Televisão no Brasil:digital ou displicente?

Por: Felipe Mello, Roberto Ravagnani
01 Janeiro 2008 - 00h00

Filosofar é bem-vindo em qualquer lugar. Filosofar é agradável com qualquer interlocutor. Filosofar é adaptável a qualquer situação. Quando o cenário é uma praia, na companhia de uma filha, praticando o ato de não fazer nada, a fórmula fica ainda melhor. Com todos estes ingredientes, só poderia sair conversa papa-fina. Eu com minhas trinta primaveras, ela com menos de um terço disto.

A televisão no Brasil representa o primeiro curso de formação de nossas crianças. Estimativas bastante confiáveis dão conta que até os sete anos de idade uma criança normal deste país assiste, em média, a 5.000 horas de televisão. Isto representa bem mais que a carga-horária da maioria dos cursos de graduação. Ao chegar ao ensino fundamental, os pequenos já foram expostos a milhares de estímulos, convidando – ou ainda, quase intimando – os educadores que perseguem bons resultados a repensarem seriamente a maneira de transferência de conhecimento, assim como parte importante do conteúdo.

Afinal, os alunos dos dias hodiernos são diferentes daqueles de outrora. Melhor ou pior, não é o cerne desta questão. O desafio está colocado, e cresce ainda mais ao percebermos que as milhares de horas televisivas são preenchidas, com raríssimas exceções, por conteúdo medíocre e contraproducente.

Depois de comer um milho verde, eu na espiga e ela no prato – o que lhe causou certa humilhação, pois teve de evidenciar a falta que fazem os dentes da frente – caminhávamos pela praia, desafiando São Pedro e sua sarcástica mania de fazer chover aos domingos. “Papai, faz bolinha de sabão para eu correr atrás?” Atendi prontamente, sacando o pequeno frasco de meu bolso.

Ventava, o que tornava o desafio dela ainda maior. Cada rajada de bolinhas saía sem rumo, ainda que o sopro propulsor não viesse com tanta intensidade. Mesmo assim ela corria, e corria, e corria ainda mais. O sorriso em seu rosto a fazia saltar bem alto, trombando seu corpo contra as bolinhas de sabão, que seguiam sem direção. “Pra onde vão as bolinhas de sabão, papai?”

Um exemplo entre uma infinidade: em um episódio recente de uma novela apresentada em horário nobre, duas moças de uma “favela” visitavam o apartamento de dois “mauricinhos” da zona sul carioca. Após muitos goles de uísque, os dois jovens começam a “forçar a barra” para cima das meninas, que ficam assustadas e tentam sair de lá. Eles fazem ameaças físicas e agressões verbais. O auge das ofensas se dá quando um deles não poupa energia para dizer que elas eram “neguinhas vadias”.

Como é possível que uma grande emissora de televisão possa se valer de um espaço concedido pelo poder público – sim, é o governo quem concede autorização às emissoras de TV com programação aberta – para promover uma pobreza artística, cultural e cidadã como aquela? O episódio segue com uma sucessão de desrespeitos e visões distorcidas e preconceituosas da sociedade, ficando claro que os únicos objetivos atendidos eram a vaidade e os interesses comerciais dos produtores da novela.

“Para onde vão as bolinhas de sabão?” Uma pergunta despretensiosa, talvez. Palavras sopradas em meio a um sorriso tão banguela que dava vontade de sorrir junto, da alma para o mundo. “Pra onde vão as bolinhas de sabão, papai?” A pergunta sobreviveu ao meu descaso inicial, fruto evidente de minha parca sensibilidade. Era uma pergunta pretensiosa, uma tremenda figura de linguagem, metáfora inocente daquelas que mexem com a gente.

Minha filha queria uma resposta, urgente, que elucidasse algo tão intrigante. “Como as bolinhas de sabão voam, filha?” Quis ganhar tempo devolvendo com uma pergunta que imaginei a faria tartamudear por alguns instantes. “Ué, elas voam com suas incríveis asas invisíveis, é lógico.”

