Um grande obstáculo a ser superado

Por: Paula Craveiro
04 Julho 2014 - 18h05

As mudanças climáticas vêm impactando seriamente a vida em todo o mundo. E, de acordo com relatório do IPCC, o cenário traçado para este século não é muito animador

Os efeitos das mudanças climáticas já podem ser sentidos em nosso dia a dia, em diferentes partes do planeta, por meio de eventos extremos, como secas e tempestades; ciclones, cada vez mais intensos e frequentes; derretimento do Ártico; elevação do nível dos oceanos; e migração de espécies.
Por conta da excessiva emissão de gases de efeito estufa (GEE) na atmosfera, ocorrida no último século e em quantidades muito acima da capacidade de absorção das florestas e dos oceanos, as alterações no clima vêm afetando tanto a biodiversidade quanto os homens e os animais, tornando-se um grande desafio a ser enfrentado no médio e no longo prazo.
Em março passado, cientistas do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC – do inglês Intergovernmental Panel on Climate Change), da Organização das Nações Unidas (ONU), divulgaram o segundo capítulo do relatório de avaliação sobre o clima – denominado Mudanças Climáticas 2014: Impactos, Adaptação e Vulnerabilidade –, e concluíram que são “altamente confiáveis” as previsões de que danos ligados a eventos naturais extremos ocorram em múltiplas localidades do mundo na segunda metade deste século. E isso, eles advertem, deve acontecer mesmo se houver corte substancial de emissões de GEE nos próximos anos.
O documento apresenta os impactos das mudanças climáticas ocorridos até agora, os riscos futuros e as oportunidades para a adoção de medidas eficazes de minimização dos riscos. O texto, baseado em mais de 12 mil estudos publicados em revistas científicas, traz ainda dados sobre o estado climático atual e previsões de como será a mudança global até 2100.
“Os efeitos são reais, presentes em nossas vidas, e a tendência, se nada for feito agora, é que sejam ainda mais graves no futuro. A janela de oportunidade para evitar o pior está se fechando”, alerta Cristina Amorim, coordenadora da campanha de Clima e Energia do Greenpeace.

Impactos observados

De acordo com o relatório, “o sistema climático está sendo perturbado pelo ser humano e a mudança climática representa riscos para os sistemas naturais e humanos”. Os impactos já observados afetam a agricultura, a disponibilidade de água, a saúde humana, os ecossistemas no continente e nos oceanos, e alguns modos de vida. Em geral, os problemas têm ocorrido em todo o mundo, sejam países ricos ou pobres, mas o grau de vulnerabilidade varia, sendo normalmente maior entre os mais marginalizados.
Entre as evidências detectadas estão as mudanças de tendências nas precipitações chuvosas, na redução do permafrost (áreas geladas), das precipitações de neve e na redução das geleiras, bem como as modificações das migrações e do hábitat de espécies animais, tanto em terra quanto no mar. “Essas mudanças já estão provocando efeito sobre a produção alimentar. O clima também tem impacto, porém, relativamente menor, em doenças nas últimas décadas com as ondas de calor”, comenta André Costa Nahur, coordenador do Programa de Mudanças Climáticas e Energia do WWF-Brasil.
No decorrer do século 21, as mudanças climáticas poderão desacelerar o crescimento econômico, fazer com que a redução da pobreza seja mais difícil, prejudicar ainda mais a segurança alimentar, e criar novas armadilhas da pobreza e prolongar as existentes, particularmente em áreas urbanas e pontos nos quais há muita fome.
“É preciso levar a sério as conclusões trazidas pelo relatório, porque há implicações com a segurança do abastecimento de alimentos, os impactos de eventos extremos na morbidade e mortalidade, impactos graves e irreversíveis sobre espécies e um risco de cruzar vários pontos de ruptura por causa do aumento da temperatura”, adverte Nahur, explicando que tais efeitos também prejudicam a segurança humana, uma vez que podem provocar o deslocamento em massa da população ou o aumento de conflitos.

