A responsabilidade social, o sapo e o escorpião

Por: Marcelo Linguitte
01 Janeiro 2007 - 00h00

A fábula do sapo e do escorpião é bem conhecida. Nessa história, um escorpião precisava atravessar um rio, mas como não conseguia, pediu a um sapo que estava por ali que o levasse para a outra margem. O sapo respondeu que nunca faria isso, pois conhecia os escorpiões e temia que ele lhe desse uma ferroada durante o percurso.
O escorpião disse ao sapo que isso nunca iria acontecer, pois, se assim o fizesse, os dois iriam morrer. O sapo se convenceu do argumento do escorpião e o colocou em suas costas. Durante a travessia, no entanto, o escorpião deu uma ferroada no sapo, que, agonizando, perguntou: “Mas você não disse que não iria fazer isso? Agora vamos morrer os dois!”. No que o escorpião responde: “Desculpe, é meu instinto!”.
Essa história ilustra muito bem um ponto que é fundamental quando se fala de incorporação da responsabilidade social empresarial (RSE) na gestão das empresas: para a maioria delas, o instinto natural é de uma gestão focada em seus próprios interesses e resultados, sem que aspectos sociais e ambientais mais amplos sejam levados em conta.
Esse instinto, que busca a satisfação de resultados restritos ao trimestre, tem dificuldade em reconhecer que, no longo prazo, é importante preservar e promover a sociedade e o meio ambiente, até para que os próprios resultados da empresa possam se manter no futuro.
Com certeza, caso o escorpião decidisse não ferroar o sapo, ele poderia continuar sua vida depois que chegasse à outra margem. Em vez disso, olhou para a satisfação imediata, seguiu cegamente seus instintos, e acabou perecendo.

Visão ampliada
O que vemos hoje no mundo (pobreza e desigualdade insustentáveis, aquecimento global, corrupção etc.) também é fruto de práticas gerenciais míopes, focadas no curto prazo. Para reverter esse cenário, e fazer com que toda a comunidade global possa vislumbrar um futuro mais sustentável e justo, a RSE torna-se não apenas importante mas fundamental.
Esse instinto empresarial não aparece por acaso, pois a própria lógica de mercado impulsiona as empresas no sentido contrário ao da RSE. Competição, carga tributária excessiva, globalização, cobrança dos acionistas: tudo isso cria um ambiente que desestimula estratégias de negócio baseadas na RSE, que são, normalmente, mais demoradas para maturar e, portanto, não-perceptíveis na avaliação dos resultados do negócio no trimestre seguinte.
Nesse contexto difícil, uma gestão socialmente responsável somente pode ser conseguida com esforços firmes e coordenados para esse fim. A geração espontânea não existe aqui, e a empresa deve buscar de forma intencional incorporar em suas análises ingredientes sociais e ambientais, ampliando seus parâmetros de sucesso para além da componente econômica – sem, é claro, desconsiderá-la. Afinal de contas, se não existir meio ambiente saudável e cidadãos com renda para comprar produtos e serviços, também não existirão empresas lucrativas.

Mal de Dom Quixote
Para se atingir consistência em termos de RSE, um aspecto é absolutamente fundamental: o comprometimento da alta administração da empresa com o tema. Sem compromisso e envolvimento genuínos, a RSE ficará no discurso, sem maiores impactos nos negócios. Muitos executivos queixam-se por se sentirem como um Dom Quixote dentro da empresa, já que nem sempre seus pares e o presidente da organização aderiram à idéia.
Eles se percebem lutando sozinhos, sem a adesão do restante da alta gestão. O que ocorre em casos assim é que a RSE não avança na cultura da organização, ficando restrita a um número pequeno de pessoas. Por não estar no DNA da empresa, a RSE acaba não produzindo os resultados esperados, o que termina por frustrar a empresa, já que ela investiu recursos valiosos em algumas ações, sem obter o retorno esperado. Porém, se não há compromisso com o tema, como haverá resultado?
A falta de compromisso com o tema na organização demonstra, infelizmente, uma falta de compromisso da alta gestão. Se ela não aderiu à idéia, ninguém mais na empresa irá aderir. Em uma empresa, acontece o mesmo que em uma família: os filhos aprendem com o exemplo dos pais.
Não adianta nada os pais discursarem para os filhos sobre a forma correta de agir, se eles mesmos não agem dessa forma. Os colaboradores de uma empresa observam o que fazem seus executivos e repetem como eles atuam. Dizer que RSE é importante, sem agir nesse sentido, não funciona. Assim, a adesão do presidente e de diretores é fundamental.

Comprometimento
É bastante comum a rotatividade em cargos mais altos dentro das empresas. Muitas vezes, um CEO ( sigla em inglês para chefe do setor executivo) é contratado e vê sua nova empresa como um trampolim para uma outra posição que considera mais interessante. A partir dessa idéia, desenvolve todo um conjunto de estratégias de curto prazo, para valorizar a empresa e seu próprio passe. Normalmente, essas estratégias não estão alinhadas com a RSE.
Em um cenário desse tipo, fica realmente difícil pensar em incorporar o tema na empresa. O que muitos CEOs não percebem – pois não estão acostumados a enxergar a situação dessa forma – é que a RSE, diferentemente do que pensam, não é algo que está aí para atrapalhar suas metas e as da empresa. Se bem trabalhada, a RSE pode ser uma ferramenta muito útil para o sucesso empresarial – e profissional.
Há, assim, espaços importantes para que um CEO possa contribuir para a melhoria do desempenho de sua empresa por meio das premissas da RSE. Esse tipo de comportamento seria certamente inovador e valorizaria muito mais o executivo perante o mercado, já que as questões da RSE e do desenvolvimento sustentável estão se tornando temas centrais no mundo, e quem está apto a lidar com eles, ganhará pontos importantes.
A questão do aquecimento global é um ótimo exemplo. Esse assunto, presente em praticamente todos os veículos de comunicação, desafia o mundo e a capacidade gerencial dos executivos das organizações, que começam a ser cobrados pelos acionistas e proprietários a tomar ações que tornem a empresa mais “ecológica”.
Um CEO que consegue ampliar a competitividade de uma empresa ao mesmo tempo em que diminui suas emissões de dióxido de carbono terá destaque garantido. É importante que se perceba que inteligência, informação e acesso a tecnologias não faltam. O que falta é, muitas vezes, vontade política para implantar determinadas medidas.
Chegou a hora de os executivos das empresas, principalmente seus CEOs, perceberem a sua responsabilidade nesse processo e darem sua parcela de contribuição.


Muitos executivos queixam-se por se sentirem como um Dom Quixote dentro da empresa, já que nem sempre seus pares e o presidente da organização aderiram à idéia

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