A nova economia verde

Por: Eduardo Magalhaes
01 Julho 2009 - 00h00

Em seu livro Designing the Green Economy: The Postindustrial Alternative to Corporate Globalization, o autor Brian Milani adota dez princípios para a Economia Verde, entendendo como fundamental o que chama de use-value, em tradução livre, valor de uso. Para Milani, o objetivo do negócio é satisfazer as necessidades reais, ou seja, o negócio deve estar focado nas necessidades humanas e ambientais. Da mesma forma, o dinheiro deve viabilizar as trocas comerciais, e não ser um fim em si mesmo.

A ideia de valor de uso é um dos conceitos mais importantes dentro do pensamento marxista que, como sabemos, não tinha grandes simpatias pelo sistema capitalista. Milani não é, entretanto, um autor comunista. Na referida obra, estuda a economia verde como possível alternativa (para ele, a única no momento) às corporações globalizadas em um mundo pós-industrial. Ou seja, analisa um novo caminho para o desenvolvimento e, portanto, estabelece a continuidade da economia capitalista mundial.

Milani, assim, propõe a manutenção da instituição da livre iniciativa e da propriedade privada, mas disciplinadas por um mercado “socioambiental” voltado estritamente às carências humanas. Tal reflexão é igualmente muito parecida com o conceito de Terceira Via, em que são resgatados e reunidos os melhores valores de um socialismo democrático e do liberalismo.

A seguir, sintetizamos o conjunto de ações e práticas que hoje compreendem a Economia Verde. Vale ressaltar que, ao longo do tempo, algumas delas podem sair desse rol e, outras, serem incorporadas. Simplesmente sublinhamos os tipos de negócios em ascensão que, no momento, unem lucratividade e respeito ao meio ambiente.

Mercado de crédito de carbono

Segundo a Embrapa, entre 2008 e 2012 o mercado anual de crédito de carbono no Brasil será de U$S 400 milhões. Conforme o Protocolo de Kyoto, que rege o mercado de crédito de carbono, os países de capitalismo central que assinaram o acordo estão obrigados a diminuir a emissão de gases do efeito estufa em pelo menos 5,2% em relação ao que era emitido em 1990. Para atingir suas metas, os países desenvolvidos podem comprar créditos de carbono dos países que assinaram o termo e não são obrigados a diminuir as emissões de gases do efeito estufa como, por exemplo, o Brasil.

Assim, ganham os governos e empresas dos países centrais por diminuírem as emissões e também ganham empresários, governos e comunidades dos países que vendem os créditos de carbono.

Energias limpas e renováveis

O Brasil é, certamente, o maior celeiro mundial para a produção de energias limpas e renováveis do planeta. Além da tecnologia, concentramos os principais elementos naturais necessários: água, sol, extensão territorial, biodiversidade, terras férteis e ventos. Com tais condições, basta o desenvolvimento de políticas públicas para que o Brasil seja liderança nessa área. Como exemplo, podemos citar a experiência do Proálcool. Outro combustível de imensas possibilidades é o biodiesel. Em relação ao petróleo, reduz em 100% a emissão de compostos sulfurados e aromáticos, 78 a 100% dos gases do efeito estufa e 55% dos materiais não particulados. Quanto à sua viabilidade econômica, pode substituir integralmente o diesel fóssil e servir como matéria-prima para a indústria de comércio, alimentícia, química, entre outras.

Há ainda a energia eólica e a energia solar fotovoltaica com gigantescas oportunidades no Brasil. De acordo com o Atlas do Potencial Eólico Brasileiro, essa tecnologia pode ser utilizada em todas as regiões, especialmente no Nordeste, e para gerar não apenas energia elétrica, mas também aquecimento e bombeamento de água, dessalinização, entre outras.

Sobre o potencial da energia solar, é importante mencionar que em menos de uma hora o planeta Terra recebe o equivalente ao que toda a humanidade consome durante um ano, e o Brasil é um dos países mais privilegiados nesse sentido. Os atuais custos de produção das energias eólica e solar já são competitivos em relação às energias convencionais e estão se tornando cada vez mais baixos. São, portanto, sistemas altamente sustentáveis.

Existe também a energia proveniente das correntes marítimas, das ondas e do hidrogênio, ainda muito pouco explorada no Brasil, mas também com enormes potenciais em curto prazo.

Outra admirável fonte para geração de energia elétrica no Brasil são as Pequenas Centrais Hidrelétricas (PCHs). Ao contrário das grandes usinas, as PCHs causam baixíssimos impactos ambientais e apresentam custos de instalação muito menores. Além disso, não dependem de capitais externos e não criam a necessidade de extensa logística de distribuição, na medida em que a energia elétrica produzida é consumida localmente e os pequenos lagos criados podem ser dirigidos ao turismo e à pesca. A viabilidade econômica dessa atividade para o Brasil é enorme, haja vista o potencial instalado de 9.795,7 mw e a excelente experiência nacional na construção e operação de grandes e pequenos empreendimentos hidrelétricos.

Ecoeficiência

Ecoeficiência significa “produzir mais com menos”. Segundo a World Business Council for Sustainable Development (WBCSD), a ecoeficiência é utilizada em todas as áreas da empresa, da produção à distribuição. Resumidamente, a WBCSD identifica sete pontos práticos para a atuação ecoeficiente de uma organização: 1) redução da intensidade material; 2) redução da intensidade energética; 3) redução da dispersão de substâncias tóxicas; 4) aumento da reciclabilidade; 5) otimização do uso de materiais renováveis; 6) prolongamento do ciclo de vida do produto; e 7) aumento da intensidade do serviço.

Um importante exemplo da ecoeficiência é o gerenciamento de resíduos sólidos, seja no setor industrial ou no de serviços. O Brasil possui significativa experiência e destaque mundial nos índices de reciclagem; mesmo assim, dos 61 milhões de toneladas anuais de lixo produzidos no Brasil, apenas 2% são coletados seletivamente. Portanto, há um amplo mercado a se explorar. Para se ter uma ideia do mercado potencial de reciclagem, a indústria de embalagem no Brasil tem receita anual de aproximadamente 2% do PIB, ou seja, R$ 58 bilhões. Isso sem falar das formidáveis possibilidades de economia para as empresas ao reduzir seu consumo e desperdício de matérias-primas.

Água

Com aproximadamente 15% de toda água doce do planeta, o Brasil é também uma potência nessa área. Em um mundo onde 1,1 bilhão de pessoas não têm acesso a esse bem econômico e 2,4 bilhões de pessoas vivem sem saneamento básico, as possibilidades de mercado para o Brasil são incomensuráveis. O setor público isoladamente não conseguirá atender a toda essa população se os projetos não receberem investimentos da iniciativa privada que, por sua vez, somente o fará se puder obter lucros com a atividade. O nível de lucro dependerá da eficácia no gerenciamento dos recursos hídricos com especial atenção para a diminuição da degradação, conservação, preservação da água e educação ambiental.

Para sermos líderes mundias na Economia Verde, a natureza no Brasil já fez o que lhe cabia. De nossa parte, é necessário que os governos facilitem sua expansão criando normas e políticas públicas favoráveis; que os empresários, pensando no longo prazo e não no lucro imediato e a qualquer custo, invistam sem receio; e a sociedade civil cubra e fiscalize de forma organizada.

 

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