Causas encantadas

Por: Felipe Mello
19 Fevereiro 2013 - 22h56

O pensador estadunidense T.S. Eliot deixou como herança, no baú de sua vasta obra, duas perguntas incômodas, ainda que potencialmente libertadoras: onde está o conhecimento que perdemos na informação e onde está a sabedoria que perdemos no conhecimento? O indivíduo versão 2013, habitante de um dos tantos países que já têm acesso cotidiano às diversas formas de tecnologias, em especial relacionadas à comunicação humana, passou de fase no video game. Utilizar ou não as inovações já não parece ser mais a dúvida; como e para quê utilizá-las, sim.

O Terceiro Setor, ao menos em sua proposta mais pura, é um berçário de causas que buscam promover conexões humanas mais saudáveis. Retomando às perguntas de Eliot e colocando-as sobre a mesa onde também está o vasto cardápio tecnológico – cada vez mais também à disposição das organizações não governamentais (ONGs) –, surge uma inquietação: quais os riscos do afastamento da essência das propostas em função do deslumbre que as ferramentas podem despertar? A técnica cada vez mais competente é bem-vinda, obviamente, mas e se ela colocar em risco o encantamento das causas, ou, ainda, da busca à elevação pela vida humana? Tal sorte de desvio não é incomum nas empresas do Segundo Setor, por exemplo. Aliás, as reflexões relacionadas a essas preocupações não são novas.

Sócrates, filho de Fenareta e pai espiritual de uma legião de pensadores, escolheu a morte em nome do encantamento. Ao final de uma longa vida de interrogações e incertezas, que edificaram a sua reputação de sábio, seus algozes o fizeram beber o venenoso suco de cicuta para impedi-lo de continuar ensinando a seus discípulos a arte do questionamento, ou seja, da capacidade de construção da autonomia individual pela arte de pensar.

Certa vez, um amigo de Sócrates se dirigiu ao Oráculo de Delfos. Sua curiosidade dizia respeito à identidade do homem mais sábio do mundo. Porém, o que ouviu lhe surpreendeu, pois Sócrates foi a resposta. Transformado imediatamente em mensageiro apressado, foi ao encontro do amigo para lhe transferir a revelação, ficando ainda mais surpreso. Em busca de esclarecimentos, começou a visitar professores prestigiados da região, cujos saberes certamente provariam que ele estava longe de ser o homem mais sábio do mundo. Tais aulas só fizeram a sua angústia crescer: latifundiários do conhecimento, aqueles docentes cultivavam em suas terras sementes sem originalidade, as quais murchavam uma a uma frente às questões daquele jovem cujos interesses iam além do campo das repetições. Ele se descobriu muito mais parteiro, missão de sua mãe, que escultor, ofício de seu pai.

Sócrates apresentou precocemente sintomas oftalmológicos sintonizados com as provocações da jornalista e escritora brasileira Eliane Brum. Ela escolheu investigar a arte do olhar como prática essencial para observar a vida que ninguém vê, inspiração, inclusive, para uma série de crônicas-reportagens publicadas no jornal Zero Hora de Porto Alegre. A proposta era “estimular um olhar que rompesse com o vício e o automatismo de se enxergar apenas a imagem dada, o que era do senso comum”. A hipótese era a de que o nosso olhar fosse sendo cegado, confundido por uma espécie de catarata, causada por camadas de rotinas, decepções e aniquilamentos que nos impedissem de realmente ver.

O grego e a gaúcha compartilham o olhar insubordinado como forma de promover conexões entre os mundos interior e exterior, cientes que “quem consegue olhar para a própria vida com generosidade torna-se capaz de alcançar a vida do outro. Olhar é um exercício cotidiano de resistência”. Os dois também compartilham a adesão à campanha que Brum defende “pela volta dos sapatos sujos”, um incentivo ao protagonismo afetivo – do latim affetare, ir ao encontro –, que coloca em movimento e permite a revelação de pistas, noções, histórias e novas inquietações, em qualquer área da vida. Sócrates sujou os sapatos, quaisquer que fossem os modelos usados à época, afetado que estava pela arte de dar luz à ideias e bons encontros.

Que venham as ferramentas para facilitar e aprimorar as atividades humanas. Que venha, antes e ainda mais, a renovação do encantamento pelas causas que justificam as atividades humanas. Afinal, já disse alguém, as coisas mais importantes da vida não são coisas.

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