“Reza braba” para trabalho de parto forçado

Por: Marcelo Torrecilas
01 Setembro 2003 - 00h00
Era uma vez um cronista em crise. Ele precisava criar um texto em meia hora para uma revista e o parto da idéia tinha tido todas as complicações que se pudesse imaginar, por exemplo: a criança não tinha virado.“Mas isso”, pensava o pobre escritor, agarrando-se a uma imagem de Santa Esperança da Idéia de Última Hora, “significa que ela ia nascer com o bumbum virado para a lua: vamos falar sobre pessoas e empresários que fazem ‘um montão’ pelo Terceiro Setor, porém, quando chegam em casa, rolam um barraco digno de Ratinho”.“Linda! A cara do pai!” Na verdade, o pai não tinha sido ele, o que piorava a coisa em muito, afinal ele era só o parteiro, e o cara estava esperando uma notícia... lá na sala dele... desesperado. A essas alturas, as coisas já estavam mais pra Linha Direta que para Você Decide.Voltando a se concentrar no que estava fazendo, o cronista começa a puxar uma perninha daqui, pensando em como falar para o cara continuar financiando aquele centro de coleta de lixo reciclável para ajudar os catadores de rua, sem dar sermão sobre a exploração dos próprios empregados. Coisa pra Márcia Gold-sei-lá-o-quê.Metia um fórceps ali, inventando certa personagem fictícia que é voluntário num orfanato, contudo descuida da educação dos próprios filhos – mas aí vai parecer dramalhão mexicano.Enxuga a testa, mede a pressão, calculando como dizer para aquele cara que destina um milhão em verbas da empresa para a assistência social, que não é para ele ficar bravo quando penduram um pacotinho de balas no seu retrovisor – como fazer isso sem ficar parecendo pegadinha do João Kleber?Massagem, respiração cachorrinho, empuuuuuuuurra! Vai pra Internet, zapeia a televisão, liga o rádio... nada... só tranqueira e infomerciais.Aquilo o deixa zonzo, a gastrite começa a ferver, ele se recosta na cadeira, olha para a gaiola pendurada na parede e começa a conversar com Elwyx, o passarinho que mora lá:– Tô ruim, passarinho!– Sabe o que você faz? Procure selecionar o que você vê com o mesmo cuidado com que escolhe o que come.– Ih! Mas eu só como porcaria!– Bom, então você tem dois problemas.– Tá... sei...– Pode parecer bobagem, assim logo de cara, mas os olhos também têm paladar. Quando se mergulha de olho aberto na piscina, a sensação é uma; no mar, é outra completamente diferente. No entanto, isso é só o equivalente à língua, que distingue salgado de doce, azedo etc. A coisa vai além: o que a gente come com os olhos não é digerido no estômago – vai tudo para o cérebro. E essa informação toda, quando chega lá, pode muitas vezes influenciar nossas atitudes.– Mas tem gente que realmente gosta desses filhotes de Aqui Agora!– Tem gosto para tudo e é por isso que você precisa selecionar, porque, às vezes, o que é gostoso não faz bem. Cuidado! Ainda não inventaram sal-de-fruta cerebral!E no meio desse delírio todo, a mágica acontece: nasce uma idéia!“Valha-me, Santa Esperança da Idéia de Última Hora, que a senhora é ‘porreta’ mesmo!”O escritor tem agora exatamente sete minutos para concluir a crônica. Ele tem uma mensagem importante para passar, já sabe como vai contar a história. O final não é muito conclusivo, fica meio no ar, mas faz um clique legal na cabeça dos leitores. Fim.
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