Atuante, porém pragmático, Terceiro Setor segue recuperando a confiança dos brasileiros

Por: Luciano Guimarães
25 Agosto 2022 - 00h00

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O aumento das vulnerabilidades sociais decorrentes da pandemia da COVID-19, disseminada no Brasil a partir de fevereiro de 2020, deu mais notoriedade às ações promovidas pelas organizações sem fins lucrativos, evidenciando a importância dos serviços ofertados à população.

A crise sanitária, especialmente em seu período mais grave, acabou mudando o rumo do jogo, uma vez que o ecossistema do Terceiro Setor vinha, pelo menos na última década, perdendo receitas oriundas de doações em função da queda gradual da renda das pessoas e do aumento do desemprego e da informalidade.

Da mesma forma, as instituições também sofreram perdas por causa da desconfiança de determinadas parcelas da sociedade, situação agravada nos dois anos anteriores ao início da pandemia pela disseminação de falsas narrativas sobre a idoneidade do trabalho das organizações da sociedade civil (OSCs).

Pesquisa inédita encomendada pelo Grupo de Institutos, Fundações e Empresas (Gife), em parceria e com o apoio do Instituto ACP, da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza, do Instituto Natura, da Fundação Telefônica Vivo e da Fundação Tide Setubal, revela que, mesmo desconhecendo especificidades do Terceiro Setor — e desmentindo as fake news espalhadas pela internet —, a população tem uma avaliação positiva das organizações que nele atuam.

O levantamento “Percepção de brasileiros/as sobre a sociedade civil” revela que mais da metade dos 2.002 entrevistados vê positivamente a atuação dessas instituições. Deles, 21% atribuem tal visão ao fato de conhecerem bem o trabalho feito pelas entidades; 19%, ao fato de verem depoimentos de pessoas que foram apoiadas por elas; e 16%, ao fato de confiarem na integridade de quem faz parte de uma organização da sociedade civil.

“A pesquisa confirma que há um amplo reconhecimento do valor agregado pelas OSCs. Isso facilita o desenvolvimento desse setor tão importante para a democracia brasileira”, afirma o secretário-geral do Gife, Cassio França.

Aplicado pela Inteligência em Pesquisa e Consultoria (Ipec) e coordenado pela consultoria Conhecimento Social, o levantamento analisou com que frequência o entrevistado participa de organizações sociais, realiza ações de voluntariado, procura se manter informado sobre movimentos sociais e conversa com outras pessoas sobre projetos sociais que visam ao bem coletivo.

Para 46% dos entrevistados, as organizações do Terceiro Setor assumem trabalhos que deveriam, na prática, ser de responsabilidade do poder público. A pesquisa também revelou que as fontes de recursos das OSCs, a relação delas com o Estado, o foco das atividades e o formato de atuação não estão claros para a maioria da população. Por consequência, limitam-se o potencial de participação e o engajamento social.

“Embora os resultados sinalizem o reconhecimento da prática do Terceiro Setor, também fica evidente que é necessário aperfeiçoar a forma como esse setor se comunica com a sociedade. Relações ainda mais transparentes explicitando as fontes de recursos e as responsabilidades nas parcerias com o setor público são temas que devem permanecer na agenda do Terceiro Setor”, argumenta França.

A pesquisa confirma ainda a existência de forte associação do nível de escolaridade e da renda com o “interesse” por iniciativas no campo social. O público mais vulnerável, ou seja, de baixas escolaridade e renda familiar — especialmente jovens e mulheres — mostra níveis de desconhecimento maiores sobre o assunto, ainda que na maioria dos casos sejam esses os principais públicos para os quais essas organizações trabalham.

Segundo a pesquisadora Ana Lúcia Lima, responsável pela análise dos dados do levantamento, o interesse pela temática é mais alto entre pessoas mais escolarizadas, com mais idade e maior nível de renda, como também entre residentes das Regiões Sudeste e Sul. “Entre as áreas apontadas como prioritárias para a atuação do Terceiro Setor, combate à fome, saúde e educação se sobressaem”, completa.

Uma das apoiadoras da pesquisa coordenada pelo Gife, a Fundação Telefônica Vivo admite que mesmo antes da pandemia pesquisas já mostravam que os brasileiros acreditam no impacto positivo das organizações sociais como um todo.

“Após a pandemia, no entanto, as pessoas passaram a ter mais confiança neste trabalho, especialmente em função dos resultados apresentados. Esta relevância foi conquistada porque o Terceiro Setor foi fundamental para apoiar a sociedade nos momentos mais críticos da pandemia com as mais diversas iniciativas”, posiciona-se o braço filantrópico da multinacional de telecomunicações.

