O rato que fez chover

Por: Felipe Mello
01 Setembro 2007 - 00h00

Este texto é formado de fragmentos e potencialmente confuso. Como um quebra-cabeça que vai se apresentando aos poucos na mente e sentimentos do autor, criando uma panela de pressão com um singelo respiro. E, como a relação com o leitor pretende ter mão dupla, o texto se torna ainda mais potencialmente confuso, porque outras peças se tornam disponíveis ao quebra-cabeça, e outras mentes e sentimentos são convidados a se pronunciar. Confusão, no melhor sentido da palavra, gerando um fuso que amplie o campo de visão.

Pensamento e palavra

Vygostsky é um estudioso que pesquisou as relações entre pensamento e linguagem. Ele criou uma metáfora ilustrativa. A nuvem sendo o pensamento, e a chuva, o que a linguagem apresenta ao mundo, por palavras, gestos e outras manifestações. A nuvem carregada é puro potencial chuvoso, mas nem sempre o resultado é uma torrente, ficando limitada por vezes a um gotejo tímido.

O pensamento é potente, mesmo em quem não o exercita amiúde. Existe terreno fértil. A colheita, entretanto, só pode ser conquistada com plantação e cuidado. Em mim, em você, em quase todos: muita nuvem e pouca chuva.

Certa vez, o roedor foi flagrado por um nobre senador. Situação constrangedora. Ambos estavam na penumbra. O rato tinha fome, o senador também.

Hamlet vive

Qual é a fala mais famosa do teatro em todos os tempos? Pense. Mais um pouco? Aposto todas as poucas fichas que tenho em “Ser ou não ser, eis a questão”. Será que só eu? Este monólogo escrito por Shakespeare entre 1600 e 1602 termina assim: “O pensamento assim nos acovarda, e assim é que se cobre a tez normal da decisão com o tom pálido e enfermo da melancolia. Empreendimentos de alto escopo e que bem alto planam desviam-se de rumo e cessam até mesmo de se chamar ação”. Em mim, em você, em quase todos: muita nuvem e pouca chuva.

Ambos se entreolharam com uma intimidade intrigante. Nenhum dos dois tinha provas de nada, e mesmo se tivessem não tinham interesse em deixar a luz entrar.

O que você quer ser quando crescer?

Certa vez o preceptor de Alexandre (o Grande) fez uma reflexão – entre inúmeras outras – mais ou menos assim: “O que faz algo medíocre se tornar especial é a vontade”. Aristóteles compreendeu que a chuva e a posterior colheita dependem da vontade, da maneira como cada um respira esta palavra que em latim é conhecida como “voluntas”, geradora da palavra luso-brasileira “voluntário”. É uma decisão. Voluntariar-se positivamente para a vida, em atitudes microcósmicas que sacodem o universo. E que a decisão de um número cada vez maior penda para o agir nutritivo, em detrimento do tóxico bloqueador de chuva que é a economia de amor.

Senador e rato andavam em círculos. Aqueles instantes posteriores ao encontro não planejado duraram tempo demais, e talvez tenha sido ruidoso, chamando a atenção de outrem.

Motilidade e mobilidade

A velocidade é intensa. Pessoas vão e vêm em um frenesi quase sempre despropositado. Pouca conversa com o espelho, para checar se a vontade que faz ir e vir vem puramente da necessidade de mobilidade ou se também tem relação com a motilidade. Duas palavras parecidas, mas que fornecem sentidos complementares. A primeira é o movimento externo, a ocupação dos espaços pelas nossas extremidades. Trabalho, tarefas domésticas, burocracias do dia-a-dia, estudo,viagens, trabalho voluntário e muitos outros itens que nos põe em movimento.

E a respiração? Inspiração? O ar que vem destas atividades está preenchendo o pulmão da alma, alimentando o movimento interno, a motilidade? Promove a vontade de evoluir no que se faz ou a maior motivação é apenas se livrar das obrigações, enquanto o suplício não recomeça? País forte é conseqüência de indivíduos fortes. E é forte quem respira bem.

Gritaria do lado de fora. Um contou para o outro que contou para mais outros. Roma toda falava sobre o senador que havia encontrado um rato. E pior, conversado com ele.

