa. Origina-se da palavra al-taw’aI, que significa leveza e flexibilidade. O conceito toma novas formas devido à modernização e ao desenvolvimento das instituições governamentais e não-governamentais.
No sudeste da África, o conceito de Ubuntu define o indivíduo em relação aos outros. Como dizia Nelson Mandela, “Um viajante que passa por um país pode parar num vilarejo sem ter de pedir comida ou água. Quando parar, as pessoas o darão comida, e vão deixá-lo à vontade. Esse é um dos aspectos do Ubuntu, que tem várias outras características. Não significa que as pessoas não possam enriquecer. A questão é: você vai fazer com que a comunidade ao se redor também possa se desenvolver?”.
Fonte: Haugestad. (2004, July 25-30); Leland. (2010, August 29); Mandela. (2006, June 1); Nita Kapoor, [Director General, Fredskorpset (FK Norway)], Personal Communication. (2011, July 27);Shatti. (2009).

 

O que é, exatamente, o voluntariado?

Embora a pergunta pareça simples, existem muitas explicações para o termo. A definição adotada foi aquela estabelecida pela Assembleia Geral das Nações Unidas em 2001, que estipula três características: a ação deve ser voluntária, de acordo com a livre e espontânea vontade do indivíduo, e não uma obrigação definida por lei, contrato ou exigência acadêmica. A decisão de se tornar voluntário pode ser influenciada por pressão de colegas, valores pessoais ou obrigações sociais, mas a pessoa deve ter a possibilidade de escolher se quer ou não fazer alguma ação.

Além disso, a ação não pode ter como objetivo a recompensa financeira. Porém, é possível, sim, haver reembolso de gastos e provisões de alimentação e transporte. Essas contrapartidas são bem vistas, pois facilitam a participação dos voluntários. No voluntariado empresarial, também é aceitável que o salário do funcionário continue intacto – neste caso, é a empresa quem doa o tempo de trabalho daquele funcionário para a ação voluntária.

Em terceiro lugar, a ação voluntária deve visar o bem comum. Direta ou indiretamente, deve beneficiar pessoas fora do círculo próximo ou familiar, ou uma causa, mesmo que a pessoa que é voluntária ou seus familiares também se beneficiem. Muitas culturas definem o voluntário como alguém que “trabalha pelo bem-estar da comunidade”.

Panorama no Brasil e no mundo

Para fechar as comemorações da década do voluntariado, o Sistema das Nações Unidas e a Rede Brasil Voluntário realizaram pesquisas sobre o assunto no Brasil e no mundo em 2011. A pesquisa brasileira foi encomendada ao Ibope pela Rede Brasil Voluntário, com o objetivo de analisar o cenário do voluntariado no Brasil após na década do voluntariado.
A pesquisa no Brasil trouxe um olhar atualizado de como melhorar o reconhecimento, a facilitação, o trabalho em rede e a promoção do voluntariado. Também destinou-se a valorizar o papel das redes e dos centros de voluntariado para o desenvolvimento e melhor compreensão da importante ferramenta de transformação social e cidadania que é a ação voluntária. Mostra a universalidade, a abrangência e o escopo do voluntariado, bem como as novas tendências do século 21.

A comparação da pesquisa brasileira com a realizada pela ONU mostra que na maioria das sociedades, em todo o mundo, voluntários contribuem significativamente para o desenvolvimento econômico e social, em variadas áreas, tais como: sustentabilidade, inclusão social, coesão social, redução de riscos de desastres, governança e participação política para a paz e o desenvolvimento no futuro.

 

Se o voluntariado se tornasse uma nação:
1. China 1,306 milhões
2. Índia 1,094 milhões
3. Estados Unidos 296 milhões
4. Indonésia 229 milhões
5. Brasil 186 milhões
6. Paquistão 158 milhões
7. Bangladesh 144 milhões
8. Rússia 143 milhões
9. “Terra do Voluntário” 140 milhões
10. Nigeria 129 milhões
11. Japão 128 milhões
Fonte: Volunteering – Johns Hopkins Comparative Nonprofit Sector Project; População: Estados Unidos – Census Bureau

 

 




Números brasileiros

A pesquisa do voluntariado no Brasil, realizada pelo Ibope Inteligência, destaca que um em cada quatro brasileiros com mais de 16 anos, ou seja, cerca de 35 milhões de pessoas, faz ou já fez algum trabalho voluntário. Destes, 11% (15 milhões) exercem alguma atividade no momento, e 14% (20 milhões) não o fazem atualmente.

“Esta pesquisa nos mostra a evolução do movimento do voluntariado no Brasil”, afirma Maria Elena Pereira Johannpeter, presidente da Parceiros Voluntários (RS). “Há alguns anos, o voluntariado era visto como uma ação apenas de pessoas com boas condições financeiras. Atualmente, tanto no Brasil quanto no mundo, as ações voluntárias são entendidas como exercício da cidadania. São cidadãos preocupados com as necessidades de sua comunidade e que compreendem que é preciso haver a união entre governo, empresas e sociedade civil para a solução dos problemas sociais”, completa. Recentemente, têm surgido cada vez mais oportunidades para que as pessoas iniciem uma atividade voluntária, resultado de fatores como a globalização, o desenvolvimento de novas tecnologias e iniciativas associadas à responsabilidade social.