E para ampliar o senso de leviandade, vale lembrar que a tal novela vai ao ar por volta das 21h30 no horário de Brasília, e às 18h30 em algumas regiões do norte do país, em função do fuso horário. São diversas as reflexões que podem ser feitas, e muitos argumentos a serem desenvolvidos. “Tirem as crianças da sala”, podem argumentar alguns. Afinal, “só assiste à televisão quem quer”.

Será que aceitar que “basta mudar o canal” não é como pensar que se a escola pública está ruim, porque os professores não se importam com o seu público – ou seja, os alunos –, os pais deveriam tirá-los de lá? Ou quando um profissional da saúde pública não atende bem um cidadão, a saída seria ir embora cabisbaixo? Se o cidadão não tem consciência crítica para discernir sobre estas invasões desrespeitosas em suas casas, possivelmente não ligarão para os hospitais ruins e as escolas capengas, que nem pertencem ao seu patrimônio particular. Alguma semelhança com o padrão geral de comportamento?

Touché. As bolinhas de sabão tinham asas. É lógico, se voavam algum tipo de asa deveriam ter. Mas se elas são invisíveis, como seria possível enxergá-las, e como eu poderia entender tal lógica que eu não podia ver. Ao me perguntar isso, inicialmente cheio de razão, ficou explícita a minha mediocridade, caindo à minha frente um espelho mágico, cujo nome nunca esquecerei: euspelho. “Pra onde vão as bolinhas de sabão?” Até você? Estou querendo entender a questão das incríveis asas invisíveis e você vem me criticar. “Não é crítica, é bóia de resgate. Agarre-se ou afunde para sempre.” Decidi me entregar à oferta. Afinal, qualquer ajuda era bem-vinda naquele momento. Minha filha continuava me mirando, como que surpreendida pela minha surpresa resistente. “PAPAI, para onde vão as bolinhas de sabão?”

Aceitar a banalização do desrespeito da maneira apresentada no capítulo da novela é aceitar que nosso país é uma lata de lixo, onde dia após dia jogamos e aceitamos que joguem sujeira dentro de nossa própria casa, seja a sala de estar de onde moramos, seja a rua de nosso bairro. O que fazer? Um caminho é denunciar na Procuradoria dos Direitos do Cidadão do Ministério Público Federal. Uma simples pesquisa na internet ou no guia de assinantes telefônicos fornecerá os números de contato para registro da insatisfação. O destinatário da reclamação deve ser o procurador(a) dos Direitos do Cidadão do Ministério Público Federal. Se vai funcionar? Algo vai mudar? Não é possível afirmar.

O fato é que as incongruências no Brasil e no mundo se devem em grande medida à preguiça e desinteresse de cada um de nós. Talvez uma reclamação não faça diferença. Centenas ou milhares de denúncias quem sabe possam causar algum movimento. Afinal, como escreveu Saint-Exupéry em seu livro Pequeno Príncipe, “foi tempo que dedicastes à sua rosa que a fez tão bela”.

O tempo havia se esgotado, e eu não tinha uma resposta. A pergunta fazia cada vez mais sentido, e eu sentia o desejo de saber a resposta. Estava claro que eu tinha pouca matéria-prima na caixa de brinquedos para compor uma resposta minimamente decente. “Filha, você pode me dizer para onde vão as bolinhas de sabão?” Se ela respondesse à pergunta sem pestanejar, e acreditando na sua resposta, eu mergulharia naquela água fria. “Pra onde elas quiserem, papai.” Só não mergulhei porque estava com muito frio, daqueles que vêm de dentro, tão de dentro que é impossível determinar sua origem. A chuva apertou. Coloquei minha filha no colo, abri o guarda-chuva da filosofia e caminhei de volta para casa.

Educação de qualidade é sopro positivo para bons vôos das crianças brasileiras. Se a televisão tem papel de educadora nos dias atuais, oxalá ela se torne comprometida com o país, o que é visceralmente mais importante do que ser democraticamente digital.

Felipe Mello. Radialista, palestrante e diretor da ONG Canto Cidadão, fundada para produzir e democratizar informações sobre cidadania e direitos humanos.
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