Invisibilidade Urbana

Por: Revista Filantropia
01 Setembro 2002 - 00h00
Numa cidade grande existem milhares de pessoas, cada uma levando a sua vida, cada uma construindo a sua história, vivendo seus dramas, suas paixões, seus problemas... Todos fazendo o possível para viver e continuar vivendo. Muitos sentem-se sozinhos em meio a essa multidão, sem olhar para o lado e ver quem os acompanha na caminhada. Andando para lá e para cá, cada um com um destino certo, cada um em direção ao seu destino, e todos achando que sabem exatamente para aonde estão indo.

Essa história não é sobre ninguém especial, muito pelo contrário, é sobre alguém nada especial, uma pessoa que faz parte de um grupo que já se tornou parte da paisagem de todas as cidades grandes. Eles são marginalizados e esquecidos, por mais presentes que estejam. Em qualquer lugar e em todos os lugares, com certeza você vai encontrar um deles. E vai ignorá-lo, como se ele não estivesse ali.

Seu nome não interessa, é apenas um mendigo, um “invisível”, que vive da caridade alheia, que fez bons amigos durante a vida, mas divide a cachaça entre poucos. Um dia acordou com mais frio do que de costume. Sentou-se, olhou ao redor, viu seus “vizinhos” ainda dormindo, amontoados para evitar a brisa gelada da manhã de inverno. Lentamente, levantou-se e, sem tirar o velho e surrado cobertor de cima de seu velho e surrado corpo, começou a caminhar.

Algo de diferente o impelia a continuar andando, uma sensação estranha que jamais havia sentido antes, algo que o fez parar diante de um enorme edifício. Hesitou por um instante e entrou pela portaria, olhando fixamente para a cara do guarda que, sem mudar uma ruga do rosto de lugar, continuou em sua posição, impassível diante do intruso. Alguns passos pelo saguão e parou diante do elevador, apertou o botãozinho e esperou. Ficou pensando: “O que diabos está acontecendo?” Quando as portas se abriram, algumas pessoas começaram a sair, sem sequer erguerem os olhos para a figura deslocada. Boquiaberto, perplexo mesmo, entrou no elevador e, sem entender o que estava escrito naqueles botões, apertou o que estava mais alto.

Discretamente balançou o corpo com a música que tocava enquanto subia. Com um agradável “Plim”, as portas se abriram e ele saiu para um novo saguão, todo decorado com plantas exóticas. O chão mais parecia um espelho. Olhou para o seu lado direito e viu uma enorme janela. Foi olhar de perto. Colou o nariz e espalmou as duas mãos na vidraça. Dali conseguia ver quase toda a cidade, inclusive o magazine, de onde acabara de vir. Enxergou até o vigia acordando seus companheiros. Será que alguém, alguma vez, reparou nessa cena, rodeado de tanto luxo? Achou que não. Voltou a caminhar pelo chão de espelhos, vendo a sua própria imagem refletida. Debruçou-se no balcão e olhou fixamente para o rosto da linda recepcionista sentada confortavelmente em sua cadeira. Pela primeira vez teve medo. Talvez sua excursão terminasse ali mesmo. Mas a moça simplesmente sorriu para ele e...

- Bom dia! Posso lhe oferecer um cafezinho?

- (hesitante) Pode sim... Quer dizer... Eu gostaria muito! “Brigado”! Por favor...

- (apontando para o sofá) O senhor pode ficar à vontade e aguardar a chamada.

- (quase que suplicando) Será que eu poderia usar o banheiro?

Sem tirar o sorriso dos lábios apontou uma porta no canto da sala. Ele não conseguia lembrar de alguma vez ter entrado em um lugar tão bonito. Jogou de lado o cobertor e sentou-se no vaso enquanto admirava-se com a decoração do toalete.

Numa cesta muito bonita, logo à sua frente, um punhado de jornais do dia, impecavelmente arrumados. Fez menção de pegar um, mas notou ao seu lado um rolo de papel higiênico. Meio sem jeito, puxou as folhas macias e perfumadas e limpou-se.

Levantou e olhou-se por alguns instantes no espelho iluminado. Lavou as mãos e o rosto, passou um pouco do sabonete líquido embaixo dos braços, deu um sorriso para si mesmo e percebeu a falta de alguns dentes entre outros tão maltratados. Saiu.

Sentou-se no sofá e logo uma senhora gorda, com um uniforme impecavelmente engomado, estendia em sua direção uma fina xícara de porcelana cheia de café, quentinho e fumegante, como há muito não via. Agradeceu com um simples movimento de cabeça e “mergulhou”.

Quando acabou, abandonou a xícara no chão, olhou para a recepcionista, absorta em seus afazeres e olhou mais uma vez para seu rosto refletido no chão. Uma sensação agradável percorreu-lhe o corpo como um arrepio. Bem devagar, foi se acomodando no sofá... Macio... Confortável... Puxou o cobertor até os ombros e deixou que o sono lhe viesse. Lembrou-se de sua mãe, seus irmãos, sua família, seus amigos. Como ele queria que eles o vissem ali, deitado em um sofá na cobertura de gente bacana. Um sorriso lhe escapou pelo canto da boca.

Os pensamentos foram aos poucos desaparecendo. Uma última coisa lhe passou pela cabeça:

- Obrigado meu Deus, por me deixar morrer assim.

E morreu.

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