Na década de 1980, a Comissão Mundial para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento definiu pela primeira vez o conceito de sustentabilidade. De acordo com a organização é o “desenvolvimento que dá respostas às necessidades do presente, sem comprometer a capacidade de as gerações futuras darem respostas às suas próprias necessidades”. Trata-se, portanto, da manutenção econômica, ambiental e social.
A inclusão da cultura nesse sistema aconteceu somente em 2001. A inserção foi uma iniciativa do australiano Jon Hawkes, a partir do lançamento do livro The Fourth Pillar of Sustainability – Culture’s essential role in public planning (O Quarto Pilar da Sustentabilidade – o papel essencial da cultura no planejamento público, sem tradução para o português). Na obra, o autor destaca “a importância primordial da cultura e seu valor inestimável para avaliar o passado e planejar o futuro”. A ideia recebeu o apoio de diversos especialistas e inseriu oficialmente o tema na discussão.
“É muito importante ressaltar que hoje em dia há uma tendência de segmentação de conceitos – como sustentabilidade ambiental, sustentabilidade cultural, sustentabilidade de consumo etc. – mas, apesar do foco das ações de acordo com cada caso, o estabelecimento de metas e prioridades, o planejamento e a aplicação do desenvolvimento sustentável, ainda assim, não se deve deixar de pensar em todos os aspectos que o envolvem”, declara Alice Junqueira, assistente de projetos e comunicação da agência cultural COM TATO, parceira do Instituto Jatobás, que investe em ações de desenvolvimento sustentável.
No Brasil, a sustentabilidade da cultura depende fundamentalmente das leis de incentivo fiscal. No entanto, a maior parte das iniciativas sobrevivem da chamada indústria cultural. Dessa forma, há mais ações para a ponta da cadeia do que para a base. Outro fator determinante que impede o seu desenvolvimento é o fato de a população ainda não ter o hábito de frequentar atividades ligadas à área. É preciso investir no nível estratégico (definição de políticas, programas e ações culturais), e também no instrumental (ferramentas de aplicação das estratégias).
Segundo a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), “a afirmação das culturas, assim como o conjunto das políticas que foram postas em prática para seu reconhecimento e viabilidade, constitui um fator essencial no desenvolvimento sustentável das cidades e territórios no plano humano, econômico, político e social”. A organização ainda aponta alguns pontos sociais que podem ser abordados pela perspectiva cultural:
Para a consultora internacional Lala Deheinzelin, “o Brasil possui um imenso potencial, mas a falta de informaçãode lideranças empresariais e governamentais resulta numa triste receita da culinária nacional: estamos fazendo canja com galinha de ovos de ouro. Isso acontece cada vez que perdemos a oportunidade de inovar, agregar valor e competitividade através de investimentos em produtos e processos que tenham na cultura o seu diferencial.”
Por ser um elemento social, a cultura faz parte de toda e qualquer iniciativa promovida pela sociedade. Sua relação envolve questões individuais que estimulam o desenvolvimento pessoal, a confiança e a autoestima. Ela ainda permite desenvolver habilidades criativas e gerar fontes de trabalho, saúde e bem-estar. Nos aspectos coletivos destacam-se a cidadania, o sentimento de comunidade e pertencimento, o intercâmbio cultural, a integração e as conexões entre grupos, além da capacidade
de organização e iniciativas comunitárias.
“Temos a péssima tendência de pensar na forma, e não na função. Por exemplo: reciclamos lixo, mas não pensamos na reciclagem de talentos e pessoas. Ou pensamos na revitalização arquitetônica de zonas urbanas, mas em nenhum processo de revitalização de processo humanos (como capacitação), que será a chave para tudo aquilo que foi feito na arquitetura funcione. Investir no humano é a chave para todo o resto”, conclui Lala Deheinzelin.
O Centro Max Feffer Cultura & Sustentabilidade estimula a participação da comunidade nas ações e na definição da programação cultural. O Projeto de Arte Coletiva, por exemplo, alia cultura e educação. As atividades desenvolvidas no centro têm como objetivo contribuir para a formação da sociedade, além de valorizar as especificidades culturais. A ação ainda permite reconhecer
as iniciativas e relacioná-las com expressões de outras localidades.
Segundo Alice Junqueira, “todo o trabalho é realizado através de um processo participativo, democrático e inclusivo. A ação é fundamentada no entendimento e na incorporação dos conceitos de desenvolvimento sustentável nas práticas pessoais, comunitárias e das organizações, sempre respeitando e atendendo às expectativas e interesses de todas as partes envolvidas”.
Ações de sensibilização e articulação entre os componentes da sociedade (governo, ONGs, empresas, população etc.) são fundamentais para estimular a cultura sustentável. É o caso do projeto Redes de Desenvolvimento Local, promovido pela Federação das Indústrias do Estado do Paraná (Fiep). Na iniciativa, a comunidade realiza o planejamento das atividades em prol da região. O engajamento é essencial para que a rede de colaboração aconteça e deixe legados para as futuras gerações.
De acordo com Rodrigo da Rocha Loures, presidente da Fiep, “o principal benefício do desenvolvimento local é o alcance do bem-estar, para a melhora da qualidade de vida. E não há qualidade de vida sem sustentabilidade. Um mundo insustentável é necessariamente um mundo que não dá as condições de vida adequadas à população, e aí também entra o componente cultural. O desenvolvimento local tem por objetivo a melhora da qualidade de vida das comunidades, respeitando todas as suas características
próprias, inclusive as culturais”.