O inferno são os outros

Por: Felipe Mello
01 Maio 2008 - 00h00

O filósofo existencialista francês Jean Paul Sartre (Paris, 21 de Junho de 1905 – Paris, 15 de Abril de 1980) escreveu uma peça de teatro com o título “Huis Clos”, em português traduzido como “Entre quatro paredes”. Nesta obra, três personagens estão confinados em um ambiente fechado – segundo o autor, estão no inferno e cada um é o carrasco dos outros dois –, posteriormente ao episódio de suas próprias mortes.

Deste local, eles têm a oportunidade de visualizar cenas de seus próprios funerais, acompanhando quem prestou as últimas homenagens, quais foram os comentários e assim por diante. Também durante este momento de confinamento, os três começam a conversar e, a partir destes diálogos, surgem argumentos, hipóteses, críticas, dúvidas e teses acerca das relações humanas. O clima ganha ares de tensão, e o maior objetivo de todos é sair daquele local. Afinal de contas, “o inferno são os outros”.

A máxima imortalizada nesta obra de Sartre é, e deverá ser por muito tempo, atual, especialmente no que tange às responsabilidades sociais, foco deste texto. O esporte predileto de uma quantidade incrível de cidadãos é a “empurroterapia”, técnica pela qual transferimos a “culpa” de todo e qualquer desajuste da comunidade para outrem. Felizmente tal sorte de traquinagem só habita a área social (?!).

O poder imagético do leitor criará em sua mente esta cena proposta: os personagens originais da peça substituídos por outras três pessoas: os três setores (governo, empresas e ONGs). Que reflexões fariam este trio ao observarem, do claustro, o Brasil?

“Nunca se é homem enquanto não se encontra alguma coisa pela qual se estaria disposto a morrer” (Sartre)

Os três personagens de nossa história adaptada ficariam por um tempo observando o que estava acontecendo lá embaixo. Afinal de contas, haveria de ser interessante contemplar a morte do Primeiro, Segundo e Terceiro setores. Que caos! Fim dos governos, empresas e iniciativas da sociedade civil organizada. Mas, como quase tudo na vida, eles perderiam o interesse na observação passiva e se voltariam uns para os outros, ávidos por esclarecerem os motivos daquelas mortes e o conseqüente prejuízo que o país teria com o abandono repentino de suas estruturas formais.

Imponente, o governo se levantou, pigarreou, procurou no bolso do seu terno Armani as folhas de seu encomendado discurso e, não as encontrando, decidiu falar de improviso. Tartamudeou muito antes de pegar no tranco; afinal de contas, há tempos não falava sem discurso preparado, pois espontaneidade de verdade requer sinceridade.

Iniciou seu palavrório falando de tudo o que já tinha feito pela nação, das conquistas democráticas, da união nacional, do momento mágico que estava acontecendo, nunca antes visto na história do país. A mensagem mais forte do Primeiro Setor era que ele estava sempre certo, e que qualquer deslize no desenvolvimento do país deveria ser creditado à falta de apoio dos outros, quem quer que sejam eles. Sem dúvida alguma era um discurso potente, especialmente quando dirigido a uma platéia passiva e portadora de cartões sociais que davam direito a dinheiro todos os meses. Mas o público daquela sala era diferente. Não eram carpideiras.

“Detesto as vítimas quando elas respeitam os seus carrascos” (Sartre)

O Terceiro Setor não se conteve frente ao descaramento do Primeiro. Era tão simplório o argumento de que tudo vai bem desde que o mundo atenda aos nossos direcionamentos. E, então, ele começou a discorrer sobre as questões estruturais do país. Afinal de contas, de que adiantava aquecer a economia no curto prazo – com a distribuição do cachê às carpideiras –, se as bases ainda estavam capengando? Educação com resultados pífios em termos qualitativos, como por exemplo em São Paulo, onde as escolas estaduais ficaram com média 1,4 no Índice de Desenvolvimento da Educação de São Paulo (Idesp).

O Terceiro Setor ironizou ainda ao lembrar que se a unidade federativa mais rica estava assim, o que se poderia esperar de outros rincões do país. E as acusações não pararam! Com veias saltadas, ele praticamente generalizou a epidemia da corrupção e incompetência no trâmite das reformas indispensáveis, que vinha se repetindo há gerações de representantes públicos. Ainda que o governo fosse composto de três braços, verdadeira competência e liderança se dão quando se cria sintonia entre quem legisla, quem executa e quem julga descaminhos.

