Rio novo

Por: Aurimar Pacheco Ferreira
19 Novembro 2017 - 00h00

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Lá o mundo tem razão

São sete horas e doze minutos da manhã. A última curva da estrada em sessenta graus a Leste é pura força centrípeta e traz uma placa precária, mas taxativa: bem-vindo a Rio Novo. É a segunda vez nos últimos dois anos que o ônibus da viação Santa Rita grassa aquele território com nossas vinte e sete almas de trabalhadores da Grande São Paulo, seus sobressaltos, plataformas de metrô na lógica e engarrafamentos que nos habituaram à aura impura do cotidiano de megalópole.

Agora não. O município de Rio Novo*, em Minas Gerais, vem ao nosso encontro trazendo paz e luminosidade. Sua quase dezena de milhar de habitantes ainda dorme ao som e à luz do texto profundo de Carlos Drummond de Andrade, poeta mineiro homenageado na IV Festa Literária de Rio Novo, doravante aqui conhecida como FLIM.

Quando a praça central da cidade se abre à nossa frente, um tabuleiro em casario se estrutura para destacar que ali as coisas aconteceriam logo, logo. Nos bancos de pedra e árvores bem podadas da Plaza, o marco de assentamento inicial da cidade é agora ementário de uma noite já vivida intensamente na simbiose com o horizonte preguiçoso de um novo dia que parece nesse olhar, espreguiçar-se para despertar e nos receber. Traz um silêncio consentido pelas regras divinas. Nunca mais, naquelas próximas quarenta e oito horas, lembraríamos algo ruim, abafado ou cansativo. Nunca mais, naquele clima de cultura e confraternização e aprendizagem que se confirmaria desde seu anúncio, deixaríamos de sorver a companhia da alegria e da literatura como vinho de convivência.

Rio Novo é nova, clara, sutil e acolhedora. Adotou para si a pujança de um hobby dos cavaleiros da cultura, grupo de homens intrépidos que ressignificam o animal de tração dos contos populares pela mula com cabeça das cavalgadas pelas plagas mineiras. O peão não tem dúvidas: "a mula é mais inteligente, sensível e protetora que o cavalo. Quem monta, sabe. Ela pressente o perigo e prefere a segurança para si e para o cavaleiro muito antes do que qualquer outra montaria".

Esse saldo de conhecimento é sinérgico e propõem- -se a contaminar pelos olhos e coração aquela turba de crianças e adolescentes que entope nesse momento os espaços da plaza.

Às onze horas da manhã que agora decorrem, no papel de alunos e destinatários daquela festa popular e gratuita, circulam com seus livros presenteados, a inquietude própria de si, com as ideias em texto daquelas páginas a ser desvendadas. Muitos não resistem e, na grama central, folheiam sua analógica conquista de jovem aprendiz. Outros ostentam, com uniformes de escolas dos inúmeros municípios próximos, a novidade que lhes cabe bem. Um livro na mão e muitas ideias na mente para harmonizar. A noite chega prateada e a circulação de pessoas aumenta na proporção dos ruídos. Não há carros, não há pressa nem "perdeu, playboy". Em cada segmento de visitantes e moradores e festivos transeuntes da FLIM, a glória social de ser um cidadão do mundo na escolha livre de ali estar. Um tropel recorrente de cavalos nas ruas secundárias avisa que está chegando mais gente. Duas adolescentes sorridentes, de bonés, camisetas rosa adolescente e hormônios inteligentes pilotam com a naturalidade de um astronauta na estratosfera, uma charrete estilosa. Na boleia do veículo conversível e bem cuidado, uns objetos bem à vontade entre as duas. Uns kits de livros parecem ornar a paisagem com a certeza de que aquele dia era muito especial. Na távola lúdica da plaza central, uma jovem senhora jura para uma comunidade atenta de seres até seis anos de vida que é uma fada. Embora suas vestes tentem embromar a ideia pelo gosto duvidoso, não resta dúvida: ela é uma fada. Pelo menos na imaginação palpável daquelas deslumbradas retinas infatigáveis. Na mesa do restaurante, um senhor de décadas atrás recita sem critério que tem uma pedra em seu caminho. Drummond está de alma lavada. A FLIM uniu pessoas, sentimentos e comunidade em um exercício de convivência civilizada. No Facebook, um avatar cibernético postou: "sentada na praça observando o chafariz dançante e os olhares algo tristes dos vira-latas, a poesia se realiza nessa terra estranha". Sim, lá tem um chafariz.

Parece saída da letra da Marisa Monte, Rio Novo é um Vilarejo pra acalmar o coração, lá o mundo tem razão e toda gente cabe lá. E a fé na humanidade enfeitando os caminhos, os destinos e esse texto Xangri-lá.

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