Conferência

Por: Alessandro Tiezzi
27 Março 2014 - 00h01

Por definição, conferência significa conferir, comparar, confrontar com algo ou alguma ideia. É constatar, a partir de um tempo, se o que era de uma maneira agora poderá estar diferente, avançado, resoluto ou apenas estacionário, inerte ou retrocedido. Conferência é certificar-se de que o que se pensou para ser deixou de ser ou caminhou a favor da intencionalidade do que se queria que fosse.
Uma conferência no sentido mais republicano hoje é um fórum de participação popular, instância de controle social, planejamento e gestão. Sendo assim, gera debate, aproxima os diferentes geográfica e ideologicamente, reencontra os distantes, regozija os professorais, anima os festivos e agasalha novos sonhos de conquistas coletivos, quase coletivos e individuais.
Ser conferente é ser especifico na amplitude do que se discute, sem nunca ter pensado em ser tão amplo na especificidade do que me reafirma, empodera e exercita para defender minha convicção do que a mim me coube ser. Aliás, conferente aqui é delegado, representante oficial, quase um diplomata das causas de muitos. Um adido do mundo real, entrincheirado no mundo das ideias e projeções.
Minha primeira conferência em dezembro de 2013 foi assistida de perto pelo meu olhar psicossocial. Vi o Brasil desfilar na minha frente com grandes autoridades, pseudobispos, atores sem brilho, criaturas imponentes e muita gente simples.
Acelerando a câmera, revejo homens e mulheres em profusão com centenas de páginas nas mãos: livros, panfletos, cartazes, guias, bulas, receitas de sucesso e muito sucesso escrito e descrito com letras douradas.
Vi discussões homéricas em auditórios enormes e lotados de cadeiras ocupadas por seres entediados, vibrantes, cumpridores do expediente e estrepitosos por gosto e fantasia. Tudo parecia interessante para os que tagarelavam nos corredores quase sempre exaustos de tanta gente, mas basta retroceder o filme para que um clima noir se estabeleça entre aspas e sem parênteses, lócus em que vive certo ser que nunca irrompe nas consciências.
Ouvi hinos, música regional e palavra de ordem. Vi desordem sem cura e filas eriçadas de mulheres, muitas mulheres, todos os tipos de mulheres. Não por acaso, conferência é gramática feminina, lugar de falar, dizer, declarar.
Na conferência se vende e compra ideias, copiam-se imagens, denotam-se comportamentos. Expõem-se gravuras e desenhos e camisetas mal feitas em grafismos precários, doces e trufas, falsa joia e badulaque das meninas encantadas da comunidade do osso da glória, no Estado imaginário do meu país. Fala-se sério vendo a TV globo.
Grupos inteiros de delegados, alguns compungidos, outros cientes e disciplinados, apresentam-se durante o dia. Diferentemente da noite, quando alguns, e sempre tem esses alguns, estudam com profundidade o tema do dia seguinte. Outras comemoram o Distrito Federal a seu modo e idiossincrasia.
Conferência tem seu equivalente artístico no pós-modernismo, equivalência científica no acelerador de partículas e a nuance estética de uma Guernica criada por Andy Warhol e descrita musicalmente por Patativa do Assaré. Vê-se no fundo a silhueta de um índio amazônico.
Tolice acreditar que eu vi tudo. Naquele mundo todo me escapou o principal. Na próxima quero estar lá.

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