Desastres naturais e seus impactos

Por: Revista Filantropia
01 Março 2011 - 00h00

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Desde o início dos tempos, o mundo tem se deparado com mudanças climáticas e, consequentemente, desastres naturais, que se tornam sempre mais frequentes. O resultado disso é que quem paga pelos danos é a população – normalmente os estratos mais baixos da sociedade que, não por coincidência, habitam áreas de risco e sem estrutura para passar por tais situações. Assim, além das fatalidades advindas do momento emergencial, há ainda de se enfrentar os problemas que vêm depois, como a falta de moradia, saneamento básico e alimentos.
“A principal dificuldade é a psicológica. Tanto os moradores quanto os voluntários ficam muito abalados ao presenciar o sofrimento humano e a fúria da natureza. Em alguns locais, contamos com dificuldades, como saques ou venda das doações e pessoas despreparadas atuando”, conta Aline Rosa, gerente de projetos sociais da filial do Estado de São Paulo da Cruz Vermelha. Em meio a esse cenário, como a sociedade civil e o governo
podem se organizar para colaborar?

O caminho até aqui
De acordo com a Política Nacional de Defesa Civil, no último século os desastres naturais produziram danos muito superiores aos provocados pelas guerras; com a influência do homem, são cada vez mais intensos, principalmente devido ao desenvolvimento econômico e tecnológico pouco atento aos padrões de segurança da sociedade.
De acordo com a Defesa Civil, a partir dos anos 1970, com a crise econômica no Brasil, o desenvolvimento social do país passou a enfrentar problemas, e as condições de vida e o bem-estar social se deterioraram. Dessa forma, com a intensificação dos movimentos migratórios e o êxodo rural, deu-se o crescimento desenfreado das cidades – o que levou muitos a habitarem locais de alto risco. Ainda segundo a publicação, “os desastres agravam as condições de vida da população, contribuem para aumentar a dívida social, intensificam as desigualdades regionais e as migrações internas, fazem crescer os bolsões e cinturões de extrema pobreza nos centros urbanos e afetam o desenvolvimento
geral do país”. “O Brasil não possui uma cultura historicamente desenvolvida de enfrentamento de desastres naturais. De forma geral, o país é privilegiado em termos de estabilidade das forças da natureza. Juntamente com essa ausência de recorrência – felizmente – de episódios, percebo ainda uma desorganização estrutural no exato momento seguinte e, depois, tratativas de reorganização do local”, explica Felipe Mello, diretor da ONG Canto Cidadão, que atua em hospitais e realiza visitas, com os voluntários da instituição, a locais devastados pelas chuvas no Brasil.