Vulnerabilidades

Embora todos sejam afetados pelos efeitos das mudanças climáticas, as populações mais pobres, principalmente aquelas que habitam regiões costeiras, podem sofrer impactos mais relevantes, como interrupções dos meios de subsistência devido ao aumento do nível do mar; altas temperaturas em localidades semi-áridas, que poderão causar grandes perdas para agricultores com poucos recursos, o que aumentaria o risco de insegurança alimentar; e, por fim, mortes. “Em alguns pontos da África, por exemplo, as mudanças climáticas e os acontecimentos extremos significam que as pessoas ficarão mais vulneráveis, mais expostas aos efeitos negativos dessas alterações, e poderão submergir ainda mais na pobreza”, explicou Maggie Opondo, uma das autoras do relatório, durante apresentação do relatório em Yokohama, no Japão.
Regiões tropicais da América do Sul, da África e da Ásia, de acordo com os dados do IPCC, deverão sofrer com mais inundações, em virtude do aumento das tempestades. Áreas já vulneráveis, que constantemente registram enchentes e deslizamentos de terra, como o Sudeste do Brasil, poderão sofrer fortes consequências com a elevação do volume de chuvas.
O documento estima ainda elevada perda de espécies de plantas e animais pela pressão humana, como a poluição e o desmatamento de florestas, além de redução dos recifes de corais no Caribe e costa de países tropicais, por conta da acidificação, fenômeno causado pelo excesso de CO2 na atmosfera.
“Há muitos outros impactos registrados e previstos, tais como mudanças no padrão de precipitação e de derretimento de gelo, que afetam a quantidade e a qualidade da oferta de água; mudanças na distribuição geográfica e migratórias de espécies terrestres e aquáticas; aumento dos casos de mortes em eventos climáticos extremos; perda de região agriculturável; derretimento do gelo nos polos e elevação dos oceanos, ameaçando regiões costeiras; acidificação dos oceanos, que leva a alterações em habitats marinhos; entre tantos outros exemplos”, ressalta Cristina, do Greenpeace. “O material do IPCC também indica que o Produto Interno Bruto (PIB) global sofrerá redução de 0,2% a 2,0% devido à variabilidade climática, e isso se o aquecimento ficar em apenas 2˚C acima da média pré-Revolução Industrial. Alguns cenários falam até em quedas de 25,0% até 2050 nas safras mundiais de milho, arroz e trigo”, completa a coordenadora.
Em comunicado divulgado após a apresentação do relatório, o secretário-geral da ONU, Ban Ki-Moon declarou: “Para diminuir esses riscos, a redução substancial das emissões globais de gases de efeito estufa deve ser feita juntamente com estratégias e ações para melhorar a preparação contra os desastres, bem como para reduzir a exposição a eventos causados pelas alterações climáticas inteligentes”.

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Previsões científicas

Lançada no segundo semestre de 2013, a primeira parte do relatório afirmou que há mais de 95% de chance de que o homem tenha causado mais da metade da elevação média de temperatura registrada entre 1951 e 2010, na faixa entre 0,5 a 1,3 grau. Pelos estudos, há aproximadamente 66% de chance de a temperatura global aumentar pelo menos 2˚C até 2100 em comparação aos níveis pré-industriais (1850 a 1900), caso a queima de combustíveis fósseis continue no ritmo atual e não sejam aplicadas quaisquer políticas climáticas já existentes.
O documento também apontou que o nível dos oceanos foi elevado em 19 centímetros entre os anos de 1901 e de 2010, e que as concentrações atmosféricas de dióxido de carbono, metano e óxido nitroso aumentaram para “níveis sem precedentes pelo menos nos últimos 800 mil anos”. A estimativa é de que, no pior cenário possível de emissões, o nível do mar aumente entre 26 e 82 centímetros, prejudicando regiões costeiras do planeta, e que o gelo do Ártico pode retroceder até 94% durante o verão no Hemisfério Norte.
A insegurança alimentar é um ponto que merece destaque. As previsões indicam que haverá perdas de mais de 25% nas colheitas de milho, arroz e trigo até 2050. Enquanto isso, a demanda por alimentos continuará aumentando com o crescimento da população, que pode atingir nove bilhões de pessoas até 2050. “A tendência, infelizmente, é de que os riscos só aumentem, e isso acontecerá com as pessoas, com as colheitas e com a disponibilidade de água”, comenta Nahur, do WWF-Brasil.

