A polêmica das embalagens oxibiodegradáveis

Por: Fernando Credidio
01 Março 2009 - 00h00

Quando começaram a surgir pesquisas sobre a possibilidade de se obter um plástico que fosse, ao mesmo tempo, higiênico e resistente, mas que se degradasse junto com o lixo, várias alternativas apareceram no mercado. Logo se propagaram as virtudes dos sacos oxibiodegradáveis, que surgiram como o remédio milagroso para o acúmulo de sacos acondicionadores de lixo e, principalmente, aqueles distribuídos fartamente nos supermercados do mundo inteiro. Esse tipo de plástico começou a ser produzido no final dos anos 1980 e, segundo seus fabricantes, são ambientalmente corretos porque se decompõem rapidamente na natureza. Com isso minimizariam uma série de riscos ambientais decorrentes do descarte desses produtos, como a impermeabilização do solo e a contaminação de lençóis freáticos.

Entretanto, tais atributos são contestados por pesquisadores brasileiros e pela comunidade científica internacional. Para entender a controvérsia sobre os polímeros oxibiodegradáveis, é importante, primeiro, compreender como ocorre o processo de biodegradação desses plásticos e, em seguida, saber como eles são produzidos.

A oxibiodegradação acontece em dois estágios. No início, o plástico é convertido, pela ação de oxigênio, temperatura ou radiação ultravioleta, em fragmentos moleculares menores. Em seguida, esses fragmentos se biodegradam, o que significa que são convertidos em dióxido de carbono, água e biomassa por micro-organismos decompositores. Para fomentar tal característica, os fabricantes misturam um aditivo pró-oxidante a polímeros convencionais, como polipropileno, polietileno ou outros. Esses polímeros são os mais usados para a confecção de sacos e outros produtos plásticos. O aditivo pró-oxidante acaba por tornar o polímero supostamente biodegradável.

Entretanto, quando descartado em aterros ou lixões, o aditivo quebra as longas cadeias moleculares que formam os polímeros, conferindo-lhe as características necessárias para ser consumido pelos micro-organismos presentes no solo. Não é de hoje que a biodegradabilidade dos polímeros oxibiodegradáveis é considerada um assunto polêmico na comunidade científica internacional. Uma corrente de estudiosos duvida se eles são, de fato, biodegradáveis.

Interessado na preservação ambiental e no gerenciamento do lixo, o governo da Califórnia decidiu verificar as alternativas às sacolas plásticas e solicitou ao California Integrated Waste Management Board (CIWMB), em parceria com a Universidade Estadual da Califórnia (CSU), sob a coordenação do professor Joseph Greene, um estudo para testar a decomposição de produtos ditos biodegradáveis, oxibiodegradáveis e de plásticos comuns. O objetivo foi o de se buscar uma alternativa para a redução e reutilização dos sacos plásticos, de modo a reduzir o passivo ambiental representado por um produto largamente consumido e com um tempo infinitamente grande para sua degradação na natureza.

Das várias opções disponíveis no mercado, o melhor desempenho foi o das fabricadas com PLA e PHA, seguidas daquelas a partir da matéria-prima obtida da cana-de-açúcar (PLB). Outros chamados oxibiodegradáveis permaneceram praticamente intactos após 120 dias de exposição à natureza, em aterros abertos, fechados ou em compostagem. As principais características de um produto biodegradável são servir de alimento para os micro-organismos e não deixar resíduos a partir de um determinado tempo (120 dias). Os testes mostraram que isso não aconteceu com os ditos oxibiodegradáveis, que continham polietilino.

Reciclagem como alternativa

Outros estudos feitos pelo professor Greene indicaram que uma alternativa é a reciclagem dos sacos plásticos ou outras embalagens, como as PET, de modo que a matéria-prima possa ser reutilizada, com a vantagem de um ciclo que gere menos carbono. Também nesse caso os oxibiodegradáveis não obtiveram boa performance.

O presidente do Instituto Plastivida, Francisco de Assis Esmeraldo, acredita que a questão principal é o uso responsável dos plásticos, seja em forma de embalagem, utensílio ou sacolas. “No caso das sacolas plásticas, sabemos que há mais de 50 formas de serem reutilizadas após o carregamento das compras, então optamos pela melhoria da qualidade do produto, para que ele seja usado em menor quantidade. Ou seja: reduzir, reutilizar e reciclar”.

A meta da proposta, que já vem sendo apoiada por supermercados de todo o país, é reduzir em até 30% o consumo de sacolas plásticas com a fabricação de um produto mais resistente e que evita a superposição. Outro aspecto é que a população precisa alterar o modo de utilização dessas sacolas. Isso significa somente descartá-la juntamente com o lixo seco e reutilizá-la pelo menos quatro vezes, fato que geraria uma mudança cultural importante na medida em que cada consumidor teria de levar sua sacola de casa.

Pesquisa recente realizada pelo Ibope com 600 mulheres mostrou que nada menos do que 71% delas manifestaram-se favoráveis ao uso de embalagens plásticas como a forma ideal para o transporte de compras, e 75% entendem que estas devem ser fornecidas pelo varejo. Revelou ainda que 100% das entrevistadas usam as embalagens para o descarte do lixo doméstico, dispensando a compra de sacos para esse fim. Embora esse reaproveitamento jamais tenha sido estimulado, os consumidores perceberam a vantagem e fizeram a troca, o que praticamente universalizou, nas áreas urbanas do país, o acondicionamento dos resíduos de acordo com as recomendações do Ministério da Saúde – e sem acréscimo nas despesas das famílias.

Embalagem inteligente

Formandos do curso de engenharia química do Centro Universitário da Fundação Educacional Inaciana (FEI) desenvolveram dois projetos que são novidade no mercado: um filme biodegradável, produzido a partir da fécula de mandioca, que avisa quando o alimento embalado está estragado, e um simulador de produção de biodiesel para fazer reação e separação do combustível. O filme biodegradável é uma embalagem de degradação rápida no meio ambiente, que pode ajudar a diminuir a dependência do petróleo, a exemplo dos convencionais filmes de policloreto de vinila (PVC).

Produzida para embalar alimentos secos, como pães, salgadinhos industrializados e grãos, a embalagem é transparente e contém um indicador que muda de cor quando o alimento estraga. Se o alimento não está apropriado para o consumo, a embalagem fica vermelha. Para isso, foram adicionados na fórmula indicadores naturais de pH, no caso, suco de repolho roxo. Para dar flexibilidade à embalagem, os estudantes adicionaram na fórmula três agentes plastificantes: glicerol, açúcar invertido e sacarose.

Dicas para o consumidor

Qualquer tentativa de mudança de comportamento deve levar em conta os hábitos dos consumidores. Ainda assim, algumas dicas são importantes:

  • Sempre que possível, leve sua própria sacola (de tecido ou de fibras vegetais, por exemplo) ao supermercado, à feira ou à padaria;
  • Para o destino do lixo doméstico, utilize sacos próprios para isso. Eles são recicláveis, ao contrário das sacolas de supermercado;
  • Não substitua o saco de lixo de sua casa todos os dias, a fim de economizar. Mesmo a reciclagem requer o uso de energia e água, recursos que devem ser usados com racionalidade;
  • Pressione o supermercado e a padaria de sua vizinhança para que promovam as sacolas não-descartáveis.

Links
www.idec.org.br
www.fapesp.br
www.plastivida.org.br

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