Unidade e uniformidade

Desconfie de qualquer receita que prometa resultados ótimos para quaisquer tipos de pessoas no que diz respeito ao desenvolvimento pessoal para o equilíbrio social. Toda ventania destes fragmentos de textos querem levar chuva para estes aspectos, pilares de uma estrutura essencial. Perguntas certas são muito mais eficientes para transformar nuvem em chuva do que respostas prontas. A unidade é desejada, e que a uniformidade seja condenada. Em um fértil oásis de culturas complementares como o Brasil, buscar um único meio de fazer certo é desperdício. A unidade é alinhamento de missão e direção.

Viva os diversos meios de fazer o bem. Eles conversam quando são sinceros. Portanto, desconfie de programas sociais que apenas dão dinheiro, pois é bem provável que o maior interesse seja uniformizar o voto nas próximas eleições. Revolução social só se faz de verdade com cultura. E não parece que está chovendo tanto nas escolas brasileiras, visto que no estado mais rico do país apenas 15% delas têm bibliotecas. Ô louco, meu! Imagine só nos compatriotas nordestinos e nortistas, por onde a chuva secularmente vem visitando apenas feudos.

A notícia se espalhou. Se um senador havia conversado com um rato, será que outros nobres representantes também não poderiam nutrir esta espécie de relacionamento escuro?

Protagonista entusiasmado

Voltemos aos gregos antigos. Alguém já disse que eles pensaram em tudo, e todo o restante é uma releitura. Enfim, deles vem uma palavra que se encaixa nesta reta final de fragmentos: protagonista. Sua origem semântica encontra-se no grego “proto” (o primeiro, o principal) e “agon” (lutador), em que o protagnistés era o ator principal do teatro, ou aquele que ocupava o lugar principal em um acontecimento. Estes sentidos da palavra mantêm-se na linguagem corrente e, assim, encontramos num dicionário da língua portuguesa o seguinte significado: “pessoa imprescindível em alguma atividade”.

Onde estão os protagonistas? Você é indispensável? Talvez ninguém seja no sentido pequeno da palavra, mas todos são quando o assunto é curar o mundo. Protagonistas entusiasmados: retornem das trevas! Acendam a luz! Entusiasmo é ter Deus dentro de si, qualquer que seja o “Ele” em que você acredita, essencialmente pelo desejo de evoluir que ele promove.

O assunto chegou ao imperador, pois estava gerando muitos comentários. Faria o máximo representante do povo parte da patota? Por via das dúvidas, ele tomou uma decisão: ou o rato ou o senador deveriam deixar o senado. E para desviar a atenção do povo: pão e circo.

Figuras sem linguagem

Pesquisando as figuras de linguagem, encontrei uma chamada oxímoro. O objetivo é harmonizar dois conceitos opostos numa só expressão, formando assim um terceiro conceito que dependerá da interpretação do leitor. Exemplos: “inocente culpa”, “silêncio eloqüente”, “ilustre desconhecido”, entre outros. Nos últimos meses, um local que deveria inspirar vontade de melhorar o país vem jogando contra. Se em 2006 a Câmara dos Deputados foi palco do obsceno e quase perdoado “mensalão”, em 2007 o prédio vizinho vem apresentando um ótimo oxímoro: “Comissão de Ética do Senado”.

Os dois suspeitos foram comunicados que um tinha de sair. O rato, envergonhado por ter sido taxado como parte do grupo, tomou uma decisão peremptória.

Riso de Neruda

Pablo Neruda é grande: “Tira-me o pão, se quiseres, tira-me o ar, mas não me tires o teu riso... e na primavera, amor, quero teu riso como a flor que esperava, a flor azul, a rosa da minha pátria sonora”.

Ainda que na escuridão, devemos plantar sorrisos em nós e nos outros. Eles iluminam. Formam a verdadeira dança da chuva, mãe que um dia poderá acariciar os filhos deste solo, pátria amada Brasil.

Decidiu não conviver em um ambiente tão escuro. Ia buscar pão na rua, já que o imperador estava oferecendo. Juntou seus trapos e, quando cruzava a porta pela última vez, suspirou.

Decidiu não conviver em um ambiente tão escuro. Ia buscar pão na rua, já que o imperador estava oferecendo. Juntou seus trapos e, quando cruzava a porta pela última vez, suspirou.
Entusiasmo é ter Deus dentro de si, qualquer que seja o “Ele” em que você acredita, essencialmente pelo desejo de evoluir que ele promove

Felipe Mello. Radialista, palestrante e diretor da ONG Canto Cidadão, fundada para produzir e democratizar informações sobre cidadania e direitos humanos.

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