Adaptações às mudanças

Caso não se consiga reduzir significativamente as emissões de GEE, os prejuízos podem chegar a bilhões de dólares em danos a ecossistemas e a propriedades. De acordo com Chris Field, copresidente do grupo de trabalho responsável pelo levantamento, “a adaptação da mudança climática não é uma agenda que nunca foi testada antes. Governos, empresas e comunidades em todo o mundo estão construindo experiências com adaptação. Essas experiências formam um ponto de partida para ousar em arranjos mais ambiciosos que serão importantes enquanto o clima e a sociedade continuam mudando”.
Apesar de todos os pontos alarmantes apresentados no relatório, Field afirmou que existem aspectos positivos. Segundo ele, o mundo tem condições de administrar os riscos previstos no documento. “O aquecimento global é algo muito importante, mas temos muitas ferramentas para lidar de forma eficiente com isso. Só é preciso lidar de forma inteligente com isso”, disse.
Para o coordenador do WWF-Brasil, está claro que em todo o mundo ainda não está totalmente preparado para os riscos que são enfrentados agora. “Boa parte do desafio de lidar com a mudança climática é que as pessoas tendem a pensar que é preciso um passo gigante, que vamos fazer uma coisa apenas e estaremos preparados, mas não é assim. Para lidarmos com a mudança do clima, talvez sejam necessários diversos pequenos passos, por um longo tempo”.

Cada um fazendo a sua parte

É certo que esse cenário alarmante não pode ser alterado da noite para o dia. No entanto, de acordo com os especialistas, se cada pessoa fizer a sua parte e incorporar novos hábitos e comportamentos em seu cotidiano – como economizar energia, preferir produtos de empresas que tenham cortado emissões na hora da produção e da distribuição, e assumir a responsabilidade de reduzir sua própria “pegada de carbono” –, o volume de GEE lançado na atmosfera pode ser reduzido, beneficiando a todos.
Além disso, destaca Cristina Amorim, “é preciso que as pessoas passem a exigir que seus representantes políticos façam mais. Somente quando essa questão passar a ameaçar o voto que eles esperam receber a cada quatro anos é que ela se tornará urgente para nossos governantes”.

Pequenas atitudes, grandes mudanças

O WWF-Brasil preparou uma série de dicas simples de como cada pessoa pode colaborar para melhorar a qualidade de vida e para reduzir os efeitos negativos das mudanças climáticas.

Transporte

Dê preferência ao transporte público, que é menos poluente.
Use bicicleta ou caminhe sempre que possível.
Para viagens curtas a trabalho ou de turismo, prefira o ônibus.

Carro

Mantenha a revisão em dia, assim o carro funcionará corretamente, consumirá menos combustível e emitirá menos gases causadores do efeito estufa.
Prefira os veículos flex e aqueles que sejam mais econômicos.
Calibre bem os pneus, pois assim evita-se o consumo excessivo de gasolina.

Em casa

Dê preferência a aparelhos eficientes em consumo energético.
Desligue as luzes dos ambientes não utilizados.
Retire das tomadas os aparelhos em stand-by.
Substitua as lâmpadas comuns por fluorescentes compactas, que consomem 75% menos energia.
Desligue o chuveiro quando estiver se ensaboando.

No trabalho

Verifique se as luzes estão desligadas ao sair.
Mantenha os aparelhos de ar condicionado a 25˚C.
Verifique se os aparelhos de ar condicionado estão na sombra. Eles consomem 5% menos se não estiverem no sol.

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