José Junior

Por: Thaís Iannarelli
01 Julho 2010 - 00h00

A vontade de mudar a difícil realidade em que vivia foi o que impulsionou José Junior a ser, hoje, um dos maiores empreendedores sociais do Brasil. Um dos fundadores do Grupo Cultural AfroReggae (GCAR), Junior viu na educação, na arte e na cultura ferramentas para mudar a história de crianças e jovens moradores de favelas do Rio de Janeiro.

Em 1992, fundou o GCAR, em princípio fazendo o jornal AfroReggae Notícias. O informativo era gratuito e se tornou um canal aberto para debates sobre os problemas que afetavam a vida dos pobres. Após a chacina de Vigário Geral, em 1993, quando morreram 21 moradores, o grupo expandiu sua área de atuação e passou a oferecer oficinas de percussão, capoeira, reciclagem de lixo e dança para os moradores da região.

Hoje, com 17 anos de existência, o AfroReggae já atua em cinco favelas e tem mais de 70 projetos em andamento. A instituição já ganhou prêmios nacionais e internacionais, e Junior, como fundador, também já foi agraciado com alguns: Medalha Pedro Ernesto, concedida pela Câmara Municipal do Rio de Janeiro e Medalha do Mérito Segurança Pública, do Governo do Estado. Além disso, já esteve na lista dos cem brasileiros geniais da atualidade, do jornal O Globo. Em 2006, foi também Jovem Líder para o Futuro Mundial, no Fórum Econômico Mundial de Davos. Em 2007, foi novamente citado no rol das cem pessoas mais influentes do país, pela Revista Isto É, além de ter sido um dos finalistas do Prêmio Trip Transformadores, da publicação de mesmo nome.

Atualmente, além de conduzir o AfroReggae, Junior está à frente do programa Conexões Urbanas, transmitido pelo canal a cabo Multishow. O objetivo é mostrar os diferentes guetos em que a sociedade está dividida, trazendo informações sobre sustentabilidade, cidadania e paz. Em entrevista à Revista Filantropia, Junior fala sobre o desenvolvimento social no país e as conquistas do AfroReggae.

Revista Filantropia: Como você começou a atuar na área social e qual foi seu incentivo para isso?
José Junior:
Nasci e cresci numa região violenta do centro do Rio. Vi muitos amigos meus se envolverem com drogas, crime e violência, até morrer. Eu mesmo era brigão. Mas quis fazer alguma coisa para mudar essa situação de injustiça social.

RF: Como surgiu o Grupo Cultural AfroReggae e quais são as suas principais conquistas até hoje?
JJ:
No início era só vontade, depois começamos a reunir pessoas com a mesma intenção de enaltecer a cultura afro-brasileira e o reggae. Começamos a produzir festas e reunir essa galera do reggae. Das festas, passamos para um jornal sobre esse assunto, o AfroReggae Notícias, mas ainda não era o suficiente. Comecei a me destacar um pouco no grupo quando conheci pessoas de dentro das favelas, e ficávamos imaginando a quantidade de talento que não estaria perdida pelos becos e entregue ao assédiodos bandidos. Logo em seguida veio a chacina de Vigário Geral, quando 21 moradores foram brutalmente assassinados por policiais militares. Pela primeira vez fomos convidados a participar de uma manifestação da iniciativa popular reconhecida como movimento, e nos instalamos em Vigário.

RF: Você considera que, do início dos anos 1990 para cá, houve alguma mudança nas favelas onde o AfroReggae atua?
JJ:
Com certeza as coisas melhoraram. Antes, a juventude se espelhava no traficante como um ídolo e herói. Hoje, eles querem ser artistas do AfroReggae, aparecer na televisão e ser famoso.

RF: E em relação ao país em geral, no que diz respeito
ao desenvolvimento social?

JJ:
Temos muito a fazer, são várias questões pendentes e o Brasil começa agora a sair do discurso de ser sempre o país do futuro para fazer parte dele, como um dos principais atores globais. O AfroReggae tem atuado como um realizador de ações sociais transformadoras cada vez mais reconhecidas lá fora.

RF: O que você acha da atuação das ONGs no Brasil, de modo geral, e a relação delas com o governo e as empresas?
JJ:
Cada ONG faz bem o seu trabalho dentro do escopo de projeto a que se propõe. O governo precisa e apoia movimentos de iniciativa popular, e esse tripé é uma tendência global que está se consolidando agora no Brasil. Se não formos a única instituição social, devemos ser uma das primeiras a fazer bom uso desse tripé organização social + governo + iniciativa privada. Essa relação é importante para a nossa independência
financeira, que garante a manutenção dos nossos cinco núcleos comunitários no Rio e de mais de 70 projetos para promover diretamente emprego e renda duráveis para a população que vive abaixo da linha da pobreza. Por exemplo, a cada ano saem da prisão quase 45 mil pessoas. Elas não têm nem o dinheiro da passagem, muitas vezes. Precisam que alguém promova oportunidades, pois quando saem da cadeia a única porta que continua aberta é a do crime. Precisamos reverter esse ciclo.

RF: Você é a favor ou contra a descriminalização da maconha? Por quê?
JJ:
Não uso drogas, nunca usei e sou contra o álcool e o tabaco também. Essa é uma discussão que abordei no Conexões Urbanas, para o episódio sobre legalização de drogas. Fiz um debate de alto nível e o denominador comum é que é preciso gerar emprego, novos negócios que sejam lícitos e alternativos ao narcotráfico. Outro dado é que o comércio de drogas só gera lucro porque há demanda. Nas comunidades de periferia tudo é difícil, a população não tem acesso a nada. É preciso oferecer alternativas à realidade de vida dessa população, levando cultura, arte, educação, capacitação e criando novas perspectivas para as gerações futuras. Muitos dos bandidos não querem ver seus filhos levando a vida que eles levam.

RF: O Brasil, hoje, é considerado um país com economia crescente e cada vez mais forte no cenário mundial. Porém, a desigualdade social continua a ser um fator muito presente na nossa realidade. Qual é a sua opinião em relação a essa controvérsia?
JJ:
O Brasil é imenso. O pouco que avança é proporcionalmente muito relevante se comparado aos outros países, mas o nosso foco tem que ser aqui dentro. Temos problemas muito graves de formação de violência e criminalidade, empregos informais e a própria corrupção, que são entraves para o nosso desenvolvimento. O Brasil tem oportunidade de crescer economicamente e, dentro de um contexto em que se fala muito em sustentabilidade, o país está ajustado a essas estratégias.

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