Crônica

Por: Marcelo Torrecilas
01 Julho 2002 - 00h00
“Não nos lembramos do sabor do leite materno, mas jamais nos esquecemos da sua fonte”

Essa é uma típica frase da Tia Jandira, uma espécie de fada que vive pelos orfanatos, asilos, creches e instituições de assistência social. Se você não acredita em fadas, pode chamar de anjo da guarda, espírito de luz, alma benfeitora, assistente social, do que quiser, o fato é que ela existe. E quem duvidar que pergunte a qualquer pessoa que conheça o “serviço”. Ele lhe mostrará a tia “Jandira” (ou Maria, ou Terezinha, ou fada, anjo etc.).

Mas a história conta que Paulo viveu em um orfanato até os 16 anos. Como foi parar lá é outra história, triste como a de todos os outros, portanto não é necessário contá-la. E lá, a Tia Jandira cuidou dele o tempo todo. Ela sempre tinha uma frase, um pensamento, alguma coisa que o ensinasse a ser forte, a crescer como pessoa, a entender e superar uma dificuldade.

Uma vez, às vésperas do Dia das Mães, Paulo ouviu Tia Jandira dizendo para um colega: “Nunca nos lembramos do sabor do leite materno, mas jamais nos esquecemos de sua fonte”. Essa ele não entendeu direito. Como seria possível para ele lembrar-se de uma “fonte” que nem mesmo conheceu?

O tempo passou, Paulo foi adotado por um casal que lhe deu muito amor, que cuidou bem de sua educação até a formatura na faculdade. De lá de cima do palco, quando recebia o canudo das mãos do professor, ele olhou pra baixo e viu sua mãe emocionada, com o rosto encharcado de lágrimas e entendeu a frase pela primeira vez. Não interessa o leite, muito menos o gosto que tinha. Não importa quem estava com você na sala de parto, mãe é quem nutre e alimenta de amor e dedicação. É isso aí. Valeu Tia Jandira!

Agora, homem feito e pai de um casal, quando troca uma fralda, quando prepara uma mamadeira, conta uma história na beira da cama, quando dá um presente de aniversário, quando ouve aquela vozinha o chamando PAI, ele finalmente percebe a profundidade do que a Tia Jandira queria dizer. E, assim como sua mãe adotiva, ele também não precisou “dar leite” pra isso (sua mulher fez o serviço). Paulo nunca vai se esquecer de seus pais adotivos. Paulo nunca vai se esquecer da Tia Jandira.

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