Captador de recursos

Por: Renata Brunetti
01 Maio 2004 - 00h00

“Os movimentos constantes e agitados da sociedade contemporânea na busca por melhores resultados e maior eficiência não têm oferecido sentido para a vida de muitos. Há um apelo social pela democracia, pela cidadania, por melhor qualidade de vida. Talvez tenha sido a escuta cada vez mais forte desse apelo que tenha me mobilizado para a pesquisa que resultou em dissertação de mestrado.

O fato de notar a simpatia de algumas pessoas por causas sociais motivou-me inicialmente a estudar as relações entre indivíduo e sociedade de modo geral. Tal simpatia apareceu mais claramente no trabalho que venho desempenhando no Terceiro Setor, especificamente na área de mobilização de recursos em diversas frentes.

Trabalho há mais de sete anos com desenvolvimento de projetos para instituições sem fins lucrativos. Tenho tido a oportunidade de promover um pouco a esperança de uma sociedade mais justa também em outros programas como instrutora de cursos de formação de novos captadores de recursos.

A partir dessa experiência, me pergunto: se existe interesse por parte da comunidade em colaborar com projetos sociais que visem a transformação do atual quadro social e se o Terceiro Setor já está se profissionalizando e pode, assim, começar a gerar resultados sobre investimentos sociais, o que ainda dificulta a concretização de uma mudança social efetiva?

Uma pergunta constante no discurso daqueles que se interessam pela questão é: ‘Por que nós, enquanto sociedade civil, devemos assumir a responsabilidade por investimentos sociais? Não seria esse papel do Estado?’.

Pode-se dizer que sim. No entanto, se nos mantivermos paralisados, acreditando que existe um outro responsável por tudo, não será possível desenvolver senso de responsabilidade social e capacidade de participação ativa da sociedade.

Quando comecei a aprofundar meus conhecimentos teóricos a respeito das relações sociedade/indivíduo, pude perceber o quanto o captador, no exercício de sua atividade profissional, teria como viabilizar o envolvimento, a conscientização e a participação dos envolvidos no processo de captação. Assim, no decorrer dos estudos para a minha pesquisa, foi se delineando a idéia de que o referencial teórico da Psicologia Social seria muito adequado para o conhecimento do significado dessa nova profissão – a de captador de recursos –, bem como das expectativas com relação a sua função. Para tanto, estudei o processo de constituição da identidade desse personagem no Brasil. Como faço parte do grupo de profissionais que lidam com captação de recursos, pensei que seria mais fácil localizar as lutas, dificuldades, desafios e motivações do captador. Durante o mestrado na Psicologia Social da PUC-SP, orientado pelo prof. Antonio da Costa Ciampa, formulei e analisei questionários respondidos por captadores de recursos; entrevistei pessoas que se relacionavam com eles observando-os de fora, assim como realizei entrevistas abertas (histórias de vida) com alguns captadores. Tentei verificar, nas análises dos questionários e das entrevistas, fatos que apontassem quem seriam esses indivíduos, quais suas trajetórias de vida, suas buscas, motivações, medos etc.

O trabalho teve como proposta compreender quais razões levaram ao nascimento e ao crescente desenvolvimento desse setor, o que possibilitaria compreender a profissionalização da captação de recursos.

Diversos modelos de organizações não-governamentais e da sociedade civil, têm como produtos finais das atividades a melhoria da qualidade de vida, o resgate da cidadania e a renovação do espaço público. Tais instituições compõem hoje o chamado Terceiro Setor e contam com parcerias que viabilizam sua sustentabilidade. Dessa forma, demandam um captador de recursos profissionalizado.

Por meio das respostas ao questionário, foi possível ter uma visão panorâmica da situação a partir dos próprios captadores brasileiros no atual contexto social, bem como um aprofundamento da discussão em torno da construção da identidade desses profissionais nos processos de metamorfose.

Os captadores de recursos aparecem como indivíduos que se deslocaram, na maioria dos casos, de suas antigas áreas de atuação – são geralmente “ex-alguma coisa”. Há grande dificuldade em se falar do perfil do captador de recursos no Brasil, uma vez que a maioria trabalha apenas há um ou dois anos, tendo somente uma experiência prática. Muitos outros, que atuam há mais tempo, nem sequer se viam ou se vêem como tal.

O mercado tende a ver o captador como aquele que sabe trabalhar com diferentes recursos e flexibilidade para se valer deles. Alguns captadores expressam ainda a pretensão de ser um novo sujeito político de transformação social, enquanto outros apenas pretendem exercer uma atividade rentável e agradável, sem preocupações com o sentido ético da atividade de captar para o Terceiro Setor.

As entrevistas diretas possibilitaram a coleta de dados de alguns dos profissionais bastante atuantes e de observadores-informantes (pessoas com amplo conhecimento da captação e que têm forte envolvimento com ela), o que permitiu um olhar externo aos captadores.

A análise dos dados indica um profissional crítico e militante. O que aparece com destaque no discurso dos entrevistados é a possibilidade de emancipação social contida justamente na sua postura militante. É interessante averiguar que essa categoria emergente tenha surgido tão comprometida politicamente.

Para a realização da pesquisa, foram fundamentais os textos de alguns filósofos, sociólogos e psicólogos sociais. Entre eles, Jürgen Habermas, importante reformador social, cujas idéias podem trazer ricas contribuições para o momento político brasileiro vigente e para as possibilidades de atuação dos captadores de recursos. Segundo ele, as pessoas têm de saber que podem interferir no processo de regulação social. Numa cultura democrática e pró-ativa, os indivíduos exercem sua cidadania. A sociedade civil é o cenário para essas interações. Conscientizada de seus direitos de cidadania, ela tem como se transformar democraticamente, articulando a regulação social com a emancipação social.

“Se nos mantivermos paralisados, acreditando que existe um outro responsável por tudo, não será possível desenvolver senso de responsabilidade social”

É fundamental ter presente que a captação de recursos para o Terceiro Setor é uma atividade com o propósito de viabilizar projetos que visem o bem-estar social, protegendo-o de ser colonizado por outros interesses.

O objetivo principal desse estudo foi investigar as possibilidades de um sentido emancipatório na atuação do captador de recursos, ou seja, verificar se esse sentido vai prevalecer, uma vez que é uma questão a ser decidida politicamente, dentro de uma orientação ética que supõe sujeitos autodeterminados.

A identidade profissional do captador de recursos pode se definir como um projeto ético que tome posição frente às alternativas da barbárie ou da emancipação. Cidadania e responsabilidade social têm como ser ensinadas, promovidas.

Mesmo com tanto empenho, o tema ainda exige novas e aprofundadas pesquisas que esclareçam ainda mais o verdadeiro papel e a importância do captador de recursos para instituições, sociedade civil e até para o Estado.”

“Uma sociedade civil consciente de seus direitos de cidadania tem como se transformar democraticamente, articulando a regulação social com a emancipação social”

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