Sobre a possível arte de conhe(ser) cidadãos

Por: Felipe Mello
01 Julho 2007 - 00h00

Certa vez, visitando um hospital público, vivi uma história. Em um quarto estava internado um senhor de 90 anos. Depois de uma conversa de quase 20 minutos, ele pediu para que eu chegasse mais perto do seu leito. Ao longo da conversa, ele não esboçou muitas reações. Mesmo assim, ele pediu que eu me aproximasse. Eu o atendi.

A definição de cidadania é o cuidado do indivíduo com o coletivo, a partir da percepção de que o ser interessante é aquele que é interessado. Cidadão é quem cuida da cidade e de quem a habita. Simples assim. Ainda, o exercício da cidadania é a prática de ser anjo, ser alado que cuida de gente.
Entre junho e julho estive em uma expedição social que visitou o Peru e o Chile, em companhia de Roberto Ravagnani, com quem coordeno as atividades sociais do Canto Cidadão. Foram viagens provocadoras, que permitiram o contato com povos que tiveram histórias parecidas com a que vivemos em terra brasilis. Trocando em miúdos, locais que derrapam há mais de cinco séculos tentando recuperar a sua unidade cultural e social, após invasões estúpidas que deixaram rastros de baderna e injustiça.
Desde já é preciso ficar claro que este texto não pretende fazer uma tabela em que conste o nome dos três países e aquilo que é bom em um e ruim em outro. Trata-se da percepção de um certo algo pairando no ar, e que embora ainda não tenha se traduzido em realidade prática e capaz de transformar a vida da maioria das pessoas nos dois países visitados, provocou em mim radiações promissoras. Algo praticamente intangível, embora semente de consciência coletiva de cidadania. Sinto falta disto no Brasil. Sinto falta de conhe(ser) cidadãos.

Ele demonstrava sinais evidentes de cansaço. Na alma. Ele pediu que eu chegasse ainda mais perto. Eu o atendi novamente. Quando estava bem próximo ao leito, ele esticou o braço e me pegou pela gravata. Levei um susto, e ele gentilmente me puxou para bem perto de si. Sua voz era fraca. Parecia que há tempos não tinha para quem contar o que quisesse contar.

Brasileiros estão cansados de viver o
déjà-vu de escândalos políticos. O que deveria ser a exceção virou o dia-a-dia, o lugar comum. Um senador é acusado, provas aparecem e ele renuncia covardemente. Estufa o peito e afirma que é por respeito aos eleitores. Daqui a pouco estará novamente desfilando o cinismo nos corredores do Congresso. Círculo vicioso. Hemorragia que faz o orgulho de ser brasileiro se esvair pelo ralo cívico.
Sócrates, filho de Fenareta, se anunciava como uma mosca sagaz que incomodava a vaca cansada que era Atenas. Onde estão as moscas de asas verde e amarelo? Quando vamos vencer a anodinia, ou seja, a indiferença que vem nos fazendo perder a capacidade de nos surpreender com as incongruências? E se o assunto é política, no seu melhor significado, que vem de pólis, a indiferença parece ganhar potência.
Iludidos que estamos pela crença de que velocidade é mais importante que direção, vamos caminhando sem checar em nosso cangote a sombra de hostilidade. Ser cidadão é aceitar o desafio de ser gentil em um mundo hostil. Gentileza que nada tem que ver com submissão. Nunca os dizeres de um certo Che foram tão necessários, pedindo pela mistura de ternura com firmeza transformadora.
Cuidado com o patrimônio histórico, limpeza nas vias públicas, paciência para as pessoas descerem do vagão para, então, subir sem atropelos, respeito aos assentos de passageiros com necessidades especiais, sensação de segurança permeando os transeuntes. São alguns indícios de que existe algo no ar nos países visitados.
Mais uma vez é preciso frear a leviandade da simplificação e da generalização, para afirmar que em terras peruanas e chilenas existe muito a se fazer pela recuperação pós-nocaute colonialista – cujas sementes perduraram por muitas gerações. Todavia, há um cheiro de cidadania no ar, que vai se embrenhando pelo organismo social, livrando aos poucos aquelas sociedades da poluição oportunista, o que pode fazer toda a diferença no resultado do porvir.

