Caminhos do Paraíso

Por: Felipe Mello, Roberto Ravagnani
01 Maio 2007 - 00h00

Quem disse que os caminhos do Paraíso não existem ou estão longe de nosso alcance?
É certo, fato inconteste, que a natureza humana, influenciada muitas vezes por um ambiente contaminado, camufla os acessos para tais caminhos, protegendo-nos dos riscos de embarcarmos em vias de felicidade, aparentes contramãos do senso comum, pouco inteligente.
Não existiriam guichês de informação capazes de iluminar nosso senso de direção, colocando-nos no rumo e no prumo? Pois, sim. Começamos a começar. Os caminhos do Paraíso existem e parecem estar mais próximos de nós do que podemos supor.
Recentemente fui testemunha de que podemos içar velas e fazer soprar o vento suave e justo da felicidade. O que certamente pode nos ajudar são os citados guichês de informação e referência, normalmente representados por exemplos de navegantes exemplares da vida, condutores de barcos emocionantes e emocionados, interessados e interessantes, rumo aos mares da alegria e oceanos de inspiração e vontade de viver.
O comandante que me inspirou, nessa oportunidade, foi um garoto de aproximadamente 12 anos. Rebento de palavras ágeis e mãos coordenadas para o desenho, conquistou a minha atenção e admiração durante o tempo em que o visitei nas dependências de um hospital público em São Paulo. Eu, atuando como “Doutor Raviolli Bem-te-vi”, meu personagem no trabalho voluntário dos Doutores Cidadãos, o maior grupo de palhaços hospitalares do mundo. Ele, com motivação e fome de vida transbordantes. Eu, saudável e disposto a ajudar, naquilo que possível, a amenizar as dores, angústias e indefinições dos lúdicos pensamentos de meu comandante. Ele, potência de felicidade, lutando contra um câncer.

Durante meses visitei o quarto do jovem mestre, sempre na torcida e na expectativa de uma possível resolução positiva de seu problema. Não acompanhei clinicamente o seu estado de saúde, mas baseei-me em sua disposição e nos tímidos esboços de sorriso de sua benevolente e apaixonada mãe. Podia ver nos olhos daquela senhora a melhoria ou a estagnação da condição do garoto. E que olhos! Olhos de amor, esperança, carinho, ternamente dispostos a fitar seu filho por anos, caso o destino assim decidisse. Em algumas visitas, tive a certeza de que ele estava se apresentando melhor, dando golpes de vida em seu adversário, cadafalso de um brilhante futuro. Mas uma tarde a minha certeza desmoronou.

Foi preciso um choque inspirador para que eu reconhecesse e avaliasse, como podemos sempre fazer, aquilo que realmente merece o nosso irrecuperável desgaste

