Entre Muros E Pontes, A Ética

Por: Felipe Mello
07 Julho 2015 - 16h31

“Eu não estou aqui”.

Foram essas as palavras escolhidas por  Mário Quintana – poeta, tradutor e jornalista  brasileiro – como seu epitáfio. Se  lá onde foi depositado e permanece o seu  corpo ele não está, por onde andará? Talvez  impregnado nas pessoas, como neste autor,  atingidas ao longo de décadas pelas suas  palavras organizadas em ritmo de provocações  sagazes e bem humoradas.

A escolha do epitáfio pode ser uma  espécie de dica daquilo que o poeta e jornalista  gaúcho pretendeu com a sua vida  em vida, e também com o que ficaria de  si após a sua morte, ou seja, a fluência, a  mistura, a semeadura que escapa ao terreno  fixo onde reside a matéria primária. O desejo de voar com o vento, cruzando  pontes e estabelecendo parcerias na sensação  de sentimentos e na criação de ideias. Desejo relacionado à vontade, quase arte,  de construir e atravessar pontes em busca  de bons e necessários encontros.

Ainda recorrendo à analogia da travessia  da ponte, certa vez o inglês Isaac  Newton (1642-1727), que viveu grande  parte dos seus 85 anos se dedicando à  Matemática, Filosofia Natural, Teologia  e Alquimia, disse que os seres humanos  constroem muros demais e pontes  de menos. Vindas de um indivíduo que  ficou na História como alguém muito  inclinado aos estudos científicos, essas  palavras podem causar estranheza naqueles  que insistem em observar o humano  como um armário cheio de gavetas, nas  quais estão acomodadas, separadamente,  nossas porções emocionais e racionais.

Deixando escapar mais um pouco de  ironia, alguns desavisados até poderiam  optar pela compreensão de que Newton  estaria se referindo ao cenário da Engenharia  Civil inglesa quando citou os muros e as  pontes. Opta-se, aqui, pela potência provocativa  do personagem inglês em se tratando  da relevância do reconhecimento dos  desafios – os muros – nas relações humanas,  abraçadas diretamente à qualidade  dos caminhos de aproximação – as pontes.

São muitas as partes que se unem para  transformar um rascunho em obra, sonho  desejoso em possibilidade de encurtar distâncias. Entre esses elementos e partes, a  ética parece ter um papel essencial no recheio  das pontes que aproximam sujeitos. Quando  se assume a ética como recheio, e não como  pintura ou verniz, há de se especializar o  olhar para essa medida capaz de aproximar  ou distanciar os envolvidos daquilo que os  gregos arcaicos, por exemplo, buscavam nas  relações consigo mesmos e com os outros:  a nobreza, a beleza e a justiça.

Os mestres gregos, responsáveis pela  educação das crianças a partir dos seis anos  de idade, tinham claro para si que, antes  de apresentar as técnicas – como a alfabetização  e o cultivo de algum ofício –, era  fundamental fortalecer os alicerces éticos  daqueles seres em desenvolvimento. O desafio  era acompanhar e apoiar a criança e o  adolescente na travessia que partia do insthos  (instinto), passava pelo esthos (afetos) para  chegar ao ethos (ética). Essa jornada, também  denominada por eles como Caminho  do Herói – bastante explorada nas obras  de Joseph Campbell, no século 20 –, tinha  como objetivo “aproximar os homens dos  deuses”, por meio, exatamente, da nobreza,  beleza e justiça de suas atitudes.

A caminhada se dava, especialmente, por  meio do teatro, dança, esportes e referências  mitológicas. Sócrates, inclusive, defendia a  urgência do ensino da ética a partir da mais  tenra idade, buscando evitar a instalação  da mentira e dos vícios. Tal urgência era  justificada pelo filho de Fenareta pelo fato  de que, para o conhecimento racional, o  humano disporia da vida toda, enquanto  que para a formação ética o tempo seria  curto, sob pena de distorções irreversíveis  de caráter. Assim, a opção de apresentar  às crianças e aos adolescentes estímulos ao  comportamento ético antes do ensino das  técnicas era a aposta direta daquele povo.

O projeto de transmutação cotidiana  dos instintos em virtudes, por meio da  decisão de afetar e do desejo de ser afetado,  nutritivamente, pelo seu entorno, é  ouro que o alquimista humano talvez não  deva perder de vista.

Que o Terceiro Setor seja, cada vez  mais, espaço consistente de aprendizado e  demonstração da possibilidade, ou ainda, da  necessidade, de alterarmos a matriz de nossa  sociedade, que hoje flerta muito mais com o  individualismo do que com o altruísmo.

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