“És livre, escolhe, ou seja: inventa” (Sartre)

O momento mais tenso do debate ainda estava por vir. Após ouvir todas as acusações do Terceiro Setor, o Primeiro apenas ergueu uma das sobrancelhas e, com aquele tipo de voz carregada de ironia, disse que o país era democrático graças a Deus, e que se os representantes públicos estavam lá, geração após geração, escândalo após escândalo, era porque o cidadão assim o desejava. Então, olhou firme nos olhos do Terceiro Setor e pediu para ele dormir com este barulho, porque eram os seus integrantes que elegiam os tais incompetentes e desonestos.

Aquelas palavras desceram como ácido pela garganta do Terceiro Setor, e, se não fosse a intervenção do Segundo, a sala viraria ringue de boxe. Enquanto o “deixa-disso” acontecia, era possível ouvir o ofendido gritando que a maioria da população era politicamente inconsciente e que o Terceiro Setor existia exatamente para reverter este quadro de bovinismo eleitoral. O Primeiro Setor ouvia e dava gargalhadas, insinuando calmamente que tudo aquilo só reforçava o quanto o Terceiro Setor ainda era inócuo, porque se voltava para seus projetos narcisistas e nem ao menos conseguia ser uma escola de formação de cidadãos – seu verdadeiro papel – para romper com aqueles grilhões que estavam sendo apresentados.

“Quando os ricos fazem a guerra, são sempre os pobres que morrem” (Sartre)

Depois de alguns instantes, o Segundo Setor conseguiu colocar pano quente no imbróglio entre os outros dois. Era fundamental que eles parassem de se estranhar; afinal de contas, as duas pontas eram indispensáveis para o seu bem-estar. De maneira institucional e repleta de pompa, o Segundo Setor proferiu palavras de parceria e ética, lembrando aos outros dois que era preciso investir cada vez mais em desenvolvimento humano, tecnologia e abertura de novos mercados. Lembrou os preceitos máximos das teorias econômicas, que profetizaram a ampliação do bem-estar coletivo pelo avanço dos meios de produção.

Naquele momento ele se sentia o dono do pedaço. O Terceiro Setor estava com dores nas cordas vocais de tanto gritar e com a moral ofendida em seu íntimo, pois sabia que havia muita verdade no que o Primeiro Setor dissera a seu respeito. O Primeiro Setor, por sua vez, estava recolhido a um canto da sala, torcendo para não mais ser envolvido nas discussões. Ele havia decidido responder a todas as acusações com a tese de que não sabia de nada e que apenas queria que os outros o deixassem trabalhar.

Todavia, no auge do discurso quase onipotente do Segundo Setor, uma voz invadiu a sala. Toda aquela verborragia de responsabilidade social seria desmontada em instantes. Como era bastante ponderada, a grave voz não generalizou, mas citou apenas um exemplo que certamente refletiria o comportamento da grande maioria dos habitantes do Segundo Setor.

Será que a direção de uma empresa enorme e lucrativa não sabe que a produção da matéria-prima dos seus produtos, como por exemplo, o tabaco, é feita com a participação maciça de crianças? E que a realização dessa tarefa impregna o organismo dos rebentos com níveis de nicotina tão altos quanto as de um adulto fumante? Será que o diretor daquela empresa oferece cigarro ao seu filho de quatro anos, enquanto ele assiste ao canal de televisão paga?

Só existe uma punição para este tipo de gestão empresarial, que patrocina e faz ouvidos de mercador à desgraça na cadeia produtiva: criminalização com penas severas, assim como pagam caro gestores que fazem mau uso dos recursos financeiros dos acionistas, como no caso da estadunidense Enron.

Silêncio sepulcral na sala. A voz se despediu convidando os três a se olharam, se conhecerem melhor, pararem com hipocrisias e vaidades e realmente se darem as mãos. Era o único modo de ressurreição. Afinal, se o inferno são os outros, o paraíso também são outros.

“O importante não é aquilo que fazem de nós, mas o que nós mesmos fazemos do que os outros fizeram de nós” (Sartre)

Felipe Mello. Radialista, palestrante e diretor da ONG Canto Cidadão, fundada para produzir e democratizar informações sobre cidadania e direitos humanos.

 

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