Confiança

Reconhecidamente essenciais durante a pandemia — e também após a retomada das atividades econômicas —, as organizações sem fins lucrativos estão tendo um papel ativo no combate aos efeitos da crise sanitária. E, com isso, elevaram o nível de confiança da sociedade nas OSCs.

“Seja nacionalmente, com redes como Ação da Cidadania, Central Única das Favelas (Cufa) e Movimento UniãoBR, ou localmente, com as instituições dentro da comunidade, elas muitas vezes foram as únicas que realmente estavam próximas das pessoas, e isso fez a diferença”, atesta o diretor-executivo da Associação Brasileira de Captadores de Recursos (ABCR), João Paulo Vergueiro.

O gestor avalia que a crise humanitária de grandes proporções gerada pela COVID-19 sensibilizou as pessoas levando-as a doar, o que foi claramente visto no dia a dia e medido pelo tamanho da generosidade brasileira. “De forma geral, os brasileiros já são solidários, pois ajudam vizinhos, família, igrejas, bairros, e nem sempre a gente consegue ver isso. Com a pandemia e ferramentas como o Monitor das Doações COVID-19, foi possível ter ideia sobre o que significa o tamanho dessa solidariedade no país”, salienta.

Para ele, nos próximos anos, as pessoas seguirão não apenas doando, mas também fazendo isso de forma recorrente para as causas em que acreditam e que apoiam. “Embora sejamos solidários, nem sempre essa solidariedade se manifesta em doações mensais, de dinheiro, para as organizações. E essa é a doação que mais faz diferença, por permitir à instituição investir o recurso naquilo que ela mais precisa, dentro da sua prioridade”, comenta Vergueiro.

A confiança da sociedade no trabalho das OSCs é um dos pilares do Terceiro Setor em todo o mundo, incluindo o Brasil, onde as organizações têm atuação nacional e são, muitas vezes, as únicas alternativas de ajuda para os mais carentes.

“Acreditamos que as pessoas, inclusive os mais jovens, estão cada vez mais engajados com as causas sociais e mais críticos também em relação às organizações sociais”, pondera a presidente da Federação das Apaes do Estado de São Paulo (Feapaes-SP), Vera Lucia Ferreira.

A dirigente entende, com isso, que para o Terceiro Setor atingir e aumentar o número de doadores/voluntários é preciso transparência, mostrar o impacto dos serviços prestados, como são executados e aplicados os recursos em benefício de quem necessita.

Pesquisa

Aplicada de forma online e anualmente, a pesquisa Edelman Trust Barometer 2022 revela que o Terceiro Setor, durante a pandemia, elevou seu nível de confiança, na visão da sociedade, em tópicos como ética e competência, quando os respondentes foram apresentados à afirmação de que “ONG e empresas devem atuar como forças estabilizadoras”.

Em sua 22ª edição, a sondagem global ouviu em torno de 36 mil pessoas em 28 países, entre os dias 1º e 24 de novembro de 2021. Aqui, foram coletados dados de 1.150 brasileiros, que percebem as organizações mais éticas e competentes no desempenho de suas atividades em comparação à pesquisa do ano anterior.

De modo geral, as OSCs são vistas, no Brasil, como competentes e como agentes eficazes de mudanças positivas. De acordo com a pesquisa, enquanto globalmente a média de confiança nesse quesito bateu em 30 pontos, aqui ficou em apenas 23.

O levantamento da Edelman mostra ainda que a confiança nas OSCs subiu em 16 dos 27 países onde essa questão foi aplicada. Surpreendentemente, enquanto o índice de confiança das ONG no Brasil ficou ligeiramente acima da média mundial (59 pontos), subindo de 56 para 60 pontos, Holanda, Coreia do Sul e Estados Unidos entraram na faixa da desconfiança, com 49, 48 e 45 pontos, respectivamente. No topo do ranking, situa-se a Índia, com 79 pontos.

Conforme a sondagem, a qualidade da informação agora é a mais potente geradora de confiança em todas as instituições. Para tanto, o ganho potencial de confiança está associado com fazer bem cada ação, sendo os itens mais bem pontuados na visão dos entrevistados: qualidade da informação; exercício efetivo de seu poder; trabalho com outras instituições e organizações; e papel de liderança e gerenciamento de mudanças.

Evidentemente, durante a pandemia, com o objetivo de elevar os índices de confiança da sociedade, que havia anos vinham se deteriorando, as ONGs com trabalhos estabelecidos territorialmente precisaram articular suas bases e lideranças sociais locais para validar demandas urgentes e se antecipar às novas necessidades que surgiram nesse período.

