Dona Ivete

Por: Instituto Filantropia
10 Novembro 2014 - 23h33

Sobe, desce, contorna, escada, outra escada, ruas desertas...
Eram cinco da manhã e Dona Ivete já estava pronta para o dia que ainda nem havia amanhecido.
Trabalhava de sol a sol para cuidar dos filhos e das filhas que o destino tornou seus, eram oito.
Os mais velhos, que não eram assim tão velhos, ajudavam no cuidado com os pequenos, não por obrigação, mas porque aprenderam com a Dona Ivete, logo que as mães se foram, que o importante na vida é amar o outro sem esperar nada em troca.
A missão de educar oito criaturinhas não era simples, mas a avó carregava todos os dias na bolsa que seguia pendurada no ombro, além do comer, um caminhão de sonhos e uma tal esperança que muitas vezes tentou se perder por caminhos que Dona Ivete nunca deixou.
Na casa simples de paredes amarelas era um burburinho sem fim. Tinha sempre uma boneca ou um carrinho sem rodas na passagem das pessoas. Eram incontáveis pares de meias e camisetas do uniforme da escola que, pendurados no varal, mais pareciam bandeirolas da festa de São João. Um zum zum zum o dia inteirinho que só cessava à noite, quando a avó ralhava com eles, porque já passava da hora de dormir.
No dia das mães sempre tinha uma festa. Apesar de as filhas fazerem uma falta danada, a barulheira da molecada para entregar os presentes decorados na aula de educação artística supria qualquer ausência.
Quando um dos pequenos, por curiosidade, perguntava pela mãe, Dona Ivete mirabolava uma história feliz na qual, no fundo, ela mesma gostaria de acreditar.
No fim de semana, sempre que era possível, colocava uma roupa bonita nas crianças e saíam para dar uma volta, fugindo um pouco da rotina da comunidade.
Certa vez, num domingo, resolveu abrir mão das economias do mês e levar a criançada para uma rodada de sorvete no shopping center, que não ficava muito longe dali.
A alegria foi geral! O ambiente era tão atrativo que parecia impossível controlar o frenesi dos pequenos, que se encantavam com os brinquedos das lojas, com os balões coloridos e o cheiro da pipoca doce do cinema.
Foi um corre-corre quando, no último degrau da escadaria que dava para o segundo andar, percebeu que faltava um. Julião, que havia se distraído com o malabarista em frente a uma tenda de brinquedos, tinha ficado para trás. Por um segundo, achou que tinha perdido o garoto, que susto!
O dia foi longo. Depois do sorvete e de muito andarem pelos corredores do estabelecimento, quando não lhe restava mais nenhuma energia, Dona Ivete decidiu juntar todos para voltar pra casa.
As crianças pareciam satisfeitas, falavam em voz alta e gesticulavam para todos os lados, estavam felizes.
Quando faltava pouco para cruzarem a porta de saída, mesmo sem tirar os olhos da molecada, a avó percebeu que alguém os seguia. Primeiro, achou que era impressão sua. Depois viu que não.
Notou que era um sujeito alto de cabelos bem-assentados, vestia branco.
Ficou meio assustada e tentou aproximar os netos, supôs que talvez um deles tivesse aprontado alguma peraltice, provavelmente seria questionada. Tratou logo de apressar a criançada.
O rapaz continuou a persegui-los, apertou o passo, correu um pouquinho mais e conseguiu, enfim, tocar o braço dela. Parecia emocionado.
Dona Ivete, muito confusa e desconcertada, tentou fugir, muitas coisas passaram pela sua cabeça. Achou que o moço estava enganado, que certamente a confundira com outra pessoa. Só que ele não estava...
O fato é que ela não se lembrava mais do menino franzino de cabelos encaracolados que, quando pequeno, encheu de mimos e cuidados. Tinha sido sua babá e até sua mãe, em momentos que a de sangue não podia ser.
Dona Ivete fazia parte da história daquele rapaz. Em suas recordações de infância, ela sempre estava presente.
Por muito tempo ele a procurou. Seu pai, que agora sofria com doenças da velhice, precisava dos cuidados daquela senhora e não havia ninguém mais neste mundão de Deus que pudesse substituí-la. E disso o homem de branco tinha certeza.
E foi assim que a história da Dona Ivete seguiu por outros caminhos.
Depois disso, ela não precisou mais acordar às quatro da manhã. Sentia-se importante. Recebia agora uma boa quantia para fazer aquilo que a vida lhe ensinou bem.
Dona Ivete estava feliz. Do futuro ela desejava, acima de qualquer coisa, continuar com seus netos em sua incansável missão de ser mãe. O destino se encarregaria de acertar todas as outras coisas, como sempre tinha feito.

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