A trilha da sustentabilidade

Por: Dal Marcondes
01 Maio 2009 - 00h00

A evolução do conceito de sustentabilidade passa pela compreensão de um processo histórico que começou na filantropia e evoluiu para uma permanente batalha contra todas as misérias humanas.

Alguns anos atrás, uma empresa era considerada socialmente responsável apenas por cumprir a lei, pagar em dia seus impostos e gerar empregos. Além disso, ela poderia se dedicar a ações de filantropia, nas quais seus recursos seriam utilizados para mitigar algum tipo de dor social. No entanto, os tempos mudam e as necessidades também. A ação humana não é mais localizada, mas tem impactos muito mais abrangentes e de alcance planetário.

Nos anos 1980, a Organização das Nações Unidas (ONU) encomendou um estudo à então primeira-ministra da Noruega, Gro Brundtland. Esse trabalho foi publicado em 1987 sob o nome Retatório Brundtland ou, em português, Nosso Futuro Comum. Foi a primeira vez que um conceito para sustentabilidade foi expresso e mundialmente aceito. De acordo com o relatório, “ser sustentável é conseguir prover as necessidades das gerações presentes sem comprometer a capacidade das gerações futuras em garantir suas próprias necessidades”.

Foi também a primeira vez que um estudo patrocinado pela ONU chegou à conclusão de que é preciso mudar os atuais padrões de produção e consumo adotados pelas diversas sociedades da Terra, de forma a preservar os recursos e serviços ambientais necessários à sobrevivência humana. Desde então, existe um grande movimento de governos, empresas e ONGs que buscam criar parâmetros para o desenvolvimento sustentável.

Um dos parâmetros mais aceitos é o do Triple Bottom Line, que estabelece a necessidade de um equilíbrio entre as ações e resultados econômicos, ambientais e sociais das organizações. Ou seja, uma organização sustentável precisa ser economicamente lucrativa, ambientalmente correta e socialmente responsável. E mais, as ações de sustentabilidade precisam ser parte das estruturas de gestão das organizações, e não apenas ações pontuais.

As empresas estão habituadas a realizar ações de filantropia em que doam seus recursos, sejam financeiros ou materiais, para a realização de eventos em prol de terceiros. Essas ações são o primeiro passo de uma escalada em direção à sustentabilidade. Têm apenas o caráter eventual, ou até mesmo de marketing. O segundo passo são as ações de responsabilidade social. Nesse caso, as empresas assumem compromissos e estabelecem metas de desempenho para suas ações socioambientais.

Empresas socialmente responsáveis atuam além das exigências da lei, de forma permanente e como parte de seu planejamento estratégico. Esse é o caso, por exemplo, de organizações que fazem trabalhos de formação profissional para públicos distintos, que têm um relacionamento permanente com seus stakeholders. Essas organizações têm a percepção de que existem outros valores desejáveis além do lucro. Sabem, por exemplo, que passivos sociais e ambientais podem ter um impacto negativo sobre sua marca e cuidam para que eles não existam ou sejam neutralizados.

No entanto, esses são apenas os dois primeiros passos. Existe na Bíblia um antigo provérbio que muito bem se aplica à definição dos conceitos de filantropia, responsabilidade social e sustentabilidade: dar o peixe a quem tem fome é filantropia; ensinar a pescar para garantir o alimento é responsabilidade social; no entanto, cuidar da qualidade da água do rio, preservar suas margens e suas nascentes, cuidar para que não seja poluído e nem assoreado e que existam peixes para sempre é sustentabilidade.

A sustentabilidade é um compromisso com o futuro; não é uma meta que pode ser atingida, mas um caminho que as organizações devem trilhar em busca de melhores soluções para os problemas humanos, sejam eles econômicos, sociais ou ambientais. Esse compromisso com o futuro se expressa de diversas maneiras e em distintos graus dentro das organizações. O fundamental é que sempre permeie qualquer decisão dentro dos processos de gestão. Nenhuma ação humana ou empresarial está isenta de impactos, e todos eles devem estar previstos de forma que possam ser neutralizados ou minimizados.

Ser sustentável é, portanto, o exercício cotidiano da responsabilidade e a busca permanente por menos e menores riscos e externalidades negativas. E essa forma de gestão deixa de ser apenas uma busca da satisfação dos acionistas para colocar a organização em uma nova trajetória, na qual sua ação passa a ser parte do processo civilizatório que deverá levar a sociedade humana a ter mais e melhor qualidade de vida nos próximos séculos.

A contribuição das empresas para esse processo civilizatório, no qual as organizações têm muito mais recursos e poder do que os Estados, será determinante para mudanças estruturais nos modelos atuais de produção e consumo, nos quais o lucro é um valor absoluto e permanente. A busca pelo lucro deverá seguir movendo as empresas. No entanto, entra na equação um novo componente: o tempo. O lucro espalhado no tempo, com objetivos que garantam a perenidade das empresas. Esse é um novo paradigma que deverá ocupar os corações e as mentes dos gestores.

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