Obama, Crise e Sustentabilidade Empresarial

Por: Eduardo Magalhaes
01 Janeiro 2009 - 00h00

 

Abusca do lucro a qualquer custo e em curto prazo, somada ao desenfreamento consumista, é uma das causas, senão a principal, das atuais crises financeira e ambiental.

A venda e o financiamento sem critérios rigorosos nos Estados Unidos criaram a situação de inadimplência generalizada que derrubou as empresas imobiliárias e bancárias, provocando efeito dominó em toda a economia norte-americana, inclusive com fortes impactos em todo o planeta.

Esse comportamento do lucro fácil e irresponsável também gera o desastre ambiental, cuja intensidade e seriedade já estão razoavelmente difundidas. É importante ressaltar que crises econômicas, por piores que sejam, teoricamente podem ser contornadas. As ambientais, dependendo do seu estágio, são irreversíveis.

Demonstra-nos a realidade que uma postura descontrolada e desregulamentada por parte do mundo empresarial está levando a sociedade ao caos ambiental, social e econômico. Com ênfase no econômico: o comportamento que aparentemente era lucrativo em curto prazo evidenciou-se economicamente catastrófico, vide as concordatas de grupos extremamente poderosos e falências evitadas somente com bilhões de dólares do Estado. O lucro virou prejuízo; a ilusão de solidez desmanchou-se no ar.

Assim, faz-se urgente a execução de um novo sistema, um sistema sustentável. Essa é a idéia da responsabilidade socioambiental corporativa (RSC). Sem rodeios: ou o empreendedorismo predatório tem o seu fim posto ou o nosso fim será posto por ele.

As corporações devem entender que somente uma estratégia baseada em respeito ambiental e inclusão social de todos os stakeholders pode levar ao lucro e à existência no longo prazo

A possibilidade de um novo ciclo com Obama

Barack Obama, novo presidente dos Estados Unidos, traz uma esperança de mudança a um padrão de conciliação entre os três aspectos da sustentabilidade, na medida em que chefiará a nação-referência do comportamento empresarial mundial. Os Estados Unidos, com seu poder de articulação, podem priorizar o tema da sustentabilidade na agenda internacional da mesma forma que “os Bush, pai e filho”, priorizaram a intolerância, a guerra e o padrão de desenvolvimento econômico proveniente da Revolução Industrial e do financismo, há muito já esgotados.

Se desejarem, os Estados Unidos podem liderar o grupo de 30 países centrais e semiperiféricos que, juntos, são responsáveis por 80% das emissões dos gases do efeito estufa, ou prosseguir na prática e difusão do insustentável “American way of life”.

As declarações já feitas por Barack Obama de retirada das tropas do Iraque, estabelecimento de diálogo com Cuba em relação ao bloqueio econômico e incentivo às energias renováveis para a criação de empregos nos levam a deduzir o estabelecimento de uma nova filosofia internacional.

A crise pode relegar a responsabilidade social corporativa a segundo plano?

Em primeiro lugar, é importante salientar que a RSC ainda não é a marca do empresariado em nenhum lugar do mundo. As organizações, cujo vértice é a sustentabilidade, são minoria, apesar de a tendência ser o aumento dessa conscientização.

Mesmo assim, há o temor de que a atual crise financeira possa provocar um recrudescimento da importância da RSC por parte do empresariado. Se isso ocorrer, será um grande erro, pois a crise financeira é justamente o reflexo desse comportamento irresponsável. Sendo assim, cada vez mais o modelo da RSC torna-se vital para o desenvolvimento, e até mesmo para a sobrevivência das empresas. As corporações devem entender que somente uma estratégia baseada no respeito ambiental e na inclusão social de todos os stakeholders pode levar ao lucro e à existência em longo prazo.

Segundo Aron Cramer, presidente da Business Social Responsibility, na crise, o primeiro motivo para a mudança é a própria crise, pois a confiança das empresas diminui e é muito ruim para qualquer negócio ter a sua imagem prejudicada.

Ainda como justificativa para a adoção da RSC, temos a chamada economia verde, que representa um novíssimo “filão” no mundo dos negócios: energias renováveis, mercado de crédito de carbono, reciclagem, ecoeficiência, consumo de água e commodities são algumas das principais áreas desse promissor setor.

Outra indicação de futuro da RSC para os empresários está nos dados divulgados pelo Programa de Meio Ambiente das Nações Unidas, que prevê a geração de pelo menos 20 milhões de “empregos verdes” até 2030. Serão vagas para designers, engenheiros, arquitetos, pesquisadores, agricultores, auditores e todas as outras profissões necessárias para uma economia de baixo carbono.

Para os empreendedores iniciantes no exercício da sustentabilidade em seus respectivos negócios, em um primeiro momento, as empresas podem ganhar com a eficiência energética, economizando recursos em suas operações produtivas e administrativas. Esse pode ser o primeiro passo para que a corporação se conscientize da importância da responsabilidade ambiental.

A responsabilidade social, por exemplo, está no fato de a organização criar ambientes externo e interno mais propícios ao seu negócio por meio da educação. Funcionários com baixa escolaridade não são sinônimo de produtividade e eficiência, pois isso não acarreta satisfação para os próprios empregados e suas famílias. Da mesma forma, baixos salários, condições de trabalho sem saúde e segurança e uma comunidade do entorno mergulhada na miséria criam um ambiente totalmente antilucrativo. Parecem obviedades, e o são, mas infelizmente ainda não constituem modelos de atuação para a maioria das corporações.

Oportunidade para a ampliação da sustentabilidade

Um dos mais importantes pensadores italianos, Antonio Gramsci, disse que a crise ocorre quando o velho já morreu e o novo ainda não conseguiu nascer. É exatamente o que vivemos hoje. A matriz de produção e a gestão hegemônica não servem mais para a continuidade da humanidade, e o novo marco da tríplice responsabilidade ambiental, social e econômica ainda não conseguiu tornar-se dominante.

Segundo o CEO da General Electric, Jeffrey Immelt, a crise econômica reorganizará, em curto prazo, as noções de poder e riqueza dos países. Para ele, quem não entender o atual momento de reorganização “emocional, social e econômica” terá graves dificuldades com seus negócios no futuro. Conforme o executivo, a lucratividade e a competitividade são uma “dedicação em longo prazo” em que “o passo número um é a lucratividade”, com uma estratégia cuja responsabilidade social “não é um tema para ser discutido nos quinze minutos do fim do dia”.

O momento de crise coloca à prova a capacidade de toda a sociedade – cidadãos, governos e, em especial, as lideranças empresariais – de conseguir efetivar essa transição. Com o objetivo de contribuir com essa meta, temos o dever de buscar, em nossos respectivos campos de atuação, a prática correta entre produção material, gestão das relações, saúde e qualidade de vida.

As corporações devem usar a criatividade, copiando e melhorando os bons exemplos existentes em todos os níveis, no Brasil e no mundo. Basta querer.

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