valores compartilhados

Por: Luciano Guimarães
19 Fevereiro 2013 - 23h41

Com ou sem fins lucrativos, fundos sociais alimentam iniciativas pelo Brasil afora, colaborando para o sucesso de projetos gerenciados por organizações e empresas

P rocessos que se consolidam gradualmente no exterior e estão chegando ao Brasil com certo atraso e em plena crise do capitalismo mundial — a pior desde 1929, quando a Bolsa de Nova York quebrou —, os investimentos de impacto estão começando a mudar as relações entre empresas e investidores, e de ambos com as organizações não governamentais (ONGs), pois eles buscam não apenas retorno financeiro, mas uma transformação social com resultados imediatos e futuros.

O tema é tão importante no exterior que pessoas do calibre de Michael Eugene Porter e Mark R. Kramer, fundadores da consultoria FSG, especializada em avaliar investimentos de impacto em organizações sem fins lucrativos, acreditam que “a solução está no princípio do valor compartilhado, que envolve a geração de valor econômico de forma a criar também valor para a sociedade (com o enfrentamento de suas necessidades e desafios)”, conforme escreveram no artigo A grande ideia: criação de valor compartilhado.

Segundo eles, “é preciso reconectar o sucesso da empresa ao progresso social. Valor compartilhado não é responsabilidade social, filantropia ou mesmo sustentabilidade, mas uma nova forma de obter sucesso econômico. Não é algo na periferia daquilo que a empresa faz, mas no centro. E, ao nosso ver, pode desencadear a próxima grande transformação no pensamento administrativo”.

Do alto de sua experiência como ex-gerente do Núcleo de Articulação Nacional da Rede Ação pela Cidadania Empresarial e ex-coordenador de Responsabilidade Social da Fundação Unimed, o gerente programático da Fundación Avina, Paulo Rocha, explica que o investimento de impacto em negócios sociais segue as mesmas regras do investimento de risco normal de mercado. “Fundos de Venture Capital, Capital Semente, Anjos Investidores buscam algum nível de segurança para aplicar seu capital, já que o risco inerente ao investimento em novos negócios já está automaticamente embutido no ‘pacote’”.

Um dos exemplos brasileiros mais bem acabados neste segmento de investimentos de impacto de organizações sem fins lucrativos, a sitawi opera um fundo social focado no empréstimo de recursos a organizações e empresas comprometidas com causas sociais e ambientais. Desde 2008, quando iniciou suas atividades, até hoje, a ONG já emprestou cerca de R$ 1,5 milhão em recursos advindos de doações, com inadimplência praticamente zero.

Quem recebe a verba tem um prazo estipulado para pagamento e pode se beneficiar de uma consultoria estratégica para otimizar a aplicação do dinheiro. “Os apoiadores da sitawi fazem doações e esperam que seu impacto social seja multiplicado, na medida em que o capital fica girando no fundo social. Por conta disso, há um pouco mais de flexibilidade, com taxas de juros próximas à Selic”, afirma Leonardo Letelier, CEO e fundador da organização.

O dirigente da sitawi explica que a organização está desenvolvendo outros instrumentos, como a gestão de fundos sociais para grandes doadores — seguindo a mesma lógica e com mais flexibilidade ainda. “Paralelamente, estamos criando um fundo de apoio a fusões no setor social, não exatamente na linha de investimento de impacto, pois os recursos entram e saem como pagamento das despesas relacionadas a este processo”, explica.

Entre as organizações já apoiadas está o Centro de Assistência Social Nossa Senhora da Piedade (Caspiedade). Fundado em 1998, atua no desenvolvimento de comunidades em situação de vulnerabilidade social de São Paulo e possui 12 centros de atendimento. A entidade gerencia dois restaurantes populares para o governo paulista, que servem aproximadamente 1,5 mil refeições por dia.

