“Há olhares que a gente não esquece”

Por: Maria Iannarelli
26 Março 2014 - 23h09

O motivo do encontro foi a celebração do aniversário de 16 anos do grupo de ajuda mútua a adictos da empresa, ação importante do Programa de Prevenção e Tratamento em Dependência Química. No evento estavam presentes pessoas comprometidas com a recuperação e a possibilidade de transformação individual e coletiva, assim como recuperandos, empregados e ex-empregados, participantes do grupo e seus familiares. Profissionais que participaram da construção do Programa, outros que se empenharam em garantir sua continuidade e aqueles que, como eu, já não faziam mais parte do quadro de empregados da empresa, mas tinham um vínculo afetivo por ter participado da construção de história tão marcante e positiva.
Como convidada para palestrar, optei pela condução da “conversa”, compartilhando e agregando a fala dos atores e protagonistas do processo. Começamos com a frase de Adélia Prado: “O que a alma guardou fica eterno”. Muitas lembranças guardadas na mente e na alma de cada um. E a pergunta: “É possível transformar e ressignificar as histórias de vida no ambiente de trabalho? Claro que as pedras da trajetória são inevitáveis. Mas fica a pergunta no ar.
Ações corporativas x dependência química
Falando sobre a evolução dos Programas de Prevenção e Atendimento em Dependência Química nas organizações, apresentamos três quadros traçando uma linha do tempo/ações corporativas x situação das adicções e drogas. Não se trata de um estudo aprofundado, baseado em diversos autores, mas simplesmente na nossa prática profissional ao longo desses anos.
Nas décadas de 1970/1980, a droga marcante era o álcool, e o conceito de saúde era limitado ao bem-estar físico. O atendimento individualizado trazia a ideia do bode expiatório que o alcoolista tinha como destino. As equipes multidisciplinares, atuando no sintoma, e não na causa, traziam também o enfoque empresarial na punição/demissão, embora a codependência mascarasse muitos casos, especialmente quando se tratava de cargos da alta hierarquia.
Nas décadas de 1980/1990, o álcool continuou como ator importantíssimo, porém, aliado a drogas lícitas e ilícitas, devidamente identificadas. A Aids vem com toda sua carga de mortalidade e dúvidas, e põe em cheque as formas de lidar com muitos padrões de comportamento da sociedade. Inicialmente tida como a “peste gay”, logo se verificou que o uso compartilhado de drogas ilícitas era um dos responsáveis pelo contágio, e que a doença atingia todas as orientações sexuais. Mas o medo, aliado ao preconceito, trouxe muita infelicidade.
A dependência e a codependência continuavam juntas e misturadas. Novas respostas para novas demandas eram necessárias. O álcool se mantinha na dianteira, e o conceito de saúde pensando em bem-estar físico e mental existia, assim como a tentativa de envolver as chefias, famílias e equipes multidisciplinares para estabelecer caminhos. O sintoma continuava a ser tratado.
As empresas sinalizam seu papel social, avaliando o custo/benefício da demissão (qual é a garantia de não contratar um novo dependente químico?) e as parcerias com as comunidades e clínicas para tratamento da dependência química.
Nas décadas de 1990/2000, o crack surge com uso e abuso intensificado, tornando-se uma verdadeira pandemia. Cabe aqui a discussão: existe somente uma forma de atendimento e resultado? A abstinência é a única alternativa? Como vemos a redução de danos?
Vemos uma maior participação da rede social e familiar de apoio ao dependente químico, trabalhando com a visão sistêmica e dos ganhos secundários dos envolvidos: sejam familiares, chefias, o próprio dependente químico e o profissional responsável pelo atendimento. Muitas verdades absolutas sendo questionadas e, novamente, para novas demandas, tentativas de novas respostas.
As empresas, com a implementação de Programas de Qualidade de Vida e Responsabilidade Social, passam a utilizar como indicador de resultado os êxitos no atendimento à saúde, incluindo a dependência química.
Novas situações transformam as cidades e modos de convivência. Em São Paulo, a cracolândia e a população em situação de rua demandam respostas e ações que não conseguem absorver todas as necessidades. Torna-se mais forte a necessidade das organizações preservarem as pessoas, mantendo programas de prevenção e atendimento com regras claras, pois sabemos que o trabalho é um dos últimos lugares preservados pelos adictos.
Cabe aqui falar sobre a Saúde Mental, incluindo a dependência química neste âmbito, juntamente com os atuais males da modernidade, interligados e sujeitos a novos estudos na relação entre a prevalência de diagnósticos como depressão, transtornos e compulsões diversas.
Será inevitável o atendimento com uma visão holística, quebrando paradigmas, inclusive em relação aos limites de atendimento no mundo corporativo. Equipes transdisciplinares serão a resposta, num exercício de troca, mistura de bagagem de cada especialista.
A palavra-chave, em minha opinião, é resiliência: empresas garantidas como espaço preservado, porque a pessoa que está sendo acompanhada e tratada por Programas de Prevenção nas empresas, se recuperada, será um elemento forte para preservar os valores da organização. Uma empresa resiliente é composta por grupos resilientes. E grupos assim tendem a fazer comunidades mais resilientes.
A resiliência pode ser aplicada a vários fenômenos e ser objeto de estudo para programas de qualidade de vida. A dependência química, a codependência, transtornos diversos e relacionamentos abusivos podem e devem ser vistos de maneira integrada e sistêmica. A rede social de apoio, a participação ativa da chefia e o olhar ampliado de todos os participantes do processo de transformação podem e farão a diferença.