A pesquisa foi realizada em duas etapas. A primeira fase aconteceu em junho de 2011 para conhecer a participação da população em ações de voluntariado, assim como para contribuir com os critérios de seleção dos respondentes da etapa seguinte da pesquisa. Nesta etapa, 2 mil pessoas foram entrevistadas. A segunda fase foi realizada em novembro de 2011 apenas com voluntários que já realizam alguma ação (total de 1.550 pessoas). Destes que já realizam alguma ação de voluntariado, 53% são mulheres e 47% são homens, com média de 39 anos de idade.

Dentre os voluntários, 38% têm ensino médio completo ou superior incompleto, e outros 20% têm ensino superior completo. A pesquisa também aponta que, dos que exercem ou já exerceram ações voluntárias, 67% trabalham fora, sendo que, destes, 51% trabalham em tempo integral, e 16% em meio período.

De acordo com Maria Lucia Meirelles Reis, diretora do Centro de Voluntariado de São Paulo, “estes dados mostram que, além dos mais jovens e dos mais velhos, que costumam dispor de mais tempo para atividades de voluntariado, as pessoas mais ocupadas têm se destacado no voluntariado e enxergam cada vez mais os benefícios e a importância de doarem um pouco de seu tempo livre”.

Segundo a pesquisa, o serviço voluntário é exercido em média há 5 anos. Os mais jovens, de 16 a 29 anos, exercem o voluntariado há menos tempo (3,2 anos). Pessoas de 30 a 49 anos o fazem há mais tempo, em média 5,4 anos. Dos voluntários que atualmente exercem alguma atividade, 54% o fazem com uma frequência definida e 46% atuam sem frequência definida. Em média, os voluntários dedicam 4,6 horas mensais ao serviço voluntário.

A maioria dos voluntários (77%) declarou estar totalmente satisfeita com o serviço voluntário que faz, com destaque para os resultados dos voluntários com mais de 50 anos (83% totalmente satisfeitos) e das classes sociais D e E (86%). Em relação à motivação para o exercício do trabalho voluntário, 67% apontam que o fazem para “ser solidários e ajudar os outros”; 32%, para “fazer a diferença e melhorar o mundo”; e 32% por motivações religiosas. Dos voluntários entrevistados, 87% declararam que estão totalmente motivados a continuar a exercer o trabalho voluntário.

A pesquisa também mostra que os voluntários são conectados. Do total, 87% deles têm celular, 64% têm computador, 62% usam a internet e 53% usam as redes sociais. Do total, 2% declararam que realizam o serviço voluntário à distância. “É muito positivo que os voluntários sejam pessoas conectadas. O que temos assistido é que a capacidade de disseminação das informações de voluntariado, e também de mobilização pelas causas, têm se multiplicado exponencialmente por meio do uso das mídias sociais”, afirma Fernanda Bornhausen Sá, do Instituto Voluntários em Ação.

O voluntariado on-line, aquele feito pela internet, eliminou a característica anterior, daquele voluntariado ligado a horários e locais específicos. Isso aumenta a flexibilidade e o comprometimento dos voluntários. O compartilhamento de informações pelas redes sociais, como Twitter, Facebook e Orkut, ajudou as pessoas a se organizarem em questões variadas, do meio ambiente à democracia, especialmente no Oriente Médio. A internet facilita o voluntariado porque conecta os interesses das pessoas que querem atuar com as necessidades das instituições.

Voluntários pelo mundo

Estudos recentes sobre voluntariado envolvendo vários países, especialmente os desenvolvidos, deram base sólida para discussão sobre o tema. Por exemplo, uma pesquisa feita no Canadá em 2007, a 2007 Canada Survey of Giving, Volunteering and Participating, registrou 2,1 bilhões de horas de trabalho voluntário, com crescimento tanto no número de pessoas (5,7%) quanto no número de horas (4,2%) em relação a 2004.

Também em 2004, nos Estados Unidos, o Bureau of Labor Statistics, do Departamento do Trabalho, mostrou que 62,8 milhões de pessoas foram voluntárias em alguma organização pelo menos uma vez nos 12 meses anteriores à pesquisa. Na Austrália, o Bureau of Statistics descobriu que, em 2007, 5,2 bilhões de pessoas somaram 713 milhões de horas de trabalho, o que equivale a 14,6 bilhões de dólares australianos. O estudo mostrou que 34% da população adulta era voluntária (36% das mulheres e 32% dos homens).

A pesquisa mundial The World Values Survey demonstrou que os habitantes da Ásia Oriental são mais propensos a divulgar que fazem “trabalho voluntário não-remunerado”, seguidos das pessoas na África, América do Norte e da região do Pacífico. Os níveis mais baixos de trabalho voluntário foram encontrados na Europa Ocidental e Oriental.

O projeto comparativo do setor sem fins lucrativos da universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos, estima que, entre 1995 e 2000, os voluntários atuando em organizações em 36 países, somados, resultariam no nono maior país do mundo em termos de população. Nesses mesmos 36 países, os voluntários compuseram 44% da força de trabalho das organizações da sociedade civil, representando o equivalente a 20,8 milhões de pessoas trabalhando em período integral.

Ao transformar este trabalho voluntário em valores financeiros, de acordo com a Johns Hopkins, a contribuição econômica dos voluntários nesses 36 países seria de 400 bilhões de dólares anualmente. Isso representava, em média, 1,1% do PIB desses países. Porém, em países em desenvolvimento, o trabalho voluntário representava algo em torno de 0,7% do PIB.

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