Interligando realidades e recursos em prol do social

Por: Thaís Iannarelli
26 Maio 2014 - 20h01

Leona Forman, fundadora da Brazil Foundation, fala sobre investimentos sociais em projetos brasileiros e mudanças na área da captação de recursos

Chinesa de origem judaica e naturalizada brasileira, Leona Forman chegou ao Brasil em 1953 e formou-se em jornalismo. Atuou como editora de notícias internacionais no O Globo e como repórter no Jornal do Brasil, assim como 20 anos na ONU, em Nova York, promovendo assuntos voltados para ONGs. Ao se aposentar, com o objetivo de reconstruir sua relação com o Brasil – como forma de retribuir as oportunidades de estudo e qualificação profissional que teve no país, criou a Brazil Foundation. A instituição tem o objetivo de apoiar o trabalho das ONGs brasileiras, criando relacionamentos entre brasileiros que vivem nos Estados Unidos e projetos sociais no país sul-americano. Dessa forma, a Brazil Foundation tornou-se um mecanismo confiável para essas pessoas que querem investir em projetos do seu próprio país, já que a instituição seleciona os projetos e oferece este serviço aos doadores.
Em entrevista à Revista Filantropia, Leona fala de sua experiência e de sua visão sobre a área de captação de recursos no Brasil.

Revista Filantropia: O que a levou a criar a Brazil Foundation? Como foi o início dos trabalhos?
Leona Forman: Não havia nenhuma instituição brasileira que tivesse como objetivo “gerar recursos para projetos sociais transformadores no Brasil”, trabalhando nas áreas de educação, saúde, direitos humanos, cidadania e cultura. Na verdade, as áreas são muito inclusivas e abrangem mulheres, crianças, idosos, pessoas com deficiência, meio ambiente e educação em todos os níveis. Demos total liberdade para as ONGs enviarem suas propostas, um diagnóstico do que podiam e deviam fazer dentro das comunidades onde estão situadas. Com os primeiros recursos captados, fizemos um edital de nível nacional – tínhamos US$ 30 mil naquela ocasião, e com isso poderíamos beneficiar três projetos – no Sul da Bahia, em Campinas e em São Paulo –, e ainda conseguimos apoiar um prêmio de incentivo na Baixada Fluminense. Acredito que todos os projetos sejam produtivos até hoje, com impacto cada vez maior. Tenho muito orgulho da nossa equipe de seleção situada no Rio de Janeiro, assim como da nossa metodologia de capacitação e monitoramento.

RF: Como você analisa o cenário da aplicação de recursos internacionais em projetos no Brasil hoje? Houve mudanças de 10 anos para cá?
LF: Sim. O Brasil ganhou a classificação de investment grade no Mercado Financeiro. Isso significa que, entre países emergentes, ele é recomendado pelos analistas financeiros e até lidera em termos de recebimento de investimentos financeiros. Com essa classificação, recursos de todo o mundo passaram a chegar, o que contribuiu com o crescimento da indústria e do mercado no país. Assim, fundações internacionais e agências de desenvolvimento passaram a ajudar países considerados mais pobres, ou seja, desviaram sua atenção para a África e países do Caribe. Muitas ONGs no país se sentiram abandonadas, e suas necessidades financeiras ficaram sem apoio. Fundações nacionais e institutos empresariais surgiram para suprir a lacuna, mas atendem geralmente comunidades no seu entorno e a metodologia de apoio é bem diferente. Parcerias com as ONGs ainda estão no seu estágio embrionário.

RF: Como você vê o cenário do Terceiro Setor no Brasil atualmente, se fosse fazer uma comparação com esta realidade nos Estados Unidos e na Europa?
LF: Acho que o cenário do Terceiro Setor tem um fator comum – a dificuldade de conseguir recursos para projetos realmente transformadores. Nos Estados Unidos, o setor tem quase um século de existência; no Brasil, começou a se desenvolver, passando da visão de caridade para investimento social depois de 1988. Temos muito pela frente. As ONGs europeias têm uma característica interessante: muitas vezes são parceiras do governo, isto é, são contratadas e financiadas para realizar projetos, e o governo depende delas para que sejam implementados. Parece um paradoxo, ver as ONGs monitorando projetos do governo, pagos pelo próprio governo! A transparência e o regulamento formal permitem isso.

RF: Quais são os principais passos que as organizações do Brasil ainda precisam tomar para tornarem-se mais profissionalizadas e sustentáveis?
LF: Tendo participado do primeiro Fórum Internacional de Filantropia Estratégica, senti que há muita seriedade por parte de pequenas e médias organizações da sociedade civil de seguirem preceitos como transparência, assim como a compreensão de que é necessário administrar o trabalho dentro de regulamentos de contabilidade, auditoria e leis para o setor. Senti muita energia na vontade de crescer e fazer cada vez mais e melhor. Percebi que elas têm vontade de se preparar para poder formalizar parcerias, seja com agências de governo ou com empresas. Senti o fascínio pela comunicação, tanto para poder trabalhar em rede e aumentar impacto, como para estarem bem informadas. Senti também o novo conceito e respeito pelo trabalho voluntário.

RF: O Brasil é um país muito grande. Como você analisa as diferenças de atuação entre as regiões, quando se trata de desenvolvimento social?
LF: O país realmente é abençoado nas suas dimensões e riqueza. Grande parte da população quer mais igualdade, mais justiça, mais oportunidades de progresso. Diferentemente de países mais desenvolvidos, temos energia e mais esperança entre aqueles que ainda precisam de apoio. Acredito que as regiões, por mais diferenciadas que sejam, aproximam-se com tecnologia e comunicação cada vez mais accessíveis. Acredito na vontade de agir, de participar, de fazer. Acredito nos nossos jovens, que precisam de todos nós para dar-lhes a chance. Acredito que com a mobilização de todos os setores da sociedade, vamos ter um Brasil melhor para todos.

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