Diferentes papéis
Na hora de atuar em situações como essas, governo, sociedade civil e até a iniciativa privada têm papéis diferentes que, se bem articulados, podem ser complementares.
Um dos órgãos responsáveis pela administração dos momentos pós-desastres naturais é a Defesa Civil, composta
por membros do governo e da sociedade civil. O Sistema Nacional de Defesa Civil (Sindec) é composto por órgãos e entidades da União responsáveis pelas ações de defesa civil, assim como órgãos e entidades dos Estados, Distrito Federal e municípios que a ele aderirem. Da mesma forma, as entidades da sociedade civil também podem se unir ao Sindec. A coordenação do Sindec fi ca a cargo da Secretaria Nacional de Defesa Civil (Sedec), que recebe informações das diferentes localidades do país quanto ao andamento das ações em suas jurisdições. Basicamente, o objetivo da Defesa Civil é a redução de desastres – a escolha pela palavra “redução” é internacional, porque a ação de “eliminar” o problema seria um objetivo inatingível. Entre suas atividades estão a prevenção de desastres, a preparação para emergências e desastres, a resposta aos desastres e a reconstrução, assim como a promoção da articulação do Sindec em todo o território nacional. Em situações de desastres, entre as ações da Defesa
Civil estão o suprimento de água e alimentos à população, assim como roupas, agasalhos e abrigos provisórios. É a Defesa Civil também que fi scaliza as condições de edificações danificadas e a limpeza e descontaminação do ambiente.
No caso das chuvas que assolaram o Rio de Janeiro no começo de 2011, após visitar as regiões afetadas, a então recém-eleita presidenta Dilma Rousseff constatou que a ação a ser tomada não era apenas uma questão de defesa civil. “A prevenção é uma questão de saneamento, drenagem e política habitacional de governos que se comprometem com a qualidade de vida da população”, disse, reforçando a necessidade de investimentos em prevenção a tragédias ambientais.
Em casos de catástrofes naturais, as organizações do Terceiro Setor também se fazem necessárias para o atendimento à população. Entre as mais conhecidas está a mundial Cruz Vermelha, que, no Brasil, tem um papel importante nesse cenário. Sua missão é atenuar o sofrimento humano com imparcialidade, sem distinção de raça, classe social, nacionalidade, sexo e opinião política. “Durante uma catástrofe, a Cruz Vermelha deve auxiliar os poderes públicos, como prefeituras, bombeiros e o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu). Pode ajudar no cadastramento das famílias, na logística de doações e no atendimento aos feridos. É muito comum em campanhas de ajuda humanitária, por meio da arrecadação de alimentos,
itens de higiene pessoal e limpeza, água e roupas para sanar as necessidades primárias das vítimas de calamidades”, explica Aline.
Outra instituição de âmbito internacional é a Médicos Sem Fronteiras (MSF), que atua em 55 países lidando com situações de epidemia, confl itos armados e desastres naturais.
“Fazemos o atendimento imediato nos locais atingidos.
Conseguimos chegar aos locais de 48 a 52 horas após o ocorrido, no máximo, o que é bom. A difi culdade maior é que ninguém espera uma situação de catástrofe, então fica difícil mensurar o tamanho do problema, não dá para saber o que vamos encontrar”, conta Carolina Batista, coordenadora da unidade médica da MSF no Brasil.
Prezar pelo bem-estar das pessoas que sofreram com a perda de parentes, amigos e bens materiais também pode ser uma das atribuições das ONGs. É esse o tipo de atuação do Canto Cidadão, algum tempo após a situação de calamidade. “Normalmente, arrecadamos brinquedos e livros junto à nossa rede de relacionamentos, e marcamos uma expedição social para a entrega. Aí acontece a segunda parte da nossa ação: visita pessoal aos locais atingidos com a presença de Doutores Cidadãos (palhaços hospitalares) e Encantadores (brinquedistas hospitalares), que compartilham momentos com crianças, adultos e idosos vitimizados pela catástrofe. A crença é que a alegria dos bons encontros tenha um papel indispensável na valorização humana, que age sobre a autoestima das pessoas e as ajudam a superar os desafios”, conta Felipe. Instituições que cuidam de animais também têm muito trabalho nessas horas. Em Teresópolis, voluntários do Centro Universitário Serra dos Órgãos (Unifeso) e da Sociedade Mundial de Proteção Animal deram apoio à ONG Estimação, abrigo local. Outra iniciativa em Nova Friburgo imunizou os animais contra doenças como cinomose, leptospirose e adenovirose. Ao todo, já foram
atendidos mais de 2 mil animais. A preocupação, agora, é que as adoções de animais que ficaram desabrigados têm diminuído.
Nem sempre as ações em locais que sofreram com desastres naturais são programadas para serem feitas em conjunto – o que pode se tornar um problema, levando mais desorganização do que ajuda. Porém, em momentos de extrema necessidade, o ser humano acaba se ajudando mais, ao menos nos dias em que a mídia dá mais atenção ao fato. “Nós, do MSF, prezamos pela independência, mas, é claro que, quando possível, atuamos em sinergia com órgãos governamentais e privados. No caso da região serrana do Rio, por exemplo, houve uma sinergia grande por parte de todos os setores”, conta Carolina.

O Brasil está preparado ?
O Brasil é conhecido por ser um país abençoado, já que não é alvo comum dos eventos climáticos extremos.
Terremotos, tsunamis, tornados e vulcões não acontecem por aqui. Porém, outros fatores, como as más condições de moradia, a falta de infraestrutura e o crescimento acelerado das cidades – ou seja, a ação do homem e as desigualdades sociais –, fazem com que nosso ambiente seja mal preparado para receber, principalmente, as chuvas de verão. Todo ano há notícias de enchentes, casas e bens que se perdem, vidas que se vão. Porém, as proporções acabam crescendo com o passar dos anos, chegando a destruir cidades inteiras, como foram os casos de São Luiz do Paraitinga, em 2010, e da região serrana do Rio, em 2011.
A pergunta que paira, então, é: se já sabemos que o problema das enchentes é real e tem atingido até regiões historicamente conhecidas pela seca (como foi o caso do Nordeste, em 2010), o que pode ser feito para evitar grandes tragédias? Segundo a própria presidenta Dilma
Rousseff , em visita à região serrana do Rio de Janeiro, “moradia em áreas de risco no Brasil é a regra, e não a exceção”.
Segundo ela, é preciso adotar medidas de prevenção em encostas, para que não ocorram novas tragédias. “Quando não há política habitacional, o pessoal que ganha até dois, três salários mínimos vai morar onde? Mora onde não pode, que são justamente as regiões desabitadas”, afi rmou na ocasião, quando também anunciou apoio aos municípios atingidos. Segundo ela, o governo federal vai apoiar a reconstrução das áreas destruídas pela enxurrada. Dilma também anunciou a antecipação do pagamento do Bolsa Família e do aluguel social às famílias.
Ou seja, não existem soluções fáceis e prontas para o problema. Na maioria das vezes, infelizmente, devese lidar com ele após já ter acontecido. “A burocracia é assustadora em se tratando de envio de recursos para a reconstrução do local. Não falta boa vontade de muita gente na hora da tragédia, especialmente quando existem câmeras por toda a parte. Mas o rescaldo normalmente leva muito tempo para ser cuidado, e, por vezes, nunca é cuidado”, explica Felipe.

