No ar: doar

Por: Marcelo Estraviz
21 Junho 2013 - 21h56

É claro que você vê isso na timeline de seu facebook. Pedidos de apoio para esta ou aquela causa, misturados com algumas frases bonitinhas de autoajuda e as típicas fotos dos filhos dos amigos. Então poderíamos dizer que nada mudou, não é mesmo? Só que mudou sim. E sutilmente segue mudando. Esse infinito compartilhamento de coisas boas e ruins, de curtidas e comentários. Esse voyeurismo agora não só pela desgraça alheia, mas também pela causa do outro, pela briga por mais ciclovias, por mais educação nos estádios, ou até simplesmente pela redução de algo ou pelo aumento de outro algo. “Soy contra” misturado a um “todos juntos por alguma coisa”.
Então, sabe o que mudou? Mudou, pelo menos um pouquinho, essa coisa de esperarmos. Agora passa a ser cool fazermos algo, mesmo que pequeno, mesmo que discreto, mesmo que só com os amigos. Principalmente e saborosamente só com os amigos. Estamos nos doando. O rapazinho lá no fundo da sala acaba de dar sua risadinha sarcástica. Vamos então dar mais pano pra manga para o rapazinho: estamos nos DANDO.
Durante quase 15 anos de carreira, dediquei-me a ensinar e ajudar ONGs a conseguirem aliados, dinheiro, fortalecimento institucional. Nos próximos anos decidi fazer uma coisa parecida, só que do outro lado do balcão. Estou me dedicando a fazer as pessoas doarem. Não está difícil, porque, como disse, as pessoas já estão se dando pras coisas, sutilmente. Elas estão se entregando a pequenas atividades, pequenos gestos, pequenas e frutíferas relações.
Mas para que minhas ações possam ser avaliadas (eu sempre coloco metas nas minhas atividades, vício de origem), precisaria definir parâmetros, precisaria medir o quanto de fato eu e outros poderíamos aumentar o nível de doação de pessoas. Eu teria também que definir um espaço geográfico, um período de tempo, um conjunto de apoiadores… enfim, precisaria transformar um desejo subjetivo em uma ação objetiva e mensurável.
Aí surgiu uma oportunidade, de fazer uma palestra de encerramento no maior evento da América Latina sobre mobilização de recursos. Quase 600 pessoas dedicadas a captar recursos, envolvidas com causas das mais diversas, portanto, molas propulsoras para qualquer plano que envolvesse uma ação de engajamento coletivo neste país. Eu já havia escrito sobre mudanças de cultura de doação, e o desafio agora, o tema que me pediram para abordar, era algo potente e genérico: falar do futuro da captação. Tão geral que soaria bobo se eu me descuidasse.
Meus quatro slides serviram de bússola para o que eu diria ao final. Pois iria propor que todos os mais de 500 ativistas de causas se comprometessem, cada um com suas causas, a ampliar as doações para suas ONGs, em valores e em quantidade de doadores. Para facilitar suas vidas, falei de tecnologia, da possibilidade que já temos hoje de captar pelo celular. Perguntei se alguém já tinha alguma plataforma e surgiu uma ONG de Sergipe. Então, lá mesmo pedi que quem quisesse, doasse para a ONG de Sergipe. Repeti o número quatro vezes, como se deve fazer, facilitando para o doador, como a Hebe fazia no Teleton (aliás, pedi e deram uma salva de palmas para a saudosa Hebe). Falei que daqui a um ano faríamos uma doação em massa para uma ONG selecionada. Todos ao mesmo tempo. Falei que os ativistas e captadores são hoje, e serão cada vez mais, triatletas. Vão focar em pedir doações, transformarão voluntários em fundraisers e farão a ativação de ativistas. Tudo ao mesmo tempo.
O clima estava bacana naquele auditório. As pessoas animadas, excelente oportunidade para o fim de um evento positivo. Ótima oportunidade para um desafio. Perguntei a eles se sabiam quanto o brasileiro doa por ano. R$ 5 bilhões. Quanto dá em média para cada doador? R$ 300 por ano. Então perguntei quanto achavam que seria possível fazer em cinco anos. Muitas mãos se levantaram quando sugerimos que esse número fosse dobrado. Quando perguntei se poderíamos fechar com essa ideia, mais mãos se levantaram, mas ainda somente perto da metade. Depois, disse que em princípio não precisariam fazer nada muito além de aumentar o número de doações e doadores em suas organizações, e que com isso estariam contribuindo coletivamente para um resultado para o país. Assim que disse isso e pedi que levantasse a mão aquele que se comprometesse a que, em cinco anos, tivéssemos R$ 10 bilhões em doações de pessoas físicas, dobrando os números atuais, nem eu acreditei. Todos levantaram as mãos e aplaudiram ao mesmo tempo. Eu achei emocionante.
Então é isso. Daqui a cinco anos o Brasil dobrará o valor de doações de indivíduos e chegará a R$ 10 bilhões, pois há um compromisso. Cada um fazendo um pouquinho, pequenos gestos. Simples? Simples.

PS: Agradeço à ABCR, que me convidou a participar do Festival ABCR – FLAC em Salvador. E obrigado principalmente aos mais de 500 seres que, como eu, acreditam que é possível termos um país de doadores, ativistas e engajados.

 

Daqui a cinco anos o Brasil dobrará o valor de doações de indivíduos e chegará a R$ 10 bilhões, pois há um compromisso. Cada um fazendo um pouquinho, pequenos gestos

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