Sumário de um verão quase acadêmico

Por: Felipe Mello, Roberto Ravagnani
01 Março 2009 - 00h00

Em final de semana deste verão eu estava influenciado pelo Charles Chaplin. Uma frase extraída de um livro sobre a sua trajetória insistia em voltar, provavelmente convocada por uma cena observada na praia onde eu repousava. “A vida é como um eco; se você não está gostando do que está recebendo, observe o que está enviando”. Ação e reação. Nada novo, simples assim.

A observação atenta daquela cena disparou uma sequência de outras, todas singelas ao extremo. Singeleza que talvez ande rareando entre aqueles que acreditam que a técnica e a teoria rumo ao sucesso andam descoladas da capacidade de entender, e acolher, gente.

Bumerangue

Um rapaz praticava com muita habilidade o arremesso de bumerangue, motivando espasmos de inveja que torciam por um fracasso, que não veio. A cada arremesso, a trajetória do aparelho se ampliava, sempre com mesmo destino: as mãos do seu atirador.

Metáfora tão explícita. O que jogamos no ar, para o mundo, retorna com a mesma intensidade às nossas mãos. Quem não sabe disso? (Pausa dramática...) Aparentemente poucos sabem de verdade. Para não crer na vontade deliberada de autodestruição, pode-se imaginar uma busca contínua para manipular o bumerangue em nosso favor, desejando retorno premiado mesmo quando o arremesso tenha sido tóxico. Ah, como o curto prazo engana.

Observação completa

Veio, então, uma segunda inquietação. Um cansaço profundo de ser discípulo da “tacocracia” (taco, do grego táchos, velocidade, e cracia, governo) que cansa, esvazia, expira.

É cada vez mais raro alguém observar um fenômeno, um livro ou uma pessoa do começo ao fim. A postura “zapzapzap” faz que os telespectadores passem, por exemplo, pelos canais de televisão, sem firmar vínculo algum, chegando ao final de mais de cem opções dizendo que não há nada que presta na TV por assinatura. A mesma atitude se dá no folhear apressado de livros e revistas, na migração atropelada entre páginas de internet, na efemeridade de olhares e carinhos dedicados às pessoas queridas.

Pouca capacidade de coletar estímulos transformadores. A era da informação só faz sentido se aquilo que nos atinge provoca alguma formação – ou “desformação” – interior, já que “in-formar” é formar por dentro.

Gentileza sutil

Nossas atitudes influenciam sutilmente tudo o que gira ao nosso redor. Olhares, sorrisos, palavras positivas. Influência sutil, discretamente capaz de harmonizar ambientes.

Na mesma praia, observei a gentileza sutil: em um jogo de futebol, um perna de pau erra o chute. A bola vai em direção a um transeunte, que a domina. Em uma manobra certeira, devolve a pelota aos peladeiros, que abanam as mãos, agradecidos. Ele sorri, gentilmente, seguindo seu caminho.

Brota a percepção da capacidade de participar do jogo alheio de forma gentil. Atitude que gera saúde, fazendo o jogo coletivo acontecer. Sucesso é estar à disposição para colocar a bola em jogo, mesmo quando não é a nossa peleja.

Balanço

Durante o mesmo verão assisti a um documentário sobre a vida dos habitantes de Okinawa, cidade japonesa onde é registrada atualmente uma das maiores expectativas média de vida no mundo: 81,2 anos, dez anos a mais que no Brasil. Um dos fatores fundamentais citados é o ikigai, traduzido como “propósito de vida”. Vivem mais porque têm uma obra. Nietzsche, filósofo alemão, ratifica dizendo que “quem tem pelo que viver, aguenta qualquer como”.

Naquela praia, pensei fortemente no meu ikigai. Existe alinhamento entre o que queremos, falamos e fazemos? A ausência dessa constatação parece entristecer o ser humano. A última técnica convida a um balanço diário, nada neurótico, apenas comprometido, do que foi feito e do que ficou por fazer, do que gerou prazer e do que intoxicou. A partir de então, as chances de organização das ideias para o dia seguinte aumentam.

Guimarães Rosa nos conta que “o correr da vida embrulha tudo. Esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem”. Coragem de terminar um dia, terminar uma estação do ano com a sensação de que recebemos os presentes que o mundo real, potencialmente acadêmico, podia nos entregar.

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