Missão, o principal ob jetivo das organizações

Por: Dal Marcondes
01 Julho 2009 - 00h00

“O lucro não pode ser o objetivo de uma empresa, é apenas um dos componentes para que a ela atinja sua missão”. À primeira vista, esta frase pode parecer um tanto despropositada em um mundo onde o lucro, o ganho de capital e a remuneração dos acionistas são vistos como valores absolutos em algumas empresas e por muitas pessoas. Mas vamos pensar um pouco em termos de processo histórico. As empresas estão assumindo um papel absolutamente protagônico no processo civilizatório do século 21. São, muitas vezes, maiores do que Estados independentes, e algumas têm mais poder e dinheiro que a maior parte dos países.

O processo civilizatório global tem algumas etapas. Na primeira, o início da organização dos homens em sociedade, as religiões reuniram os povos em torno de valores éticos e religiosos. Tal forma de organização ofereceu à humanidade um senso de justiça. Depois, a necessidade de uma união mais complexa, que permitisse a defesa de grupos humanos contra outros, levou à formação de governos. Daí à construção de nações e impérios foi um passo.

No entanto, nos dias de hoje, nessa etapa do processo civilizatório em que o capital assume um papel decisivo e as empresas impactam a sociedade de forma quase absoluta, é o momento de pensar qual é o papel das empresas na construção da sociedade dos próximos séculos. Aos poucos, mesmo ainda sem perceber a profundidade dessa mudança, as empresas estão definindo suas missões.

Pode-se ler em relatórios financeiros e socioambientais a missão de muitas empresas. Ora, nenhuma empresa que se preze pode ter como missão apenas dar lucro aos acionistas. Isso é postura de traficante de drogas.

As igrejas sempre arrecadaram o dízimo, uma décima parte dos rendimentos de seus fiéis, para manter suas atividades. Apesar de o dízimo ser importante para que fossem construídas catedrais, monumentos e obras por parte dos sacerdotes, recolhê-lo não é a missão de nenhuma igreja, mas apenas parte do processo para que a organização cumpra sua missão de levar conforto espiritual a seus seguidores, ou coisa semelhante.

Os governos arrecadam impostos. No entanto, não é a missão de nenhum governo arrecadar imposto. Esse dinheiro deve servir para que sejam cumpridos diversos compromissos delegados pela sociedade, como prover os cidadãos de infraestrutura, educação, saúde, segurança e Justiça. Nem todos os governos fazem isso com qualidade, mas a questão fundamental é que nenhum governo existe apenas para cobrar impostos de seus cidadãos.

E as empresas? Elas existem para dar lucro? Apenas isso? No início, as religiões e os Estados também não tinham suas missões claras. Havia abusos nas relações com fiéis e cidadãos. Os exemplos mais gritantes foram a Inquisição da Igreja Católica e as ditaduras sangrentas que chegaram ao poder em quase todo o mundo. Mas, aos poucos, essas instituições foram evoluindo. Hoje certamente não há mais espaço para “caças às bruxas” no Ocidente, assim como ditaduras não são aceitas com tanta complacência. Exceto, talvez, pela maneira insensata com que algumas empresas e governos flertam com a China, um regime autoritário e sem um sistema jurídico equilibrado.

Bem, exceto na China, como as empresas estão evoluindo em direção ao capitalismo sustentável? Em princípio, respeitando legislações cada vez mais rigorosas sob o ponto de vista ambiental e social. Também por meio de controles estabelecidos por normas de governança corporativa exigidas pelas bolsas de valores de todo o mundo.

As grandes empresas globais e as maiores companhias de atuação nacional já não podem mais trabalhar sem uma missão, e essa missão está quase sempre ligada à satisfação de seus clientes e à perenidade de seu negócio. Poucas ainda inscrevem a remuneração de seus acionistas entre os itens da missão. A evolução das empresas deverá levar o elemento cidadania à relação com os consumidores.

Nas escolas de negócios há uma máxima que diz: “É sempre melhor e mais fácil vender mais para os mesmos”. Foi em cima dessa frase que o mundo acelerou os processos de desigualdade. “Mais para os mesmos” é quase igual a “nada para os muitos que nada compram”. Hoje, muitas empresas estão descobrindo que vender pouco para muitos é mais democrático e sustentável. Dessa forma, é possível espalhar os benefícios da ciência, da tecnologia e da produção em massa para uma parte maior da humanidade.

Novos problemas surgem com essa mudança de paradigma. Mais consumo também representa mais impacto ambiental e, pela lógica de demanda, maior preço. Mesmo que se saiba que o aumento de produção reduz preços. No entanto, se a ótica for cumprir uma missão, e não apenas ter lucro a qualquer preço, as empresas e governos podem se ajudar a construir modelos de negócios dentro desses novos paradigmas.

Muitos economistas e executivos que atuam em empresas e governos não acreditam que seja possível mudar os paradigmas enraizados do mercado. No entanto, sob uma perspectiva histórica, o mercado não é tão antigo ou poderoso assim, e a revolução industrial ainda não tem três séculos. A energia elétrica para todos tem menos de 50 anos, e o carro da família só chegou à classe média nos anos 1960 do século passado. Antes disso, era coisa para as elites, principalmente no Brasil e na América Latina.

É verdade que consumidores precisarão mudar suas expectativas para que se consiga alterar a forma de usar o mundo. Os limites de uso da Terra estão estabelecidos, e qualquer aventura pelo espaço em busca de novos mundos para a humanidade ainda será ficção científica por alguns séculos mais.

A compreensão de que não é preciso parar de consumir bens essenciais, mas que é uma bobagem continuar a produzir e consumir lixo, tanto para as empresas como para consumidores, é fundamental. E as empresas são estruturantes neste passo do processo civilizatório.

A missão não pode ser produzir cada vez mais lucro. A missão deve ser produzir cada vez mais riqueza e bem-estar para a sociedade, garantindo as condições de perenidade do negócio e da vida.

Dal Marcondes é diretor de redação da Envolverde, recebeu o Prêmio Ethos de Jornalismo em 2006 e 2008 e é Jornalista Amigo da Criança pela Agência Andi de Notícias.

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