A sustentabilidade nos processos de negócios

Por: Marcelo Linguitte
01 Março 2008 - 00h00

Há um provérbio chinês que diz que podemos escolher o que semear, mas que somos obrigados a colher aquilo que plantamos. Esse provérbio vale a quem inicia a incorporação da sustentabilidade em seus negócios. Afinal, podemos optar por começar bem esse processo, mas, se assim não fizermos, dificilmente o esforço empreendido trará os resultados esperados. Então, o que significa começar bem a implantação de uma política em sustentabilidade?

As organizações que trabalham com a promoção da sustentabilidade e da responsabilidade social, dentro e fora do Brasil, insistem que esses temas somente estarão incorporados na empresa se eles estiverem em suas estratégias de negócio. Apesar de verdadeira, essa afirmação é extremamente difícil de ser colocada em prática, pois a sustentabilidade empresarial ainda é um pouco difusa.

É difícil encontrar o ponto exato em que a empresa desenvolve aspectos sociais e ambientais ao mesmo tempo em que potencializa seu lado econômico. É uma questão bem concreta e de difícil equalização.

Com base na experiência de diversas empresas que tenho acompanhado, os casos de maior êxito na implantação da sustentabilidade têm algumas características importantes, que gostaria de compartilhar com vocês.

A empresa e seus processos

A primeira delas refere-se à visão que se tem sobre a sustentabilidade na empresa. Explico. Todas as empresas são formadas por processos: compras, produção, recursos humanos, governança etc. A visão inovadora da sustentabilidade é apresentar cada processo empresarial, por menor que seja, como se composto por três esferas: econômica, social e ambiental. O desafio da sustentabilidade é equacioná-las de tal forma para que eles possam gerar uma sinergia entre si e se potencializarem.

Por exemplo, há alguns anos, fizemos um trabalho para uma empresa de bebidas. No processo de carregamento dos caminhões com pallets de bebidas, havia um problema de alta rotatividade dos funcionários terceirizados. A equipe de carregamento, que tinha cerca de cem pessoas, era composta por 60% de funcionários da própria empresa e por 40% de terceirizados.

Os funcionários terceirizados não gozavam dos mesmos salários e benefícios que os funcionários da empresa, o que acabava gerando um descontentamento entre os terceirizados e a conseqüente rotatividade. Segundo o coordenador de pátio, um trabalhador demorava dois meses para atingir a produtividade ótima de carga do caminhão.

Como a rotatividade era alta, esse patamar nunca era atingido, fazendo com que os caminhões demorassem mais a sair da fábrica e a chegar até os clientes. Esse problema resultou em um nível de desabastecimento de alguns produtos superior ao aceitável e de um gasto exagerado de componentes dos caminhões (freios, pneus, combustível etc.) pelo excesso de velocidade que cometiam, para compensar o atraso na fábrica.

Neste caso simples, percebe-se como os três aspectos (social, econômico e ambiental) interagem e impactam os negócios da empresa: por conta do mau manejo da relação da empresa com os terceirizados (pilar social), houve um problema de falta de produtos aos clientes (pilar econômico) e um consumo de combustível e pneus elevado, com maior geração de gases de efeito estufa (pilar ambiental).

Assim, as empresas que têm buscado incorporar as questões de sustentabilidade por meio de seus processos têm tido maior chance de sucesso do que aquelas que iniciam por planos “estratégicos” e que nunca se concretizam.

A sustentabilidade como fator de competitividade

O psicólogo norte-americano Frederick Herzberg, baseando-se na Teoria de Maslow, desenvolveu a Teoria dos Dois Fatores, segundo a qual as satisfações e insatisfações no ambiente de trabalho atuam de maneira independente entre si. Ou seja, Herzberg argumenta que no ambiente de trabalho há um conjunto de fatores que geram satisfação e um outro conjunto independente que gera insatisfação.

Aos fatores geradores de satisfação, o pesquisador deu o nome de Fatores Higiênicos (salário, condições de trabalho, relações interpessoais etc.), e aos fatores geradores de insatisfação, o nome Fatores Motivacionais (reconhecimento, crescimento pessoal, natureza do trabalho etc.).

Se os Fatores Higiênicos estiverem presentes, nada acontece, ninguém se sente motivado. Mas, caso não estejam, teremos problemas. Se os Fatores Motivacionais estiverem presentes, aí, sim, há avanços no ambiente de trabalho.

O mesmo conceito se pode aplicar às empresas que começam no caminho da sustentabilidade. Uma empresa não pode achar que simplesmente cumprir a lei ou fazer o que sua concorrência está fazendo será suficiente para que ela se sobressaia e seja mais competitiva que a média.

Se ela não buscar na sustentabilidade um aspecto de competitividade, não irá avançar nessa área. Significa dizer que a sustentabilidade deve ser incorporada às estratégias da empresa como um novo atributo de competitividade, adicionalmente aos que a empresa já gerencia: cadeia de fornecedores qualificada, boa relação com trabalhadores etc.

Em outras palavras, sustentabilidade significa necessariamente diferenciação. Fazendo um outro paralelo, acho que muitos leitores devem se lembrar da história da tecnologia da informação. No início da década de 1970, a TI surgiu para ajudar as empresas a fazer mais rápido o que já faziam.

Na década seguinte, a TI passa a modificar processos de negócio e dar um novo rosto às operações das empresas. Na década de 1990, a TI veio para mudar o modo pelo qual as empresas desenvolviam seus negócios, transformando radicalmente os conceitos de transação com os quais se trabalhava.

O mesmo se aplica à sustentabilidade. É importante percebermos que estamos ainda nos primórdios da aplicação desse conceito e que as empresas líderes de amanhã serão aquelas que souberem incorporar mais rápida e radicalmente essa filosofia.

Assim, olhar com uma lupa “sustentável” os processo empresarias e avançar no sentido de tratar a sustentabilidade como verdadeiro atributo de competitividade são fatores de êxito quando o assunto é incorporar esse tema na agenda da empresa.

A visão inovadora da sustentabilidade é apresentar cada processo empresarial, por menor que seja, como se composto por três esferas: econômica, social e ambiental



Marcelo Linguitte. Diretor-gerente da Terra Mater Empreendimentos Sustentáveis.

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