E daí o senhor me disse: menino, há 20 anos minha família me deixou. Acho que fui um bom pai. Mas um bom pai que não teve a chance de ver seus netos crescerem, porque me deixaram de lado. Isso me fez perder o encanto pela vida. Há 20 anos moro em um asilo. Há 20 anos ninguém me pergunta quem eu sou e de onde eu venho. Há 20 anos ninguém se interessa pela minha história, pelo que eu penso da vida. Parece que eu não vivi 90 anos. Quando a gente pára de contar nossa história, ela escapa de nós. E hoje você veio aqui, bem perto dos meus últimos sopros de vida. Veio e pergunta tudo isso pra mim. Tudo o que não me perguntaram nos últimos 20 anos. Você é o meu primeiro contato com o céu. Menino, você é um anjo. E vai prometer pra este velho que nunca, nunca mesmo, vai parar de levar esta dignidade pra gente como eu.

O artista renascentista Michelangelo entregou à humanidade a estátua de Davi, transformando um bloco sem forma em uma preciosidade de mais de quatro metros de altura, tudo feito com um simples martelinho. Quando lhe perguntaram como tinha conseguido tal resultado, ele respondeu sem hesitar que primeiramente observou a pedra e enxergou Davi. Depois, portando seu instrumento, foi até lá e tirou tudo o que não era Davi.
Aquilo que vem emperrando a construção de nossa obra de arte coletiva é a exclusão daquilo que não gera obra de arte. Definitivamente não existem governos socialmente responsáveis, tampouco empresas socialmente responsáveis. Existem, pura e tão somente, indivíduos responsáveis.
Luz, luz e mais luz. Foi o que pediu Goethe no momento de sua morte. A migração da ilusão de velocidade para direção correta virá com a iluminação individual. Talvez você, leitor desta revista que trata de questões ligadas ao desenvolvimento social, esteja iluminado sobre a necessidade do compromisso de cada um para o regozijo de todos. Não se trata de querer converter os já convertidos, mas, sim, de torcer para que a sua luz esteja transbordando para sombras vizinhas.
Vamos dar continuidade à missão de Prometeu, que roubou o fogo do Olimpo para distribuir aos mortais. Como punição, ele foi acorrentado no alto de uma montanha. Nós, por não alastrarmos o fogo da cidadania, estamos acorrentados dentro de casas equipadas por cercas elétricas, iludidos pelo ouro de tolo.

Vai com Deus, menino. Eu estarei com Ele daqui a pouco. E vou dizer que você está fazendo um bom trabalho. Ele vai te promover. Ao dizer esta última frase, o senhor estava sorrindo de maneira trigueira. Eu saí do quarto aos prantos por dentro. Lágrimas de existência. Quando passei pelo corredor dele uma hora depois, vi o seu corpo coberto com um lençol. Ele havia partido. Eu também parti naquele dia. Parti muito diferente do que cheguei. Eu havia conhe(sido) um anjo.

Nosso país é um senhor que há 507 anos sofreu uma intervenção violenta. Países vizinhos e próximos de nós também convivem com este histórico de saúde maculado. Há cura, e ela passa pela reciclagem do ar que respiramos. Como na história compartilhada ao longo do texto, é urgente ouvir as histórias de nosso país. É urgente conhecê-las. É urgente nos interessarmos pelo que é nosso.
Há um cheiro de cidadania no ar, que vai
se embrenhando pelo organismo social,
livrando aos poucos aquelas sociedades
da poluição oportunista, o que pode fazer
toda a diferença no resultado do porvir

Sair um pouco e voltar ao Brasil é uma excelente oportunidade de se apaixonar de novo e mais intensamente por este lugar. É hora de assumirmos nossas asas de anjos, olhar no espelho e conhe(ser) cidadãos. lugar. É hora de assumirmos nossas asas de anjos, olhar no espelho e conhe(ser) cidadãos.


Felipe Mello. Radialista, palestrante e diretor da ONG Canto Cidadão, fundada para produzir e democratizar informações sobre cidadania e direitos humanos.

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