All star vermelho

Por: Instituto Filantropia
23 Janeiro 2015 - 01h05

Ainda com os olhos fechados, tateou a cabeceira da cama e desligou o despertador. Resolveu que iria desligar mesmo — naquela manhã, abandonaria a tática da soneca. Mudou de posição e suspirou, sonolenta. Pela primeira vez na vida, iria acordar à hora que quisesse sem peso na consciência.
Bateu o ponto às 10h45min da manhã sob olhares incrédulos. De All Star e sem maquiagem, ainda balbuciando “À palo seco”, caminhou com seus passos firmes até sua sala, cumprimentou seus colegas de trabalho e sentou-se à mesa disposta a bisbilhotar os sites de notícia. Inspirou o clima de perplexidade junto com a atmosfera de que tudo o que é sólido desmancha no ar. Aquilo lhe encheu os pulmões e trouxe uma sensação de satisfação inimaginável. E esperou...
Segundos depois, a secretária do “Todo-Poderoso” apareceu diante dela, afobada. Mas, naquela manhã, o tempo para ela estava em modo slow motion. Por isso, os segundos foram vivenciados como longos e prazerosos minutos. E, ao observar o desespero da secretária, sentia vontade de gargalhar, mas conteve-se. Ouviu atentamente o pedido agoniado de comparecer com urgência na reunião marcada para aquele dia às 8 horas, com sua presença e participação determinantes.
Fechou os olhos por segundos sem tentar esconder o prazer que sentia ao ver como seu chefe e sua cambada a olharam depois de 2 horas e 48 minutos de atraso. Sentou à mesa com os cotovelos apoiados nela e as mãos cruzadas, segurando o queixo. Fez questão de olhar no olho de cada um ali a censurar e julgar. Entrou num dilema mental tentando decidir qual sensação queria desfrutar mais intensamente: indiferença pelo grupo sentado em torno dela, que se autointitulou a vanguarda do mundo; superioridade, pois a mesquinharia era tamanha, não permitindo à mesquinhez desvelar seu egocentrismo; ou deleite, porque queria ver com seus próprios olhos a superioridade enterrá-los. Sorriu com malícia ao quinto, sentado da esquerda para direita. Era ele quem mais a subjugava. Voltou sua atenção ao chefe e sorriu, sorriu com seu riso mais debochado e discreto e deixou seu olhar falar. A reunião recomeça. E ouviu...
Ela deveria conduzir aquele encontro. Deveria apresentar ideias, táticas, estratégias, linhas de ação, planos, proferir a ideologia, conduzir, liderar. Mas não. Aguardou ansiosamente ser questionada. Quando foi, inclinou orgasticamente a cabeça para trás, com um sorriso mostrando os dentes, escorregando ainda mais o corpo na cadeira. Constatou que seu corpo estava confortavelmente esparramado, com todos os olhares compenetrados nela e seu chefe segurando a respiração ao esperar sua resposta. O silêncio na sala era avassalador. E falou...
Não. Naquela manhã, não esperassem nada dela, assim como não esperassem nada de ser humano algum. Não. Naquela manhã, ela seria mais um, seria da massa. Não. Naquela manhã, a ideia não seria criativa, não seria o que esperavam dela; simplesmente, foi inovadora: seria senso comum. Não. Naquela manhã, quis surpreender: a tática, o plano de ação, a estratégia seria deixar a historia seguir seu curso. Aconselhou, com olhos arregalados e voz de sabedoria, que a roda da história se encarregaria de tudo. Não. Naquela manhã, o plano era não conduzir tão ferrenhamente, era liderar sorrateiramente, era induzir as pessoas, persuadi-las a fazer o que elas achassem melhor, e não o que eles queriam de fato. E observou...
O silêncio destruidor tomou conta da sala. A mesa balançava com o chacoalhar das pernas ao expressar a tensão muda. Estava entorpecida com o que via e sentia. Respirou fundo e proferiu...
Um espectro ronda a humanidade... a história de todas as sociedades que existiram até nossos dias tem sido a história do salve-se quem puder. Quem pode se salvou e, com unhas e dentes, manteve o que pôde. Degolem todos, foi o exigido pelo grupo ali presente. Com sua tranquilidade mórbida, falou... Não. Naquela manhã, não faria absolutamente nada a não ser executar ipsis litteris o que fosse decidido pelos homens e mulheres. E suspirou perseverante...
A Revolução foi embora naquele momento, satisfeita consigo mesma. Ela havia começado naquela manhã, quando ignorou o despertador. Com os fones no ouvido, cantou sem pudor que, assim como Belchior, aquele amigo que embarcou com ela cheio de esperança e fé já se mandou, oh! oh! oh!
Decidiu não pensar em nada. Antes de esvaziar a mente, pensou como seu velho: se o homem é formado pelas circunstâncias, será necessário formar as circunstâncias humanamente. E não pensou...

 

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