Diferenças pelo mundo
Se analisarmos duas situações de eventos extremos que assolaram populações recentemente, podemos notar as diferenças que existem no tratamento e na recuperação, tanto da população quanto do local, de acordo com o nível de desenvolvimento e importância econômica do país.
Em janeiro de 2010, um terremoto de 7 graus na escala Richter atingiu o Haiti, país conhecidamente vulnerável econômica e socialmente. O desastre deixou mais de 1,5 milhão de desabrigados e matou 300 mil pessoas. Até o fi m de 2010, mais de 1.400 pessoas já tinham morrido pela epidemia de cólera que se instaurou na região devido à falta de estrutura após o terremoto, além de outras 20 mil infectadas pela doença. Os números assustam, ainda mais sabendo que a transmissão pode ser contida simplesmente com o uso de sabão e água para lavar as mãos.
Apesar da instalação de dezenas de ONGs, a situação continua caótica. Segundo um levantamento feito pelo Disaster Accountability Project (DAP), apenas 27% do total de fundos arrecadados por 20 ONGs que atuam no Haiti havia sido usado para evitar surtos e epidemias seis meses após o terremoto. O que o documento não menciona são as promessas de doações feitas por países, que não se concretizaram. Quatro meses após o ocorrido, apenas 1,5% dos US$ 10 bilhões prometidos por vários Estados tinham sido depositados, de acordo com dados das Nações Unidas. Segundo Idalbert Pierre-Jean, embaixador do Haiti no Brasil, a situação ainda está muito ruim, mais de um ano depois da tragédia. Em entrevista recente à Agência Brasil, disse que “só não está pior do que no dia 12 (de janeiro de 2010, quando houve o terremoto) e nos dias seguintes, quando estava tudo muito destruído. O que vemos hoje é um pouco melhor do que naqueles dias, não estamos mais enterrando pessoas como antes, há menos gente nas ruas”, conta. Um cenário bem diferente se encontra no Japão,
atingido por um terremoto de magnitude 8,9º na escala Richter, que desencadeou um tsunami e também acidentes nucleares em algumas usinas. O fato, bem mais recente, trouxe destruição e calamidade ao país – assim como muito sofrimento humano –, embora o país seja estruturalmente preparado para enfrentar terremotos. Porém, a reconstrução e a retomada da economia já são uma realidade. Especialistas veem a situação até como uma “oportunidade” de crescimento.
O mesmo não aconteceria em outros países, pois poucas economias têm reservas de capitais e uma população economicamente preparada como a japonesa. Estima-se que as perdas nas regiões afetadas sejam de aproximadamente R$ 300 bilhões, segundo relatório do Credit Suisse. Porém, o Japão possui reservas sete vezes superiores a esse valor. No caso do Japão, a ajuda humanitária de ONGs também é muito necessária, principalmente no momento
emergencial, para atender as pessoas que perderam suas casas e familiares. “No Japão, há uma cultura de preparação para situações assim. Além do que existe um respeito muito maior dos governantes para com os cidadãos. Isso faz toda a diferença. Basta observar algumas imagens da forma como as autoridades e a população se organizam de forma respeitosa e competente em situações como a do tsunami”, complementa
Felipe. Porém, no Haiti, as ONGs e o apoio internacional são, até hoje, a base de sobrevivência para a população, que não pode contar com um Estado
próprio para reerguer o país.

previsões para o Futuro
De acordo com o Intergovernmental Panel on Climate Change 2007 (IPCC), ligado às Nações Unidas, provas de todos os continentes e da maioria dos oceanos mostram que muitos sistemas naturais estão sendo afetados pelas mudanças climáticas regionais, especialmente o aumento da temperatura. Além disso, a previsão é de que climáticos de larga escala tenham o potencial de causar grande impacto, especialmente depois do século 21. Alguns dos pontos citados no estudo são:
• Os impactos da mudança no clima vão variar regionalmente, mas, colocados juntos, promoverão custos anuais que devem dobrar conforme a temperatura aumenta;
• Alguma adaptação já ocorre agora, mas ainda de forma limitada, às mudanças no clima;
• Adaptação será necessária para lidar com os impactos do aquecimento global, que já é inevitável devido a emissões passadas;
• A vulnerabilidade do futuro depende não só das mudanças climáticas, mas também do desenvolvimento sustentável;
• O desenvolvimento sustentável pode reduzir a vulnerabilidade às mudanças climáticas, mas as mudanças climáticas podem frear a capacidade das nações de alcançar o desenvolvimento sustentável.
• A criação de um manual de medidas de adaptação pode diminuir os riscos associados à mudança no clima.

Links
www.cantocidadao.org.br
www.cvbsp.org.br
www.defesacivil.gov.br
www.estimacao.org
www.ipcc.ch
www.msf.org.br

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