A essência do processo de transformação

Nesta vivência que compartilhei, os momentos marcantes ficaram por conta da esposa de um recuperando, que já estava em recuperação de sua codependência cinco anos antes de o marido se recuperar, e isso já aconteceu há 17 anos; da chefia envolvida no processo de recuperação do seu funcionário e de como isso o tornou uma pessoa melhor; da profissional responsável pelo acompanhamento no Programa, que se sentiu “oxigenada” com a celebração do seu trabalho permanente e, finalmente, a fala marcante e profunda de um recuperando. Ele colocou toda sua humanidade, seus fracassos e falhas e sua capacidade de transformação. E a lembrança de todos os que escreveram esta história. 

Evolução dos programas de prevenção/atendimento em dependência química nas organizações

Décadas de 1970 – 1980

Droga: Álcool
Saúde: limitado ao bem-estar físico
Atendimento: Individualizado/ Teoria do Bode Expiatório / Equipes Multidisciplinares/ Cada um com sua “maleta de Especialista” / Sintoma
Empresas: enfoque na punição / demissão

Décadas de 1980 – 1990

Droga: Álcool + Lícitas e Ilícitas. (Aids)
Saúde: Ampliação: Bem-estar físico e mental.
Atendimento: Início do envolvimento de Chefias, Família e Saber Técnico Compartilhado / Teoria do Bode Expiatório questionada, Equipes Multidisciplinares / Definição de Limites / Cada um com sua “maleta de Especialista” / Sintoma
Empresas: Enfoque na avaliação custo/benefício da punição / demissão/ Parcerias para tratamentos clínicos

Décadas de 1990 – 2000

Droga: Álcool + Lícitas e Ilícitas – Crack – Uso e Abuso Intensificado – Pandemia; Abstinência ou Redução de Danos?
Saúde: Conceito OMS: “situação de perfeito bem-estar físico, mental e social” da pessoa. Conceitos Ampliados: Espiritualidade e família
Atendimento: Maior participação da rede social e familia de apoio ao dep. químico / visão sistêmica, Avaliação dos Ganhos Secundários dos Envolvidos, Equipes Multi-Interdisciplinares / Exercício de Troca de Bagagem / Especialista / Sintoma x Causa.
Empresas: Programas de Qualidade de Vida e Responsabilidade Social: Investimento no Talento Local x Desligamento.

Tendências Séc. 21

Droga: Lícita/Ilícita/ Saúde Pública – Outras Compulsões: Garantias de Alívio Instântaneo / Banalização da vida e dos relacionamentos.
Saúde: Questionamentos OMS: Dependência ‘Química no âmbito da Saúde Mental – Combate aos Males da Modernidade Interligados: Depressão, TOC, Transtornos e compulsões diversas. Resiliência.
Atendimento: Visão Holística, quebra de paradigmas: saber acadêmico x sabedoria da vida. Modelos Alternativos.
Equipes Multi-interdisciplinares, Transdisciplinares Exercício de Troca / Mistura de Bagagem / Especialista / Sintoma x Causa, Saída da zona de conforto.
Empresas: Programas QVT, Responsabilidade Social: Espaço Preservado x Populações Vulneráveis: Empoderamento e emancipação. Grupos resilientes formam empresas resilientes.

Resiliência Psicológica

Capacidade de superar as adversidades da vida e voltar ao estado anterior de equilíbrio depois de passar por dificuldades, transformando experiências negativas em aprendizado e oportunidade de crescimento.
Atitude
Pessoas resilientes assumem a responsabilidade pelo que acontece consigo, sem vitimização.
Projeto de Vida
Pessoas resilientes superam melhor o sofrimento porque encontram um sentido maior para a vida.
Autoconsciência
Pessoas resilientes compreendem os próprios sentimentos, conhecem suas forças e limitações.

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