A armadilha da “pilantropia”

Por: Nilton Antonio Tiellet Borges
01 Maio 2003 - 00h00
A discussão sobre a avaliação radical que o Estado faz das entidades filantrópicas, rotulando-as de “pilantrópicas” costuma deixar de lado a simples observação de que as entidades comprovadamente sérias sempre terão argumentos para reagir e assegurar sua característica institucional.

Por outro lado, fatos são fatos e esse rótulo que o Estado cismou de colocar nas entidades é muito sério. Tem tudo a ver com os tempos atuais, em que só se fala em corrupção. Aliás, essa palavra vem do latim corruptione, que significa “o ato ou efeito de corromper, decompor, perverter, desintegrar”, e a forma como o Estado utiliza o termo “pilantrópica” é altamente tendenciosa. E perigosa. Melhor seria dizer abertamente: corrupta.

Diante disso, resta às entidades filantrópicas proceder ao exame detalhado dos argumentos utilizados na avaliação feita pelo Estado, para que possam insurgir-se e reagir com firmeza, inclusive para assegurar sua própria sustentabilidade a médio e longo prazo. Nesse contexto, só sobreviverão as entidades que estiverem melhor preparadas, na ética e na transparência, desde que sincronizem suas atividades às novas dinâmicas em maturação na sociedade e/ou no mundo empresarial.

Só sobreviverão as entidades que estiverem melhor preparadas, na ética e na transparência, desde que sincronizem suas atividades às novas dinâmicas em maturação na sociedade e/ou no mundo empresarial.

Para fortalecer seus argumentos e manter sua característica institucional, as ações das entidades não lucrativas deverão estar fundamentadas em princípios éticos que expressem de forma clara e manifesta o compromisso e a responsabilidade social. Ficou no passado a época dos segredos. Agora, a transparência é a alma da ação social.

Nos contornos estreitos deste texto é impossível identificar quais os mecanismos de que dispõe a entidade para expressar e comprovar sua atuação social. Porém, a título de ilustração, é importante falar daquele que considero um dos mais importantes sinalizadores da organização institucional: o controle.

O controle é um mecanismo que está ao alcance de todas as entidades. Mas depende de (muito) empenho e comprometimento. Por isso, não é fácil. É necessário que toda a organização esteja envolvida na prática da responsabilidade social. Isso significa que todos devem conhecer profundamente os objetivos e finalidades da instituição, uma vez que o conhecimento gera sinergias, principalmente com o público de quem ela depende para o fortalecimento do seu desempenho. É necessário, ou melhor, indispensável encontrar uma forma racional e metódica no controle das ações benemerentes, pois elas são fenômenos de riqueza nas células sociais, formadas pelos mais carentes. Todavia, essa forma de controle supõe e inclui a compreensão da verdadeira abrangência dos controles internos (na entidade) e externos (fora da entidade) quando da sistematização da informação contábil.

Nesse ponto, o avanço tecnológico deve ser recebido e aproveitado como um aglutinador e simplificador dos controles internos, buscando otimizar as tarefas e evitar o (re) trabalho. Para algumas entidades, isso significa mudanças que dependem de conhecimento e ação coordenada. Mas isso é outra conversa.

Por enquanto, essas palavras devem servir apenas como alerta para que as entidades sem fins lucrativos não se deixem intimidar. Infelizmente, pelo que se vê, não basta ser uma entidade séria, é preciso provar a seriedade. E, desta forma, acabar de vez com esse perverso rótulo que lhes está sendo, insidiosa e injustamente, imposto.

“É indispensável encontrar uma forma racional e metódica no controle das ações benemerentes”

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