“Em pouco tempo, configurou-se o cenário de uma sociedade altamente vulnerável, interligada e interdependente, que então precisava de ajuda. Quando a sociedade civil compreendeu o cenário e observou que todos nós estávamos na mesma condição, e que não importava se você tivesse ou não recursos, fosse preto ou branco, pós-graduado ou analfabeto, um grande sentimento de solidariedade e empatia espalhou-se pelo país”, analisa a diretora-executiva do Movimento Bem Maior, Carola Monteiro de Barros Matarazzo.

A gestora crê que o reflexo desse processo foi percebido no aumento do volume de doações e na mobilização de pessoas e organizações sociais em prol das populações mais vulneráveis. “Enfim, todo mundo é igual, não importa onde você vive, onde você mora, todos têm o mesmo risco, mas, obviamente, as populações periféricas e à margem da sociedade, com questões de sobrevivência maiores, sentiram profundamente os efeitos da pandemia”, complementa.

Para elevar ainda mais a confiança no trabalho desempenhado pelas organizações sem fins lucrativos, Carlota entende que os gestores do Terceiro Setor devem atuar para reciclar a qualidade das informações e obter disponibilidade da mídia para apoiar e comunicar a informação, de forma bem clara e transparente, dos resultados das ações executadas.

“Uma situação que levou à solidariedade, e que ninguém tinha observado, é que no período pandêmico 51% da população não tinha água para lavar as mãos, uma das circunstâncias em que a realidade ficou escancarada sobre essas questões, com base em necessidades de recursos e infraestrutura. A credibilidade se faz com as evidências de resultados e transparência de ações”, exemplifica.

Para a diretora-executiva do Movimento Bem Maior, o medo levou a sociedade civil à solidariedade, e foram articuladas mobilizações recordes com captação de recursos. “A confiança na filantropia aumentou após essas mobilizações, deixando muito evidentes o protagonismo e o poder de articulação da sociedade civil, seja na captação ou na gestão de recursos, por meio das ações sociais e dos movimentos sociais e coletivos”, pondera.

Cultura de doação

Intimamente ligada ao maior nível de confiança das pessoas nas ONGs, a chamada "cultura de doação" ainda precisa evoluir no Brasil. Nela, uma parte mínima da renda fica reservada para apoiar causas com as quais o doador se identifica e nas quais deseja fazer a diferença.

O estímulo à cultura de doação passa também por iniciativas bem abrangentes, como o selo de certificação da plataforma ParaQuemDoar, da Rede Globo, que conecta pessoas com o desejo de ajudar o próximo a iniciativas de impacto em todas as regiões do Brasil, em diversas áreas de atuação.

Recentemente, o Instituto Horas da Vida, sediado na capital paulista, recebeu esse selo, que visa fortalecer a cultura de doação no país e, por meio de uma rede de curadores, acompanhar a aplicação desses recursos em benefício da sociedade.

“Podemos ver, assim, que o maior veículo de comunicação brasileiro também identificou uma demanda reprimida de brasileiros que desejam fazer doação”, afirma o CEO da Filóo Saúde e fundador da organização sem fins lucrativos, Rubem Ariano.

Por outro lado, frisa o gerente de parcerias corporativas do Hospital de Amor, sediado em Barretos (SP), Cleber de Moura Delalibera, “é natural que as famílias que sofreram muito com a queda de renda durante ou após a pandemia interrompam ou reduzam os valores direcionados a uma organização. Mas o importante é manter acesa a chama da doação”, argumenta.

O gestor defende que qualquer que seja o valor, a relação com o doador deve ser permanente e transparente, com prestação de contas, informação de fatos e dados, além de mostrar os impactos das doações para quem as recebe, pois essas atitudes motivam o retorno dos apoios.

“O brasileiro é solidário, mas quando falamos de doação de recursos, existe sim alguma desconfiança, justamente por não termos uma ‘cultura de doação’ desde a infância. Há também uma ausência grande de algumas camadas da sociedade nessa participação frequente e mensal fora dos incentivos fiscais. As organizações precisam aproximar-se da sociedade e dialogar com ela para que isso evolua”, enfatiza o gestor.

De acordo com ele, o fato de sua instituição ser da área da saúde possibilitou que ela recebesse mais atenção das pessoas. “Embora isso tenho colaborado para a melhora de alguns segmentos de doação, o desafio também cresceu, e precisamos ainda alcançar doadores e doações para seguir atendendo e salvando quem não tem acesso a planos de saúde. O câncer não descansa, e nós também não”, complementa Delalibera.

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