A bailarina cega, Cláudia Raia e outras personagens de uma história de amor

Por: Rogério Sautner
02 Setembro 2021 - 00h00

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A pequena Joana sente, até hoje, a falta da tia Nina para diverti-la com suas histórias incríveis, emocionantes e engraçadas. Uma delas, lembra bem, é de uma bailarina cega, que vence os desafios da escuridão para brilhar nos palcos. Mas a tia Nina, de repente, sumiu e nunca mais foi até o quarto de Joana. Impedida de entrar nos hospitais em março do ano passado, ela e mais 1,3 mil voluntários da Associação Viva e Deixe Viver foram obrigados a também se recolher em casa por conta da pandemia de Covid-19. Todos os dias, no entanto, eles pensavam com carinho naqueles que continuavam em tratamento e, também, no corpo clínico que tanto apoia os contadores de histórias e que se viram sós nessa luta.

Isso sem falar no impacto causado na família. Uma pesquisa realizada no Hospital Infantil Menino Jesus, em São Paulo, demonstrou que, após a convivência com voluntários da Viva e Deixe Viver, 73% dos familiares manifestaram interesse em aumentar o número de vezes que lêem ou contam histórias para os filhos. Praticamente 100% dos responsáveis pelas crianças já sabem e sentem no dia a dia que esse tipo de ação ajuda a melhorar o bem-estar e a recuperação dos pacientes.

Como se não bastasse o isolamento das crianças hospitalizadas, o fechamento das escolas provocou o desamparo também dentro dos lares. Física e emocionalmente, os pequenos tentavam entender essa nova realidade que os afastava dos coleguinhas, dos professores, dos avós e de todo o mundo que agora circula com máscaras pelas ruas.

Entendemos que uma saída seria a de acelerar o projeto que tornaria a presença física dos voluntários em digital, fazendo o melhor para a contação de histórias chegar até o público final. Caseiramente, os voluntários da Viva começaram a gravar vídeos narrando histórias, com o objetivo de compartilhar em nossas redes sociais. Mas a ação ainda era tímida, com baixo alcance. Era preciso virar o jogo rapidamente.

Nasceu, assim, o Viva Personas. Acreditávamos que, com o engajamento de personalidades de diversas áreas, conseguiríamos acelerar e multiplicar o alcance das ações e, dessa forma, chegar aos lares de muitas famílias brasileiras. Além disso, fortaleceríamos nossa missão e marca junto aos mais diversos públicos, inclusive entre os convidados. Afinal, nem todos os artistas, atletas, profissionais de moda e apresentadores de TV contatados conheciam a Associação. Então, a vontade e o conhecimento da causa e das necessidades nos moveram mais uma vez e uma bem-sucedida trajetória de duas décadas da organização transmitiu a confiança necessária ao projeto. Também nos preocupamos em não envolver qualquer marca no Viva Personas para evitar conflito de interesse com os participantes do projeto.

Os convidados deveriam contar uma história, em torno de cinco minutos, com gravação doméstica por celular. Aqueles sem disponibilidade de livro infantil em casa podiam escolher um título à disposição no portal Bisbilhoteca Viva (www.bisbilhotecaviva.org.br). Esses títulos são de autoria de escritores preocupados em formar cidadãos conscientes da importância de acolher e elevar o bem-estar coletivo a partir de valores humanos como empatia, ética e afeto. Eles também ganharam novo holofote e projeção em todo esse processo.

E, assim, em 24 de junho do ano passado, a atriz e bailarina Cláudia Raia estreou o Viva Personas contando a história A Felicidade das Borboletas, escrita por Patrícia Engel Secco, que narra o fato real de uma criança cega e bailarina. Sim, aquela mesma personagem que tanto encantava a pequena Joana no hospital. No total, mais de 60 personalidades aderiram à causa, entre artistas, autores infantis, empresários como Antônio Fagundes, Emicida, Pedro Bandeira e até Alon Lavi - cônsul de Israel no Brasil. A causa era legítima, o pedido era sincero e a organização era confiável.

A partir daí, todos os nossos índices de visitas e engajamento nos canais digitais apresentaram salto imediato. O site da Viva passou de 10 mil visualizações em maio para 50 mil em julho de 2020. No ano, esse canal saltou de 139 mil para 277 mil visitas. Já no YouTube fechamos 2020 com 60 mil visualizações contra 5 mil do ano anterior. Boa parte deste resultado se deve ao amor, talento e engajamento de todas essas personalidades que se dispuseram a ser um voluntário contador de histórias da Viva por um dia.

Muita gente tem dito, acertadamente, que a crise nos tira da zona de conforto e acelera projetos. Não temos dúvida disso. Mas, para chegar lá, é preciso ter uma boa história para contar - e essa é uma delas. Vem contar e somar sua voz à nossa, ajudando a multiplicar sorrisos e momentos de amor à vida, à educação e à saúde?

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