Em novembro de 2009, a ONG obteve com a sitawi um empréstimo de R$ 230 mil, com os objetivos de reduzir os altos juros pagos em empréstimos tradicionais; amenizar o descasamento do fluxo de caixa e possíveis atrasos nos repasses dos convênios; e dar apoio estratégico na gestão de fluxo de caixa e estruturação dos novos empreendimentos sociais, contribuindo para a autossustentabilidade da organização e para a ampliação de seu impacto social.
Outra organização social que obteve empréstimo nestes mesmos moldes foi a Daspu, grife social lançada em 2005, com grande repercussão, para gerar renda extra à Davida, tornando a ONG mais sustentável e contribuindo para a elevação da autoestima das prostitutas, seja como modelos de desfiles ou por outras formas de participação na grife.

A marca vinha passando por dificuldades financeiras, por conta do conhecimento restrito de negócios e dificuldade de manutenção da infraestrutura. Liberado no início de 2009, o empréstimo de R$ 50 mil foi usado para ampliar, fortalecer e manter as vendas da grife social, assim como assessorar no planejamento estratégico.

“Os recursos ajudaram a Daspu a aprimorar sua loja virtual e a aumentar a participação da grife em eventos de moda; a definir novas estratégias de venda e conseguir maior rapidez e consistência nas tomadas de decisão internas. Além disso, a entidade expandiu as vendas e, por consequência, os recursos para sua atuação social, melhorando sua gestão, visão de negócio e marketing”, comenta Letelier.

No futuro, a sitawi planeja lançar outras iniciativas que seguem essa mentalidade de aliar investimento ao impacto social, por exemplo, um fundo de apoio a fusões no setor social.No exterior, há fundos sem fins lucrativos que seguem uma lógica de investimentos parecida, a partir de doações, como o Acumen Fund ou Root Capital.

Fundos com fins lucrativos

Na outra ponta, os fundos de investimento de impacto com fins lucrativos também desempenham importante papel no mercado, ao comprar a participação acionária em negócios sociais inovadores já em operação. Geralmente, são formados por investidores que esperam um retorno médio de 30%. Neste mercado de alto potencial, no qual se destacam fundos pioneiros como o Aavishkaar, a intenção é causar impacto social positivo, além de retorno financeiro.

“A grande inovação desse setor é que o impacto social positivo não deveria ser apenas uma ‘externalidade’ causada pelas atividades da empresa ou o resultado de ações de responsabilidade social. O impacto deveria ser uma intenção do negócio, medido como sucesso, buscado ativamente pelos gestores e resultado do core business da empresa”, analisa Daniel Izzo, cofundador da Vox Capital.

Gestor de um fundo de capital empreendedor que investe em empresas inovadoras e de alto potencial, voltadas a atender a população de baixa renda, ele acredita que este modelo de investimentos tem enorme potencial para emplacar no mercado brasileiro.

Para tanto, lista quatro fatores preponderantes para incrementar a atração de investimentos de impacto no Brasil: o grande mercado consumidor interno, formado pelas classes C, D e E; o espírito empreendedor da população; a distribuição de renda desigual, que torna ainda mais crítica a criação de modelos com valor compartilhado; e os problemas sociais crônicos identificados e trabalhados, visto que o país já possui uma agenda consolidada.

“Atualmente, em torno de 85% da população brasileira tem renda familiar mensal inferior a R$ 3,2 mil, ou seja, a metade da massa de renda e do poder de consumo do mercado local. Outra característica do brasileiro, o espírito empreendedor é passível de desenvolver-se com mais facilidade aqui do que em outros países”, argumenta Izzo.

O cofundador da Vox Capital salienta que a estabilização econômica abriu caminhos para o surgimento de um movimento empreendedor movido por oportunidades, e o impulso dado aos negócios sociais é resultado do crescimento dos investimentos anjo e semente, que estão fomentando o aparecimento de uma série de startups inovadoras.

Se os investimentos de impacto são ou não um modelo a ser seguido pelas empresas é uma das principais perguntas a serem respondidas. Segundo Izzo, apenas um trabalho focado no longo prazo e com resultados consistentes poderá responder a esta questão. “Até porque, o caminho para isso já está sendo criado”.

Links: www.aavishkaar.in | www.acumenfund.org | www.avina.net | ww.caspiedade.org.br | www.daspu.com.br | www.davida.org.br | www.rootcapital.org | www.sitawi.net | www.voxcapital.com.br

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