Certo dia, transitando pelos corredores e leitos hospitalares, percebi que estava na porta do quarto de nosso jovem. E onde estaria ele? Aonde teria ido? As perguntas se repetiam, castigando a minha crença na sua recuperação. Eu não busquei informações sobre o seu paradeiro, e passei alguns dias na dúvida: teria meu timoneiro perdido a batalha para as revoltas águas do câncer?
Dois dias se passaram. Eu retornava de uma reunião de trabalho pelas ruas do Paraíso – um bairro da capital paulista – para chegar ao meu destino. Fazia muito calor, e o trânsito, alto escalão da tirania metropolitana, contribuía para que a minha paciência se esvaísse com muita fluência. Era impossível estancar a ansiedade por chegar ao próximo porto, livrando-me de buzinas, semáforos e potenciais desafetos. O trânsito de São Paulo não é terreno fértil para cultivar os valiosos e necessários sentimentos de solidariedade e fraternidade. Seria só isso mesmo?
Balela! Os fatos que se sucederam provaram que a minha irritação provavelmente vinha de alguma insatisfação leviana, mas que me aborrecia um bocado. Foi preciso um choque inspirador para que eu reconhecesse e avaliasse, como podemos sempre fazer, aquilo que realmente merece o nosso irrecuperável desgaste.
Num dos intermináveis semáforos (acredite, eles são infinitos), olhei para o lado. Vi um garoto careca, uma senhora de meia idade e um jovem senhor rindo em alto e bom som. Risadas que criavam um cenário paradoxal: dezenas de pessoas, naquele quarteirão, dentro de seus automóveis, lutavam incessantemente pela conquista de alguns metros de asfalto, desafiando quem ousasse ocupar parte de seu caminho. Certamente um paradoxo, ao compararmos com o caminhar leve daquelas três pessoas na calçada, transitando a alguns metros daqueles que se corroíam dentro dos seus veículos.
Olhei novamente para o grupo que passava. Era o meu querido garoto do hospital, sua mãe e padrasto. Puxa vida! Um misto de alegria e preocupação confundiu meus pensamentos. Movido pela dúvida, gritei seu nome. Pude perceber que ele olhou em minha direção, buscando reconhecer quem o chamava. Nesse exato momento, o tal semáforo acionou sua luz verde. Não coloquei meu carro em movimento. Queria fazer contato visual com o garoto. Passaram-se dois segundos e veio a primeira leva de buzinas. Como ele caminhava em direção contrária, pude olhar pelo retrovisor que ele se afastava. Decidi fazer a volta. Ignorei os gestos de reprovação e rapidamente alcancei o grupo que continuava a caminhada na mesma felicidade. Encostei o carro e fui ao seu encontro.
Parei na frente deles com um sorriso explícito, pois via renascer aquela certeza da evolução do tratamento do garoto, perdida dias antes ao visualizar o seu leito vazio no hospital. Senti uma grande decepção ao perceber que eles não tinham me reconhecido. Será possível que não se lembravam de mim? Meses de visitas divertidas e prazerosas, ao menos para mim, que não reluto em dizer o quanto aprendo em conhecimento e sentimento em meu trabalho voluntário. Será que a recíproca não era verdadeira? Será que fui um estorvo sem “desconfiômetro” durante todo aquele tempo?
Novamente meus sentimentos se confundiam. Lembrei-me de que eles poderiam ter dificuldades em me reconhecer, pois eu estava sem o meu figurino especial. Ufa! Só poderia ser isso. Interrompi o turbilhão de considerações imaginárias e perguntei se eles se lembravam de mim. A resposta foi a melhor retribuição pelos meses que me dediquei como voluntário em visitas ao garoto. Percebi que ele fitava em profundidade os meus olhos. De um salto, ele me deu um abraço e exclamou: Doutor Raviolli!
Pronto! Estava liquidada, com o sincero sorriso do garoto, a minha angústia. Após um fraternal abraço, quis saber sobre as novidades e o motivo da ausência no hospital. Atropelando as perguntas, indaguei como eles tinham me reconhecido sem o figurino. A mãe do garoto, econômica em palavras, adiantou-se respondendo que os meus olhos e a expressão de meu sorriso evidenciaram a minha identidade. Fiquei ainda mais feliz, e a verdadeira lição ainda estava por vir.
Não podia imaginar que aquele breve papo, travado em plena calçada, com o meu carro estacionado em local proibido, com o pisca-alerta ligado, me presentearia com tamanha aula de motivação e força de vontade de viver. O garoto conseguira alta do hospital, uma vez que conquistara uma sonhada vaga em uma organização sem fins lucrativos extremamente competente em seu objetivo social de atender às crianças com câncer. A saída do hospital representava uma grande conquista para aquele garoto, embora todos soubessem que a batalha ainda seria longa, de resultado indefinido. Mas, o que importava o crepúsculo, se os olhos daquela criança só conseguiam enxergar o raiar do sol, após meses em um leito hospitalar? Raiar de vida, sopro de esperança, um dia após o outro.
A motivação de meu pequeno mestre para viver me fez e ainda me faz refletir, do alto de minha condição física, se eu teria realmente motivos para estragar meu dia. Após reflexões, concluí e continuo concluindo que felizmente não os tenho. Confesso que, às vezes, empreendo esforços para criá-los. Quando isso acontece, paro tudo! Trago à minha memória a inesquecível imagem de meu jovem capitão, caminhando de cabeça erguida, abastecido pelo combustível da vida, pelos caminhos do Paraíso.


Felipe Mello. Radialista, palestrante e diretor da ONG Canto Cidadão, fundada para produzir e democratizar informações sobre cidadania e direitos humanos.

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