Não cometa os mesmos erros

Por: Fábio Rocha
01 Março 2007 - 00h00

Entendida, em termos mais gerais, como uma nova postura de gestão das empresas que procuram responder às demandas da sociedade sobre seu negócio, compatibilizando-as com a busca do lucro, a responsabilidade social empresarial (RSE) tornou-se praticamente uma demanda das instituições que buscam sobreviver, crescer e perpetuar-se em um mercado globalizado.

Assim, a RSE é cada vez mais vista como uma prática que está obrigando as empresas a repensarem seu papel e a forma de conduzir seus negócios, envolvendo uma atitude socialmente responsável e ética em todas as relações, sejam com a comunidade, os trabalhadores, fornecedores, clientes, governo e meio ambiente.

Se no Brasil a principal entidade de promoção da responsabilidade social, que é o Instituto Ethos, orgulha-se de que seus 1.200 associados representem 35% do PIB brasileiro, segundo o próprio Ethos; nos Estados Unidos, cerca de US$ 11 bilhões são destinados a causas que nada têm a ver com os negócios das corporações, postura que, à primeira vista, não vai agregar um centavo sequer aos lucros das empresas, mas, na verdade, responde à nova orientação perseguida pelas empresas1.

Assim, acredita-se atualmente que serviços e produtos de qualidade, preços em níveis internacionais e marketing inteligente deixaram de ser diferenciais competitivos mais decisivos para o sucesso das empresas. É necessário que possuam todas essas características e que ainda tenham uma boa relação com os stakeholders, que façam com que os consumidores identifiquem-se com sua marca e que os empregados tenham satisfação em trabalhar no seu negócio.

Credibilidade

Conforme dados do Business for Social Responsibility (BSR) e do Corporate Social Responsibility (CSR-Europe) – espécie de Instituto Ethos americano e europeu, respectivamente –, de um lado, cerca de 50% dos consumidores nos Estados Unidos e na Europa pagariam mais por produtos de indústrias socialmente responsáveis, e 70% não comprariam, mesmo com descontos, produtos que fossem fabricados por empresas não-preocupadas com as questões éticas. De outra parte, profissionais mais qualificados preferem trabalhar em organizações que respeitam os direitos, a segurança e a qualidade de vida dos funcionários, segundo pesquisas sobre os Estados Unidos.

A responsabilidade social, portanto, veio para ficar, inclusive no Brasil, onde praticamente 6 em cada 10 empresas envolvem-se voluntariamente em ações sociais, segundo pesquisas recentes do Instituto de Pesquisa e Econômica Aplicada (Ipea). Em tese, a gestão da responsabilidade seria algo simples, na qual as empresas buscariam apoiar ou identificar a sua atuação com compromissos sociais e ambientais de relevância para o seu contexto de atuação, destacando-se como uma empresa cidadã.

A busca desesperada das empresas pelo selo de empresa cidadã tem as levado a equívocos tão significativos que a própria não-adoção de práticas de responsabilidade social empresarial. Quando estas empresas fazem parte de setores de altíssima competitividade, isto se agrava, pois seus concorrentes já realizam ações sociais e, assim, elas não podem esperar muito tempo para atingir o título de uma empresa socialmente responsável.

Insistindo nos erros

Esta ansiedade frenética leva as empresas e seus gestores a cometerem alguns erros ou deslizes na implantação de programas de responsabilidade social empresarial. O mais interessante é que os erros são geralmente os mesmos, variando em intensidade, dimensão e conseqüência.

Segue abaixo, então, alguns dos erros mais comumente encontrados, de uma maneira geral, em empresas de todo o Brasil. São eles:

Iniciar o programa sem ter clareza dos conceitos de responsabilidade social empresarial, como também dos conceitos existentes na empresa;

Estabelecer uma única pessoa e/ou área como responsável pela implantação do programa de RSE;

Não realizar uma ação de sensibilização e/ou capacitação da diretoria e principais gestores, antes de se definir pela implantação ou não do programa;

Realizar a concepção do plano de ação para implantação do programa de responsabilidade social de maneira pouco participativa ou envolvendo uma única área;

Não formalizar um grupo de trabalho e/ou comissão responsável pelo tema e/ou programa, inclusive descentralizando estes grupos para todas as regiões de atuação, cidades e/ou unidades
de negócios;

Não realizar uma ação de conhecimento e análise dos trabalhos já realizados por concorrentes e/ou empresas semelhantes, como também do poder público e organizações não-governamentais nas ações de caráter externo;

Dar um peso muito significativo ou até exclusivo a apenas um dos temas da agenda de responsabilidade social empresarial (valores/transparência, público interno, fornecedores, meio ambiente, consumidores/cliente, comunidade, e governo/sociedade), geralmente o tema comunidade;

Realizar ações extremamente contraditórias e que geram total falta de credibilidade no programa. Como, por exemplo, apoiar projetos ambientais e não ter nenhum tipo de sistema de monitoramento do impacto de suas atividades no meio ambiente;

Não realizar nenhum tipo de diagnóstico (a partir de indicadores) da situação da empresa em relação à responsabilidade social empresarial, como também estabelecer metas para implantação do programa.

Outros erros têm sido cometidos com freqüência, mas o que mais preocupa são as seqüelas destes erros para a imagem da empresa, como também para o movimento de responsabilidade social empresarial. A saída é conhecer estes erros, para pelo menos cometer outros e não aqueles já conhecidos pelos especialistas em responsabilidade social empresarial.

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