A Magia Infantil

Por: Marcio Zeppelini
02 Fevereiro 2016 - 22h59

1Linda era chinesa e morava no Havaí. Contrariando o pai, que desejava vê-la casada com alguém dos clãs chineses, ela foi para a Califórnia. Entrou para a universidade, apaixonou-se por um americano branco, de olhos azuis, e com ele se casou. Uma cerimônia simples, bem diferente das festas pomposas, no estilo dos casamentos tradicionais, como esperava seu pai.

Depois do casamento, um silêncio pesado se fez entre pai e filha. Ele não a visitava, ela também não. Quando a mãe telefonava, o pai nunca pedia para falar com a filha. Por todas essas atitudes do pai, Linda entendia que ele estava desaprovando tudo o que ela fizera. Ela traíra todos os princípios.

Contudo, Linda se lembrava da infância feliz, no Havaí. Lembrava-se de, aos 3 anos, ser a sombra do pai. Corria atrás dele entre as bananeiras. E, quando ela se cansava, o pai a colocava nos ombros. Dali de cima ela podia ver o mundo. E o pai cantava uma canção que dizia: “Você é minha luz do sol. Você me faz feliz quando o céu está cinzento”.

Então, Linda teve um bebê. Quando ele completou cinco meses, ela decidiu que era a hora de mostrá-lo aos avós. Por isso, ela, o marido e o filho foram ao Havaí. Linda estava angustiada. Será que o pai a receberia? Ela estava levando um menino no colo, que pouco tinha a ver com os antepassados chineses.

Como mãe, ela dizia para si mesma que se seu pai rejeitasse o neto, ela nunca mais voltaria.

Ao chegarem, as saudações foram educadas. O velho chinês olhou a criança sem nenhuma reação.

Depois do jantar, o bebê foi acomodado em um berço em um quarto. Linda e o marido se recolheram para descansar. De repente, ela acordou em sobressalto. Havia passado a hora de o bebê mamar. Levantou-se. Nenhum som de choro. Pelo contrário, ela ouviu uma risada delicada de bebê.

Atravessou o corredor, chegou à sala. Seu filho, de apenas cinco meses, estava deitado em uma almofada, com as mãos e os pés em agitação alegre. Sorria para o rosto inclinado sobre ele. Um rosto asiático, bronzeado pelo sol. O avô dava a mamadeira para o netinho, enquanto lhe acariciava a barriguinha e cantava baixinho: “Você é minha luz do sol”.

A criança conseguira, em breve tempo, conquistar o coração do avô e colocar um fim ao afastamento tolo entre pai e filha. Hoje, o avô chinês caminha feliz, seguido por uma sombra saltitante de olhos cor de mel e cabelos encaracolados de quatro anos de idade.

Aceite As Mudanças Nos Planos

É comum “desenharmos” nossa felicidade em nossa mente. Imaginamos um mundo colorido e perfeito, cheio de alegrias e felicidades. Trazemos às nossas preces que tudo saia da forma como sonhamos, em especial quando o assunto é a felicidade de nossos filhos - achamos que só aquele modelo que arquitetamos é o que fará a nossa prole feliz.

No entanto, o mundo está em constante mudança, e algo que você sonhou há uma década ou 10 minutos atrás pode ter alterações de rota; mas, nem por isso deixará de ser perfeito.

Na vida de nossos filhos, em nossos casamentos, em nossas amizades, em nosso trabalho ou nas coisas mais simples de nossas vidas, criamos expectativas sem ter planos B ou C. Elas representam aquilo que acreditamos ser o mais correto e o mais propício à felicidade.

Mas nos esquecemos de que em nossos planos há sempre outras pessoas ou fatores externos, que não dependem de nossa decisão e não temos nenhum poder de mudar.

E, quando acontece isso, vem a frustração: “Se não é do meu jeito, recuso-me a me entregar à alegria”.

Há diversas formas de ser feliz. Mas não se render às mudanças de planos é uma das principais formas de ser infeliz.

Por isso, sempre digo em minhas palestras e textos que, mais importante do que “O QUE” você quer é o “POR QUE” você quer aquilo. O pai chinês poderia, sim, sonhar com um casamento tradicional de sua filha, com um grande homem de seu clã. Mas, mais do que isso, o foco principal deveria ser: Por que eu quero isso? Se a resposta fosse “para que minha fi lha seja feliz ao lado de alguém” ou “para que ela me dê um lindo netinho” a frustração não existiria, já que o objetivo principal - o porquê - teria sido cumprido.

Sonhe a cores. Desenhe detalhes de seus desejos. Mas lembre-se que este desenho é apenas um “rascunho”. Quando se tornar real, não se importe com divergências se o resultado for o que você esperava.

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