A consciência em si

Por: Joana Mao
01 Maio 2010 - 00h00

O conteúdo do discurso é sempre o mesmo: conscientização ambiental. Sendo publicidade, discurso político, reportagem ou conversas informais, é certo que surgirá a constatação: “precisamos de mais consciência ambiental”. Esta é seguida, muitas vezes, da resposta do interlocutor: “imagine, sempre tive consciência ambiental! Eu separo o lixo para reciclagem desde muito antes dessa moda toda de meio ambiente.” Como se a questão fosse um mero ato de limpeza ou de cuidado com o lixo.

Caro leitor, é disso que se trata a sustentabilidade? É aí que para a questão socioambiental? Antes fosse, pois seria mais fácil de ser resolvida. Assim, poderíamos nos tranquilizar. Mas não é o suficiente. Tampouco é necessário se envolver com a preservação das baleias da Antártida para tomar a responsabilidade socioambiental para si. Para tanto, basta ter consciência, só isso. A consciência é a compreensão que se tem da própria existência no que se refere ao conhecimento, ao discernimento e à faculdade de julgar-se moralmente nas ações que se tem com o mundo. É ainda o sentido de posse, de responsabilidade e de dever, orientados para a dignidade e a honradez.

Logo, precisamos de mais consciência em si. Seria o suficiente para alimentar as conversas sobre sustentabilidade. E, mais ainda, para desencadear um progresso ético do si mesmo para com todos os elementos, circunstâncias, qualidades, aptidões, relacionamentos interpessoais, relações com o ambiente... enfim, tudo o que circunda o indivíduo na sua existência.

A frase “precisamos de mais consciência ambiental” funciona como item a ser adicionado a uma lista infinita de uma série de atributos dos quais necessitamos: mais tolerância, mais qualidade de vida, mais responsabilidade no trânsito, no sexo, no voto e por aí afora. Diante dessa enxurrada de coisas sobre as quais precisamos estar conscientes, setorizam-se também as responsabilidades. Cada um escolhe ser ativo em um setor. Vota bem, mas consome demais. Consome de menos, mas não é participativo na sociedade. Acaba por não despertar no interlocutor um senso de responsabilidade individual sobre tudo o que está a ele relacionado, inclusive o ambiente.

Dispor-se a expandir a consciência revela coisas sobre si mesmo e o seu entorno. Assim, o indivíduo passa a dedicar sua energia para momentos sempre mais construtivos. A pró-atividade para ações socioambientais torna-se consequência de uma expansão da consciência em si.

Pensar ambiental é, em primeira instância, conscientizar-se da comunhão com o meio. O que não significa apenas pensar sobre isso, mas sentir-se interligado com o ambiente. A impressão mais imediata de mundo que temos é a de que existe o “eu” e os “outros”. Na medida em que a consciência se expande, passamos a perceber que essa divisão não existe.

A consciência que para na separação correta do lixo é apenas um recondicionamento insuficiente perante o cenário ambiental inseguro proporcionado pela nossa espécie. Em termos de desenvolvimento sustentável, não é efetivo setorizar a consciência, ou seja, ter consciência ambiental, mas não ter consciência política, ter esta e não ter a social etc. Da mesma forma, a setorização, não raramente, gera uma posição cética e conformista perante a questão, professando uma sociedade corrompida. É quando ouvimos o jargão “não tem mais jeito”, seja no setor político, no social, no ambiental ou em outro.

Com a consciência desperta, o indivíduo passa a ter o poder de “descorromper” a sociedade e reverter o jogo. Desenvolvê-la em si é uma proposta de contracorrente à nossa passividade sobre as escolhas (baixa qualidade de vida, caminhos ambientais inseguros etc.), sobre o ambiente no qual vivemos (sistemas socioeconômicos injustos, extinção cultural etc.) e até mesmo sobre o tipo de pessoas que seremos durante nossa existência (passivas, insatisfeitas, solitárias, inconsistentes...).

A consciência, nesse caso, é traduzida como lucidez. É percebê-la como veículo de manifestação individual no mundo, a perfeita noção a respeito do próprio escrúpulo – sobre si mesmo e em relação ao seu papel. No cotidiano, essa lucidez sobre as coisas se traduz numa participação efetiva do indivíduo nas suas relações, no seu entorno, ou seja, em tudo aquilo em que está envolvido. Um indivíduo mais lúcido e consciente exerce seu papel profissional, familiar, social e de cidadão com mais discernimento, legitimidade e pró-atividade. Isso já diz tudo sobre sustentabilidade na prática.

No filme Preciosa – Uma História de Esperança, de Lee Daniels, há uma lição importantíssima sobre essa tal lucidez: “cada um ensina um”. É a oportunidade que temos de ser ativos no nosso entorno e modificar o espaço em que vivemos. E isso já basta. Para aqueles que não assistiram ao filme, trata-se da história de uma jovem (Claireece “Precious” Jones, interpretada pela atriz Gabourey Sidibe), que sofre as mais diversas privações. Abusada pela mãe, violentada pelo pai e grávida de seu segundo filho, é convidada a frequentar uma escola alternativa, na qual vê a esperança de conseguir dar um novo rumo à sua vida. Aquele que acredita que a vida é injusta só porque aquele “namorico” da praia não subiu a serra ou por ter adquirido uns quilos a mais durante as festas de fim de ano deve assistir a essa verdadeira obra prima do cinema. Em menos de dez minutos, entenderá que seus problemas não são nada perto do que realmente sofrem algumas pessoas mundo afora.

Como foi mencionado no início deste artigo, não é necessário se envolver com as baleias da Antártida para se sentir ambientalmente ativo. Olhe ao redor, desenvolva lucidez no seu dia-a-dia. Encontre a equação entre o quanto você se esforça para exercer ética e o quanto isso retorna, positivamente, para si próprio.

Um dos aspectos mais importantes que desenvolvemos ao estarmos mais lúcidos é o de que não basta o discurso e a vontade de fazer, mas realmente realizar. A consciência desenvolvida passa a estar disposta e funciona como uma biblioteca na qual, agilmente, encontramos soluções para os problemas.

Osho, como é mais conhecido o controverso filósofo indiano Bhagwan Shree Rajneesh, costumava afirmar que “você pode despertar. É apenas uma questão de se lembrar de que pode despertar”. A proposta, pois, é de um indivíduo mais lúcido, mais consciente e, por conseguinte, mais ambientalmente consciente. Efetivamente! Mas isso é só consequência.

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